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Uma diva desafinada segundo uma atriz “sobrevalorizada”

Texto: NUNO GALOPIM

Numa altura em que se tornou num símbolo de alerta sobre os tempos que se anunciam, Meryl Streep tem neste recente (e ligeiro, mas bem feito) filme sobre a diva Florence Foster Jenkins mais uma demonstração clara de que é uma das maiores atrizes do nosso tempo. O filme está disponível agora em DVD e VOD.

A história da cantora que não era capaz de cantar guarda em si razões que habitualmente ficam por explicar. Porque se exporia em público alguém que, repetidamente, seria incapaz de entoar, de forma afinada, a mais simples e curta das frases musicais? Delírio e sonho, demência, ilusão consentida?… E, também, como de resto o têm mostrado as várias abordagens biográficas, um jogo de interesses, chegando os aplausos de quem escuta a desafinação mas aplaude com o entusiasmo de quem acabara de escutar uma diva maior do bel canto. O filme que Stephen Frears cria com base na reta final da vida da socialite nova-iorquina Florence Foster Jenkins (1868-1944) deixa algumas dessas eventuais razões por explicar. Mas mesmo sem o porquê enunciado, mostra uma vez mais segurança narrativa na construção de um biopic (em 2016 estreou também entre nós outro, de sua autoria, sobre o ciclista Lance Armstrong). E torna definitivamente num ícone da cultura popular uma das mais intrigantes figuras que a história da música do século XX conheceu.

Uma Diva Fora de Tom não nos dá o era uma vez de fio a pavio, concentrando o arco narrativo num fim de vida quando, na Nova Iorque dos anos 40, Florence Foster Jenkins, mentora de diversas estruturas de apoio e financiamento a instituições musicais da cidade, resolve sair do “casulo” protegido e controlado para o qual, entre amigos, habitualmente dava recitais para descobrir os estúdios de gravação (para criar discos que pretendia oferecer como presente e não peças destinadas ao mercado) e, mais adiante, e por uma primeira vez, dar uma atuação numa grande sala – o Carnegie Hall – com bilheteira aberta…

A primeira nota afinada de Stephen Frears está no casting, com Meryl Streep a vestir um papel tragicómico que sustenta toda a construção em seu redor, contracenando com Hugh Grant (no papel do marido) e Simon Helberg (no papel do pianista que a acompanhava nos ensaios, em palco e até para ela chegou a compor). E é de um investimento maior na construção das personagens – em cujos diálogos surgem, aos poucos, retratos adicionais das vidas de cada um – e de um trabalho exigente de art direction que nasce, com clareza classicista, um olhar sobre uma figura que o teatro já visitou em diversas ocasiões, que inspirou ainda recentemente o filme Margerite, de Xavier Gianolli e que tem a sua escassa obra gravada disponível em vários lançamentos discográficos, um deles, sob o título Murder in the High Cs, editado pela prestigiada Naxos.

Cinco dias depois de uma inesquecível atuação no Carnegie Hall – e digo “inesquecível” porque, segundo nos conta o filme de Stephen Frears, é a gravação de arquivo mais vezes requisitada naquela sala nova-iorquina -, Florence Foster Jenkins morreu vítima de um ataque cardíaco quando fazia compras na mesma cidade que a transformara, para o melhor e o pior, numa das “sensações” musicais daquele tempo.

O concerto fora um verdadeiro acontecimento. Não era o primeiro recital que dava. Mas até então a socialite – que apoiava e financiava pessoalmente inúmeras instituições musicais da cidade – só tinha atuado em espaços reservados, com acesso limitado e controlado, entoando assim para plateias de amigos a sua absoluta incapacidade em cantar afinada e toda uma postura algo invulgar em divas do bel canto. Pois naquele serão de 26 de novembro de 1944, Florence Foster Jenkins (1868-1944) cantava para um Carnegie Hall com sala esgotada, havendo notícia de que mais de duas mil pessoas terão ficado na rua, sem poder entrar. Mal fora anunciado, o recital foi alvo de um surto de interesse e a bilheteira esvaiu-se num instante… A casa estava cheia – inclusivamente com figuras de relevo da vida musical nova-iorquina – na plateia (e alguns eram mesmo genuínos admiradores). E quando, acompanhada pelo pianista Cosmé MacMoon, Florence entra em palco e dá a primeira nota, uma atmosfera de tensão instala-se. Entre a vergonha alheia de uns, a eventual admiração perante tão ousadia de outros, o riso ou o choque, o silêncio desta vez fora impossível de se manter. Há relatos de que uma atriz foi retirada do seu camarote depois de um ataque de histeria. E entre aplausos e apupos a noite fez-se única, com a crítica a desmontar o que ali acontecera nos jornais do dia seguinte.

Era o ponto final de uma vida dedicada à música e feita de sonhos, cheia de factos concretos mas também de muitas notas ainda hoje por explicar (nomeadamente as razões concretas de tamanha incapacidade para notar a total ausência de voz).

