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Uma discografia essencial de Philip Glass (6)

Texto: NUNO GALOPIM

Neste 2017 em que se assinalam os 80 anos de Philip Glass, vamos aqui apresentar, ao ritmo de um disco a cada semana, uma lista daqueles que são os títulos mais marcantes da sua já muito extensa discografia. E esta semana viajamos até 1985…

Assinala-se a 31 de janeiro de 2017 a data dos 80 anos sobre o nascimento de Philip Glass. Longe vão os tempos em que era visto como um dos quatro pilares do minimalismo norte-americano (os outros três sendo La Monte Young, Terry Riley e Steve Reich). Longe vai também o momento em que uma obra como Einstein on The Beach causou espanto ao mostrar que (como outras obras suas contemporâneas), havia uma nova onda de agitação na relação entre o teatro e a música… Lembrando que, afinal, a ópera estava viva e de boa saúde.

A essas visões que marcaram a sua obra nas décadas de 60 e 70 o tempo juntou outras dimensões numa obra que traduz a alma de um espírito incansável que se estendeu pelo cinema, pela ópera, pela música orquestral, de câmara e instrumental e que conta ainda com inúmeros episódios de colaboração com outros músicos. E que não é muito dado a estar quieto. E que junta à criação e a um ainda intenso calendário de atuações e viagens um trabalho espiritual igualmente firme, sendo de resto uma das figuras centrais da Tibet House nova-iorquina (e alma dos concertos que anualmente aquela instituição organiza).

Aos 80 anos, Philip Glass é um compositor reconhecido em várias frentes, muitas vezes mais amado entre os seguidores de espaços pop/rock e amantes da música para cinema do que entre os seus pares. Vamos, ao longo deste ano, juntar aqui alguns dos títulos em disco mais marcantes da sua carreira:

“Akhnaten”
(CBS, 1987)

Estreada em 1983, Akhnaten completou uma trilogia de óperas-retrato encetada em Einstein On The Beach (1976) e continuada depois em Satyagraha (1980). Pensada para expor à plateia, através de uma sequência cronológica de eventos, a figura do faraó que governantes posteriores do Egito tentaram apagar da história (pelo que apontavam como “heretismo” de uma religião abandonada pouco depois do seu reinado), Akhnaten começa por nos colocar perante o funeral do seu pai, o faraó Amenófis III. Segue-se a coroação do novo rei, a sua adopção do novo culto, a fundação de uma nova cidade dedicada ao Sol. Ao mesmo tempo que os sacerdotes da velha ordem conspiram, o faraó vive, com a família, mergulhado numa fé que o afasta progressivamente do mundo à sua volta. O ataque à cidade e a morte da família real chegam no fim da ópera, seguindo-se um epílogo no presente, no qual os espíritos do faraó, sua mulher, mãe e filhas pairam sobre as ruínas da sua cidade.

Para o papel protagonista Philip Glass escolheu um contratenor (sublinhando um registo vocal pouco comum na época da estreia da ópera). Esta opção vinca o carácter andrógino que conhecemos das representações de Akhenaton que chegaram aos nossos dias e que hoje são por alguns egiptólogos tidas não como resultado de uma malformação física, mas antes uma construção simbólica de um rei que, como o seu Deus, era pai e mãe de tudo e todos. Por seu lado, a opção de não usar violinos sublinha o carácter sombrio da tragédia que se apresenta.

Afastada do minimalismo de Einstein On The Beach, sublinhando a busca de um lirismo e de qualidades narrativas entretanto já experimentadas em Satyagraha, Akhnaten foi, na altura, o trabalho mais próximo da tradição lírica de Philip Glass. A ópera, contudo, mantém firmes muitos dos seus princípios linguísticos, assim como segue ideias na construção do libreto que lhe permitem uma perfeita identificação com as duas outras obras que com esta completam a trilogia de óperas-retrato. Os cantores usam várias línguas, lendo e cantando textos oriundos de várias fontes, desde uma estela encontrada no túmulo de Ay (que se crê ter sido o penúltimo faraó da 18ª dinastia), textos biblícos e acádios, assim como fragmentos de recentes guias turísticos do Egipto. A narração, assim como o Hino ao Sol (a peça central da ópera) surgem na língua da plateia frente à qual a ópera é apresentada. Na gravação em disco editada em 1987 pela CBS Classics, toma o inglês (a língua do compositor) como referência. Nesta gravação, na qual Dennis Russel Davies dirige a Stuttgart State Opera, o papel protagonista cabe ao contratenor Paul Eswood.

