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No meio de uma batalha… no ano 9

Texto: NUNO GALOPIM

No quinto volume da série “As Águias de Roma” Marini cruza mais do que nunca a sua trama de ficção com factos reais ao focar todo este livro em torno da batalha na qual as tribos germânicas derrotaram as pretensões romanas na região.

É bem verdade que Astérix e Obélix comentavam, vezes sem conta, que “estes romanos são loucos”… A realidade conta-nos que, se aqui há loucura, ela está sobretudo no plano do grande apetite com o qual os leitores de banda desenhada, e falamos da que chega das frentes franco-belgas, acolhem histórias passadas nos tempos… dos romanos. Trata-se de um arco temporal relativamente extenso, recuando quer às origens do povoamento da cidade das sete colinas (não se trata aqui de Lisboa, mas sim de Roma) e as transformações que conduziram a Bizâncio já em plena Idade Média. E houve já histórias um pouco por todos esses tempos, assim como por muitas das geografias que o mundo romano conheceu.

As aventuras de Astérix, e também as de Alix (a mais célebre das criações de Jacques Martin) definiram as bases históricas de um interesse na BD que gerou um público e descendências criativas. Mas é bem possível que se deva ao impacte da série Murena (de Jean Dufaux e Philippe Delaby, estreada em 1997) e ao sucesso global do filme Gladiador (2000), de Ridley Scott a génese de um novo surto de interesse por histórias com berço romano. E que vão da belíssima série Roma (da HBO, em produção entre 2005 e 2007) e de As Águias de Roma, de Enrico Marino que, juntamente com os álbuns da série Murena, representa o melhor do filão que tem revelado resultados (e renovados apetites) depois da viragem do século.

Desenhador suíço com 47 anos, Enrico Marini tinha já uma obra extensa publicada na companhia de vários argumentistas quando, em 2007, apresentou uma nova série na qual juntava ao desenho o seu trabalho também enquanto autor do texto. Sucessor de séries como Les dossiers d’Olivier Varèse (de 1990 a 1993), Gipsy (com Thierry Smolderen, entre 1993 e 2002) ou Rapaces (com argumento de Jean Dufaux, o mesmo de Murena, entre 1998 e 2003), As Águias de Roma sugeria, logo no primeiro volume, a base de uma narrativa que não seguia (como em Alix, por exemplo) a lógica dos álbuns com trama que se resolve num só volume e apostam sobretudo na continuidade do protagonismo das personagens. Tal como em Murena (e mais recentemente em Alix Senator) havia antes uma continuidade, a cada volume correspondendo um episódio de uma história única. E, tal como em Murena, a exploração de um registo erótico na relação das personagens com os corpos e a sexualidade sublinhava outra das características fulcrais da identidade da trama que Marini ali lançava. Face a Murena (com quem fazemos necessariamente comparações já que são contemporâneas) há aqui uma diferença maior: apesar de uma etapa vivida em Roma, a alma da série está nas periferias do império, mais concretamente nas linhas de fronteira que separava o mundo romano das tribos germânicas nos primeiros tempos do império.

A história vive em torno de dois irmãos de sangue. Um deles, filho de um chefe tribal germânico, fora dado a Roma pelo próprio pai na sequência de uma derrota militar. Educado entre romanos, cresceria com o nome latinizado Armínio e chegaria a oficial do exército romano. O outro, Marco, era filho do homem a quem coube a educação de Armínio. Educados juntos, amigos maiores nos dias de juventude, Armínio e Marco têm visto os respetivos caminhos cada vez mais distantes um do outro com a evolução da trama nos quatro primeiros volumes da série. Agora, o quinto, adivinha a rutura, numa altura em que Armínio decide retomar o seu lugar junto daqueles entre os quais nasceu, apresentando-se como líder capaz de unir as tribos contra… Roma.

Se entre os quatro primeiros volumes Enrico Marini tinha tentado cruzar cenários e algumas figuras reais (entre as quais a de Armínio) com uma trama de ficção, neste quinto os ganchos que ligam esta narrativa às memórias reais da história são maiores do que nunca. Sobretudo porque, sem dispensar a continuação de uma construção de uma dimensão pessoal para as personagens (e entra em jogo, mais do que nunca, a noção de família para ambos os protagonistas), o álbum é praticamente todo ele centrado sobre um acontecimento verídico: a batalha da floresta de Teutoburgo, que opôs germanos e romanos no ano 9, resultando numa derrota tremenda para as forças de Roma, que teria consequências na disposição definitiva de uma zona de fronteira para lá da qual a expansão imperial a nordeste se tornou impossível.



Numa entrevista na qual explicou este volume cinco, Marini evocou o filme Titanic, de James Cameron para nos lembrar como, mesmo sabendo nós o desfecho de uma história real, é possível abrir espaços de criação narrativa através da exploração das personagens e do espaço em seu redor (aqui por via do trabalho das aguarelas com que Marini lança as pranchas). Por isso, além da já referida nova dimensão familiar que as duas figuras centrais de As Águias de Roma aqui conhecem, há neste quinto volume uma aposta na caracterização dos espaços pela cor. As atmosferas sombrias das florestas germânicas nas quais o cinzento opressivo da cor do céu contrasta com a memória da luz de outros volumes, quando Roma estava no cenário, vincam essa identidade. Além disso o volume aposta no desafio de ser, quase todo ele, o relato de uma batalha (juntamente com o que a precede e as consequências imediatas). Convenhamos que, mais do que entre os álbuns originais da série, As Águias de Roma estão agora a voar melhor…

“As Águias de Roma- Volume 5”, de Marini (com tradução de Paula Caetano) é uma edição de 62 páginas em capa dura pela Asa.

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