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Será que o tempo cura mesmo tudo?

Texto: NUNO GALOPIM

Terceira experiência na realização de um autor com obra feita na escrita para teatro e para cinema, “Manchester By The Sea” é um drama familiar passado numa cidade costeira do Massachussets que reflete sobre os ecos que o silêncio não cala sobre feridas antigas.

Podia ser a história de um familiar nosso, de um vizinho ou alguém conhecido e coisa daquelas que se podia esgotar num breve comentário de rua ou café quando se diz, “olha, aconteceu isto”… Mas dos (aparentes) pequenos nadas de que são feitas as nossas vidas Kenneth Lonergan consegue ir mais fundo e construir um dos mais arrebatadores dramas familiares que o cinema americano nos deu a ver nos últimos tempos.

O filme, que teve uma génese pouco tranquila (e que passou por várias opções de elenco e até de realização antes de acabar nas mãos do dramaturgo Kenneth Lonergan, autor do argumento e já com experiências como realizador em filmes como You Can Count On Me (2000) e Margaret (2011). Convenhamos que as reviravoltas, aqui, acabaram por conduzir tudo e todos no melhor dos sentidos. E que acabou por dar razão a uma aposta da Amazon, que o comprou depois da sua estreia, há um ano, em Sundance.

Manchester By The Sea é na verdade o nome de uma povoação costeira no norte do Massachussets, a hora e tal de viagem de carro a partir de Boston. A tranquilidade daquelas paisagens, a aparente inexistência de acontecimentos invulgares que aqueles cenários sugerem e o clima de frio inverno no qual grande parte da ação decorre sublinha o ambiente realista com o qual mergulhamos nestas histórias do quotidiano. A solidez do argumento, a espantosa direção de atores (e tanto Casey Affleck como Michelle Williams são avassaladores) e a cuidada realização que sabe como usar as figuras e a trama no contexto do lugar onde se encontram dialogam depois entre si para ali fazer surgir um daqueles raros filmes que começam por parecer coisa tão simples e aparentemente divorciada das leis do mercado, mas cuja capacidade de estabelecer empatia com uma plateia gera depois um efeito bola de neve quando alguém que sai da sala satisfeito passa depois a palavra, E assim foi, com o filme a ter conhecido uma estreia em poucas salas, do entusiasmo que começou a gerar em finais do ano tendo resultado o patamar de visibilidade que começa (justificadamente) a merecer.

O filme coloca-nos perante a história de uma família, no momento em que o protagonista (que trabalha como porteiro e faz-tudo de quatro prédios em Boston) é confrontado com a notícia da morte súbita do irmão, sendo obrigado a regressar a Manchester By The Sea onde o aguarda a inesperada revelação de que lhe caberá a custódia do sobrinho de 15 anos. A caudal aparentemente simples dos acontecimentos na verdade tem vários afluentes, cada qual trazendo aos poucos memórias que acabam por definir um quadro mais complexo. Entre elas há feridas e dores antigas, que os anos e a distância tentaram silenciar. A evolução narrativa deixa-nos depois a pensar se aquela máxima que diz que o tempo cura tudo será, de facto, verdade.

“Manchester By The Sea”, de Kenneth Lonergan, com Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler, Gretchen Mol e Lucas Hedges, está em exibição nas salas de cinema.

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