1982. “Glassworks”
(CBS Records)

O final da década de 70 trouxera a Philip Glass um momento de reconhecimento global para a sua linguagem e obra. O impacte de Einstein on The Beach desencadeara um novo tempo de atenção para com a sua música e um acordo com a CBS Records assinalava a sua passagem do espaço das pequenas editoras (onde lançara os seus discos gravados nos anos 70) para um outro campeonato. O seu primeiro disco para a CBS reconhecia esse desafio. E representava uma ideia expressamente pensada para o formato do LP: um pequeno ciclo feito de seis peças ligadas entre si a que chamou Glassworks.

Arrumado em três pares de composições, Glassworks surgiu com os recursos do Philip Glass Ensemble em mente, aos instrumentos habituais nas suas performances juntando-se como novidade maior o piano. As seis peças compostas e gravadas em estúdio refletem heranças evidentes da linguagem que Glass vinha a desenvolver desde meados dos anos 60, refletindo todavia sinais de uma certa sensibilidade pop. A opção foi intencional, o próprio compositor tendo explicado que via o disco como um espaço de comunicação e apresentação a outros públicos que até então não tinham contactado com a sua música.

Os objetivos foram alcançados. Glassworks tornou-se num dos títulos de referencia da discografia de Philip Glass e gerou inclusivamente a edição dos singles Facades e Rubic. Alguns dos andamentos deste “ciclo” ganharam depois expressão em palco servindo coreografias. E a peça de piano solo que abre o disco conheceu várias outras interpretações e é presença em alguns recitais de piano.

1985. “Mishima”
(Nonesuch)

Mishima foi um dos primeiros trabalhos de Philip Glass para o grande ecrã e correspondeu à terceira banda sonora em nome próprio que editou em disco, sucedendo assim a North Star, de 1978 e Koyaanisqatsi, de 1982. O filme, Mishima – A Life in Four Chapters, de Paul Schrader, aborda (de forma algo distinta dos modelos mais habituais dos biopics) a vida e obra do escritor japonês Yukio Mishima e teve estreia mundial na edição de 1985 do Festival de Cannes onde venceu mesmo um prémio pelos contributos do diretor de fotografia, do diretor artístico e do compositor da banda sonora. Plástica e narrativamente desafiante, o filme conhece de facto na partitura de Philip Glass um dos seus maiores trunfos.

Criada num tempo de transição, após um longo período em que a escrita para o seu ensemble tomava parte central das suas preocupações e um momento de novos desafios para orquestra e vozes, a música de Mishima reflete ainda uma vontade em redescobrir o trabalho para quarteto de cordas que havia em tempos ensaiado ainda nos dias de estudante e que recentemente tinha retomado em Company (de 1983). A gravação das peças para quarteto de cordas que integram a banda sonora (que em vários momentos envolve ainda a presença de uma orquestra) assinalou o encetar da colaboração discográfica entre Philip Glass e o Kronos Quartet.

Mishima teve edição em LP e CD logo em 1985 naquele que foi o primeiro lançamento do compositor pela Nonesuch Records. Uma reedição da mesma gravação surgiu, anos mais tarde, incluída na caixa Philip on Film, lançada em 2001.

1986. “Songs From Liquid Days”
(CBS Records)

É pop e não é pop. É clássico e não é clássico. Os jogos de paradoxos que eventualmente possam morar na identidade da música de Philip Glass ganharam expressão maior em Songs From Liquid Days, um ciclo de canções que o compositor criou para edição em disco em meados dos anos 80. O compositor tinha há alguma experiência na criação de música vocal, em concerto através dos seus primeiros trabalhos para os palcos da ópera. Mas a ideia de trabalhar mais a fundo a canção era um desafio a enfrentar.

A canção, que o compositor identifica nas notas que acompanham o disco como a “mais básica das formas de expressão musical” era o objectivo a trabalhar, o ponto de partida encontrado em palavras pedidas a David Byrne, com quem já antes havia trabalhado. A ele juntou as colaborações de Paul Simon, Suzanne Vega e Laurie Anderson, figuras com experiência em campos pop/rock que admirava não apenas pelo seu trabalho de composição mas também pela carga poética da sua escrita. Só depois de encontrados os poemas avançou a composição. E, no fim, e através de um casting, as vozes. Assim se juntaram num mesmo disco, nomes como os acima citados e ainda os de Linda Rondstat, Douglas Perry, The Roches ou o Kronos Quartet. Songs From Liquid Days, que precede futuras composições e arranjos para as vozes de Marisa Monte, Pierce Turner, Mick Jagger ou Ute Lemper e, mais tarde, um novo ciclo de canções com poemas de Leonard Cohen, é um herdeiro directo da relação próxima com a cultura popular partilhada por algumas figuras da “vanguarda” nova-iorquina dos anos 70 e, ao mesmo tempo, um fruto do progressivo trabalho para lá dos fundamentos básicos do minimalismo nos quais nascera a linguagem musical de Philip Glass. Notam-se ainda não apenas sinais de um mais largo espectro de soluções nos arranjos (que Glassworks, de 1982, já havia sugerido) e ainda ensinamentos colhidos em primeiras experiências na ópera.