Nascida numa família abastada da Pensilvânia, Florence Foster Jenkins começou cedo a tocar piano e aos oito anos de idade deu um recital na Casa Branca. Porém, ao deixar claro perante o pai que pretendia fazer uma carreira na música, optou por sair de casa a ter de viver com o “não” com que a declaração fora recebida. Casou em Filadélfia com Frank Jenkins mas, um ano depois, ao saber que tinha contraído sífilis por via dele, separou-se, mostrando resiliência ao iniciar uma nova vida, dando aulas de piano para se sustentar. Uma lesão numa das mãos destruiu os sonhos de uma carreira concertante. Mas a música não desapareceu nunca do seu horizonte. Tanto que, anos depois, já a viver em Nova Iorque, num segundo casamento – com o declamador St. Clair Bayfield – e depois de ter herdado a fortuna do pai (que morre em 1902), Florence torna-se numa figura de relevo da sociedade nova-iorquina, ganhando visibilidade através da sua paixão pela música e pelos dólares com que passou a financiar projetos, tendo, entre outros, fundado o Verdi Club.

Começou a ter lições de canto… Mas em nada a cantora de então traduzia o talento em potência da pianista que antes fora. Desafinava tremendamente. Mas cantava. E por vezes entre amigos, entre os quais figuras de relevo do meio musical da cidade. Cole Porter, por exemplo, riu e comentou sem filtro um dos seus recitais. Mas raramente faltava… Mozart, Verdi, Brahms e algumas composições inéditas criadas com o pianista Cosmé MacMoon faziam os programas, que aos poucos se tornaram num segredo bem guardado, mas com comentado com meias palavras, quase criando uma personagem com a tessitura de um mito.

As poucas vezes que gravou em estúdio fê-lo para alimentar o mesmo circuito próximo de amigos que comparecia em recitais que ia dando, invariavelmente à porta fechada, em salões de grandes hotéis da cidade. Estas gravações estão hoje disponíveis em disco.

Aos 76 anos, o recital no Carnegie Hall foi o momento climático de todo este percurso invulgar. Por um lado deu-lhe a plateia de dimensão maior e os aplausos (porque os houve) com que sonhara. Por outro as críticas contundentes que traduziram em palavras despidas de filtro o invulgar momento que aquela sala presenciara na véspera. Se o impacte destes textos terá ou não precipitado a sua morte não o sabemos. Doente há longos anos, sujeita a tratamentos com mercúrio e arsénico, e com uma idade relativamente avançada para os padrões da época, Florence Foster Jenkins não tinha já a força que a fizera sobreviver nos anos em que não nadou em notas de dólar.

O seu legado enquanto “cantora” é frequentemente fonte de sátira e motivo de riso. Mas convém não esquecer que a vida musical de Nova Iorque, quer depois da Grande Depressão quer em tempos de guerra, sobre muitas vezes meter tampões nos ouvidos, sorrir, e aceitar os dólares com que Florence Foster Jenkins manteve o coração de várias instituições a bater em bom ritmo e a cantar afinadamente.

O filme de Stephen Frears é uma ficção inspirada numa figura real e não um docudrama, pelo que aqui e ali a narrativa toma atalhos e segue por transversais que não correspondem exatamente à realidade, estando contudo sempre talhados em função de uma verosimilhança que nunca é abalada. O rol de “admiradores” – de Arturo Toscannini a Cole Porter – e uma representação tão realista quanto possível dos atributos vocais da protagonista servem um retrato tão credível quanto capaz de servir uma plateia de cinema que antes nunca ouvira falar da cantora.

Sem querer “perdoar” àquelas notas – até porque não têm sequer de pedir perdão, já que eram assim mesmo e, num outro tempo, até poderiam servir-se suportadas de um discurso pós-qualquer-coisa – ao filme faltou apenas deixar, nas notas finais, uma observação sobre os porquês… Vítima de sífilis e sujeita a tratamentos com mercúrio e arsénico, Florence Foster Jenkins foi além da esperança de vida habitual dos males (e curas) de que padecia. Teriam a doença (ou os tratamentos) causado os distúrbios no sistema nervoso central (ou até apenas a nível da perceção auditiva) que a impedissem de “cantar” afinada? Pois se, entre os créditos finais o filme nos lembra dos destinos posteriores do marido ou do pianista (que não teve carreira na música depois da morte de Florence), porque não nos deixa com algumas pistas possíveis para tentar entender o porquê de tão raro canto?

“Uma Diva Fora de Tom”, de Stephen Frears, com Meryl Streep, Hugh Grant e Simon Helberg, está agora disponível em DVD e em VOD.

PS. O “sobrevalorizada” do título tem uma explicação… Basta ter estado atento às respostas do principal visado do magnífico discurso da atriz na recente cerimónia dos Globos de Ouro para o compreender. Ou é preciso explicar?

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