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A pop angulosa dos Late of The Pier

Texto: NUNO GALOPIM

Apesar do promissor álbum de estreia que editaram em 2008, os Late of The Pier foram promessa que ficou por cumprir. O grupo está inativo desde 2010, mas sem sinais de reunião na agenda dos músicos.

Apesar de vivermos num tempo em que, pelo fluir livre e rápido da informação, a noção de barreiras de género não mais condiciona a construção de caminhos nos mais diversos azimutes da criação musical, muitas são as estreias que vemos nascer sob a quase necessidade de tomar por direcção um espaço definido, uma herança concreta ou um neo-qualquer-coisa como bandeira (por vezes mesmo como caução). Muitas das “revelações” que surgiam em meados da primeira década do século XXI brotavam do silêncio para se afirmar como discípulos dos Animal Collective ou dos Beach Boys, ou herdeiros de uns Joy Division ou uns New Order… E por aí adiante. Nada de errado, que se evocam grandes referências. Porém, e mesmo sob ocasionais momentos de iluminação na escrita, gerando mesmo eventuais álbuns irresistíveis, o sabor da surpresa não tem morado frequentemente nestas estreias… Daí que os Late Of The Pier se apresentassem então como uma das mais revigorantes revelações que a pop nos dava a escutar. Ainda por cima com passaporte inglês, coisa rara num tempo em que as patentes das melhores “invenções” pop/rock estavam regularmente a chegar de outras paragens.

Infinitamente mais interessantes que as promessas incompletas de muitos outros talentos jovens que iam surgindo por aqueles dias (ler Klaxons, Hadouken! e afins), este quarteto, oriundo de Castle Donnington, foi construindo personalidade e desbravando terreno em singles editados em pequenas independentes.

Fantasy Black Channel, o álbum, confirmava em 2008 que a coexistência de referências tão dispares, todavia bem resolvidas em canções de boa carpintaria de estúdio, reveladas nesses singles, não eram erupção acidental de acasos, mas antes episódios de construção de uma ideia pop com claro gosto pelo prazer do cruzamento de referências, sabores e ideias.

Álbum destemido, o disco juntava temperos que iam de Gary Numan aos Sparks, de Frank Zappa a Aphex Twin, com uma pitada de sons digitais (que não escondiam convívio com velhos jogos de computador), num todo onde a pulsão de experiência dialogava com um sentido de elegância pop que quase evocava os Roxy Music de inícios de 70.

As canções iam da eficácia new wave de um Space And The Woods ao prazer intrigante da colagem, com tez teatral e percussão tribal, de um Bears Are Coming

Pena que o seu caminho não se tenha cruzado com maiores entusiasmos. Porque, depois de um derradeiro single em 2010, cada um dos elementos do grupo partiu para projetos diferentes, não dando sinais de ter mais os Late of The Pier na sua agenda futura. A morte acidental do baterista, em 2015, reduziu mais ainda a possibilidade de uma continuação…

Ficam aqui alguns telediscos para recordar um disco que anunciava boas ideias. Mas que infelizmente ficou como promessa por cumprir.



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