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A escuta e a reflexão

Texto: ANDRÉ LOPES

O novo álbum de Brian Eno dá continuidade à estética sonora que o músico soube construir durante a década de 70. Em 2017, o que se ouve em “Reflection” soa vital, mas não imprescindível.

Quando em 1975 a força de circunstâncias hospitalares levou Brian Eno a pensar na expressão musical como um elemento de existência concreta por si só, Discreet Music (1975) compilou de forma inédita um conjunto de faixas que marcariam para sempre não só o trajecto criativo do seu autor, mas a história da música contemporânea como a conhecemos hoje. Esse disco inaugura formalmente as experiências de Brian Eno com a dita “música ambiente” que a seu tempo viria a tornar-se uma das suas principais imagens de marca. Contudo, as afinidades do músico com ideias minimalistas foram anteriormente vislumbradas, ainda que de forma limitada, em (No Pussyfooting) (1973): álbum assinado conjuntamente com Robert Fripp, no qual começaram a ser trabalhadas ideias focadas na repetição e na repodução cíclica de fita magnética, em paralelo com exercícios texturais de guitarra eléctrica. Com o final da década, Brian Eno iniciaria uma sequência de discos que exploram o domínio da música ambiente de forma inédita: a série Ambient (iniciada em 1978 com Music for Airports) juntaria o músico inglês a figuras como Harold Budd ou Laraaji, revelando este tipo de composição como um mundo por explorar, sem restrições maiores.

A lógica destes discos é inegavelmente experimental e minimalista, ainda que os espaços percorridos sejam diferentes daqueles que tipicamente se associam a Steve Reich ou Philip Glass. O propósito de Brian Eno acaba por encontrar um paralelo mais legítimo em Erik Satie que, nas primeiras décadas do séc. XX, idealizou a possibilidade da música, enquanto expressão, poder de facto coexistir com os seus ouvintes de uma forma não-participativa ou antes: inobtrusiva. Sendo um raciocínio que põe em causa o próprio conceito de “música popular”, é por aqui que podemos encontrar a matriz de Ambient 2: The Plateaux of Mirror (1980), Ambient 3: Day of Radiance (1980) e Ambient 4: On Land (1982), discos que com base num conjunto de instrumentos variados (ouvem-se, teclas variadas, gravações de campo, cítara, dulcimer) apresentaram um desafio. Nada por aqui soa austero ou pouco convidativo, mas talvez este tipo de sonoridade exija, a quem ouve, uma predisposição para confrontar a música – ou o som – de forma menos rígida.



A exploração desse tipo de sonoridade manteve-se central à sua escrita de Brian Eno em vários discos editados ao longo das década seguintes. Temos exemplos em títulos como Apollo: Atmospheres and Soundtracks (1983), Thursday Afternoon (1985), que inclui os maneirismos de Discreet Music ou, um pouco mais tarde, em Neroli (1993), que mostra um interesse em abordagens mais ritmadas. O novo século trouxe uma incursão por trabalhos mais luminosos – Lux (2012) que em muito se inspira na lógica da série Ambient, com um sentido cénico menos tenso e por isso menos intrusivo. De alguma forma, a demanda de Brian Eno pelo seu próprio território de música ambiente nunca se direcionou para a estagnação, procurando de alguma forma renovar percepções sobre a versatilidade do género.The Ship (2016), por exemplo, fez por juntar a voz como elemento passível de adaptação ao contexto da música ambiente

Reflection será um dos lançamentos mais marcantes do presente mês de Janeiro ao expandir (mas não repetir) a premissa que guiou os restantes discos de música ambiente editados por Brian Eno. As melodias cíclicas que pavimentam muita da musica criada actualmente com esse rótulo não habitam por aqui. O minimalismo continua a ser o paradigma de base, porém este é um álbum que nos faz imergir numa composição ampla e preenchida com possibilidades que, instante a instante, são trabalhadas de forma consecutiva mas extremamente cuidada.

Trata-se de uma audição imersiva, onde ao longo de quase uma hora somos forçados a aceitar que a música ambiente, ainda que constituindo idealmente um elemento quase neutro, não vence necessariamente ao ser previsível. Ao considerarmos o próprio título, talvez este seja realmente uma obra onde o seu autor contempla o seu legado sem saudosismo, mas com uma possível vontade de aprofundar o sentido de introversão que pode desencadear. Longe de ambivalente ou estática, a faixa única que constitui Reflection desnvolve-se delicadamente e consegue de forma recatada, parecer eterna.

Com Reflection, Brian Eno acentua com mestria um modo próprio de percorrer os limites entre a acessibilidade e o desafio, já que este é uma audição que resulta tanto como experiência etérea por si só, como por terreno a mapear para quem oiça com mais atenção.

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1 Comment on A escuta e a reflexão

  1. Esta sua experiência recente convida ao relaxamento, à meditação, à atenção, ao silêncio. Bom para escapar ao frenesi de todos os dias.

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