O azar nunca vem só… Vem em série!
Texto: NUNO GALOPIM
Sempre que nos lamentamos por algo que nos aconteceu devíamos antes pensar nos três pobres manos Baudelaire… Não há nada de mal que lhes aconteça desde que tiveram a notícia da morte dos pais e andam, de mão em mão, de tutor em tutor, a tentar continuar a sua vida, isto sem esquecer o maquiavélico Conde Oloff, ator com mais garganta do que talento que, dos três irmãos (supostamente órfãos) não quer senão a gigantesca fortuna que lhes foi deixada… Estas são as linhas gerais de um pequeno fenómeno literário nascido com o século XX já a olhar para as badaladas do relógio. Publicado em 1999 o livro A Series of Unfortunate Events, assinado por Lemony Snicket (e na verdade é sabido que este é um pseudónimo usado pelo autor Daniel Handler) surgiu apontado ao público mais novo. Mas o tom gótico e as doses de absurdo da trama cativaram atenções mais além tanto que, entre as adaptações que já conheceu, tanto houve uma versão cinematográfica, Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events, protagonizada por Jim Carey e dirigida por Brad Silberling ou uma adaptação a disco pela mão de Stephin Merritt (sim, o dos Magnetic Fields) através do seu projeto The Gothic Archies. Agora estes contos de tamanha dose de infortúnios para três manos Baudelaire chega à televisão, numa série criada e protagonizada por Neil Patrick Harris e que está disponível no Netflix.
Com o título português Uma Série de Desgraças, a série televisiva segue as histórias de Lemony Snicket e aceita mesmo, pela via das descrições escritas, algumas sugestões visuais a que anteriores adaptações anteriores reagiram da mesma forma. O tom gótico está ali marcado nas atmosferas e tom lúgubre de algumas figuras, lugares e da própria trama, entrando num jogo de contrastes com uma paleta de cores mais vibrante com as personagens e locais que sugerem outros caminhos possíveis para os Baudelaire. Há ainda ingredientes steampunk a marcar a alma desta visão. Só falta, depois, um pouco mais de identidade na hora de pensar a realização (dividida entre Barry Sonnenfeld, Bo Welch e Mark Palansky) e a própria art direction… Porque por vezes parece que, para criou a série, não há senão Wes Anderson em mente quando se imagina o modo de criar estas imagens.
Se o “tom” à la Tim Burton está necessariamente associado a afinidades que o caráter sombrio e absurdo da própria narrativa trazia já da escrita, a mise em scène, as opções da art direction (das cores às formas) e o próprio trabalho de guarda roupa (salvo a trupe teatral de Olof, que não sai de terreno “burtoniano”) são tão próximos do livro de referências do cinema de Wes Anderson que por vezes quase dá vontade de espreitar a ficha técnica para ver se o seu nome está ali referido… Nah… É mesmo só inspiração. Mas o sabor a pastiche desta assinatura visual corrói um pouco o que de bom a série tem em muitas outras frentes.
E uma das frentes mais interessantes – além da força das histórias nas quais a trama se baseia – está na música. Em vez de recorrer às canções dos Gothic Archies, a produção encomendou números musicais a Nick Urata, que chamou Daniel Handler para escrever as letras dos momentos cantados. Ao mesmo tempo foi pedido um score orquestral a James Newton Howard, que criou uma partitura que se dilui nas imagens, ajudando a desenhar os ambientes…
No fim, os admiradores do cinema de Wes Anderson terão muitos argumentos para os cativar… Por sua vez, quem tem um ponto de vista mais cético sobre a obra do realizador ou preferia que houvesse ali mais personalidade e menos pastiche, terá razões para torcer um pouco o nariz. Mesmo assim, feitas as contas, o fulgor destas histórias de tão exagerado azar acaba por falar mais alto e toma o leme das atenções dos espectadores. Vejamos como a coisa ganha (ou não) asas próprias na segunda e terceira temporadas que deverão concluir os ciclos de histórias contados nos livros.
A primeira temporada de Uma Série de Desgraças está disponível no Neflix.

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