Disco que revela assim uma ideia algumas numa terra de ninguém entre mundos distintos, Songs From Liquid Days pode ser hoje encarado como um marco fundamental na história da abolição progressiva de velhas barreiras de género na música que hoje tanto leva um Sufjan Stevens a desafiar os horizontes da linguagem pop/rock num Age of Adz ou um Osvaldo Golijov a integrar as novas electrónicas em Ayre.

“La Bele et la Bête”
(Nonesuch, 1995)

O cinema encontrou muito cedo um espaço relevante na obra de Philip Glass. Em Paris, em meados dos anos 60, foi ao trabalhar na banda sonora de Chappaqua que conheceu Ravi Shankar e, desse encontro, emergiu a visão que moldaria a geração da sua própria música. Trabalhou depois regularmente em música para cinema a partir de finais dos anos 70, com exemplos notáveis em bandas sonoras como as de Koyaanisqaatsi (1983, de Godfrey Reggio), Mishima (Paul Schrader, 1985) ou The Thn Blue Line (Erroll Morris, 1988). Nos anos 90 teve, contudo, uma ideia diferente. E que tal encarar o cinema como ponto de partida para a criação de uma obra? Ou seja, em vez de se limitar a juntar algo a uma peça que conta com a sua música como parte do seu corpo, que tal de um filme partir antes para a criação de uma obra musical que não o serve, antes tem valor independente por si mesma?

Foi assim que entendeu uma trilogia de óperas que criou tendo por base três filmes do realizador, pintor e escritor francês Jean Cocteau. Foram elas Orphée, La Belle et La Bête e Les Enfants Terribles, em cada uma encontrando uma forma muito particular de abordar os filmes como ponto de partida para ideias e concretizações sempre diferentes. Em Orphée usou a história. Em Les Enfants Terribles recuou ao livro que esteve na base do filme. E em La Belle et la Bête foi mais longe, criando uma ópera que se ajustava à projeção síncrona do filme, as próprias vozes dos cantores ajustando-se aos movimentos dos lábios dos cantores.

La Belle et La Bête, além deste esforço de rigor na gestão do tempo e do espaço musical, é também um reflexo da busca de uma dimensão mais lírica na sua linguagem e, portanto, um marco importante na sua obra. A ópera teve edição em disco pela Nonesuch em 1995. Mais tarde foi lançada uma versão do filme de Cocteau em DVD com a ópera como canal áudio extra.

2007. “Book of Longing”
(Orange Mountain Music)

A Orange Mountain Music apresentou, em 2007, num formato de CD duplo, o disco que correspondeu a uma das mais extensas e mediatizadas das digressões que o compositor protagonizou. Trata-se do ciclo de canções Book Of Longing, baseado em poemas de Leonard Cohen, contando inclusivamente com a sua voz em algumas leituras e com os seus desenhos e pinturas como suporte visual.

O projecto começou a nascer há já algum tempo, dando voz a uma antiga admiração de Glass por Cohen. Ao ler estes poemas, Glass descreveu-os como “intensamente belos, pessoais e inspiradores”. Propôs ao canadiano um projecto para uma noite de música, poesia e imagens. O sim foi imediato, e mãos à obra… A estreia mundial ocorreu em Toronto, seguindo-se longa digressão que passou por várias cidades, a última das quais Madrid, em finais de Outubro. Book Of Longing parte de poemas escritos ao longo de 20 anos por Leonard Cohen, oito dos quais vividos no mosteiro budista de Mt. Baldy. Os poemas reflectem formas e temáticas variadas. Há baladas, poemas de amor, episódios autobiográficos, meditações, e até mesmo pequenos momentos de humor.

A gravação emprega o ensemble de músicos e vozes que acompanharam a digressão de apresentação desta obra As vozes – Dominique Plaisant (soprano), Tara Hugo (mezzo soprano), Will Erat (tenor) e Daniel Keeling (barítono) – juntam-se em agrupamentos diversos, conferindo ao todo uma consistência evidente, um sentido de unidade, de obra.

Formalmente Book Of Longing é substancialmente diferente de Songs From Liquid Days, ciclo de canções de meados de 80 no qual, mais próximo de uma curiosidade pelas características da canção pop, se assinalou inesquecível colaboração com figuras como David Byrne, Paul Simon, Suzanne Veja e Laurie Anderson. Mais próximo do que conhecemos do teatro musical de Glass (as suas óperas e demais obras de grande dimensão para palco), este é um conjunto de quadros que nascem dos poemas, da música e do canto. A junção das palavras à música é perfeita. A clareza da dicção sublinha a importância da palavra. O universo de Cohen ganha novas visões. E a música de Glass conhece aqui uma das suas obras de referência da presente década.

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