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O azar nunca vem só… Vem em série!

Texto: NUNO GALOPIM

Os livros de Lemony Snicket, que já tiveram adaptações no cinema ou até num disco de um dos muitos projetos de Stephin Merritt, chegam a uma série de televisão na qual os temperos à Wes Anderson afogam a assinatura autoral de quem realiza os episódios.

Patrick Harris no papel do Conde Olof

Sempre que nos lamentamos por algo que nos aconteceu devíamos antes pensar nos três pobres manos Baudelaire… Não há nada de mal que lhes aconteça desde que tiveram a notícia da morte dos pais e andam, de mão em mão, de tutor em tutor, a tentar continuar a sua vida, isto sem esquecer o maquiavélico Conde Oloff, ator com mais garganta do que talento que, dos três irmãos (supostamente órfãos) não quer senão a gigantesca fortuna que lhes foi deixada… Estas são as linhas gerais de um pequeno fenómeno literário nascido com o século XX já a olhar para as badaladas do relógio. Publicado em 1999 o livro A Series of Unfortunate Events, assinado por Lemony Snicket (e na verdade é sabido que este é um pseudónimo usado pelo autor Daniel Handler) surgiu apontado ao público mais novo. Mas o tom gótico e as doses de absurdo da trama cativaram atenções mais além tanto que, entre as adaptações que já conheceu, tanto houve uma versão cinematográfica, Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events, protagonizada por Jim Carey e dirigida por Brad Silberling ou uma adaptação a disco pela mão de Stephin Merritt (sim, o dos Magnetic Fields) através do seu projeto The Gothic Archies. Agora estes contos de tamanha dose de infortúnios para três manos Baudelaire chega à televisão, numa série criada e protagonizada por Neil Patrick Harris e que está disponível no Netflix.

Com o título português Uma Série de Desgraças, a série televisiva segue as histórias de Lemony Snicket e aceita mesmo, pela via das descrições escritas, algumas sugestões visuais a que anteriores adaptações anteriores reagiram da mesma forma. O tom gótico está ali marcado nas atmosferas e tom lúgubre de algumas figuras, lugares e da própria trama, entrando num jogo de contrastes com uma paleta de cores mais vibrante com as personagens e locais que sugerem outros caminhos possíveis para os Baudelaire. Há ainda ingredientes steampunk a marcar a alma desta visão. Só falta, depois, um pouco mais de identidade na hora de pensar a realização (dividida entre Barry Sonnenfeld, Bo Welch e Mark Palansky) e a própria art direction… Porque por vezes parece que, para criou a série, não há senão Wes Anderson em mente quando se imagina o modo de criar estas imagens.

Se o “tom” à la Tim Burton está necessariamente associado a afinidades que o caráter sombrio e absurdo da própria narrativa trazia já da escrita, a mise em scène, as opções da art direction (das cores às formas) e o próprio trabalho de guarda roupa (salvo a trupe teatral de Olof, que não sai de terreno “burtoniano”) são tão próximos do livro de referências do cinema de Wes Anderson que por vezes quase dá vontade de espreitar a ficha técnica para ver se o seu nome está ali referido… Nah… É mesmo só inspiração. Mas o sabor a pastiche desta assinatura visual corrói um pouco o que de bom a série tem em muitas outras frentes.

E uma das frentes mais interessantes – além da força das histórias nas quais a trama se baseia – está na música. Em vez de recorrer às canções dos Gothic Archies, a produção encomendou números musicais a Nick Urata, que chamou Daniel Handler para escrever as letras dos momentos cantados. Ao mesmo tempo foi pedido um score orquestral a James Newton Howard, que criou uma partitura que se dilui nas imagens, ajudando a desenhar os ambientes…

No fim, os admiradores do cinema de Wes Anderson terão muitos argumentos para os cativar… Por sua vez, quem tem um ponto de vista mais cético sobre a obra do realizador ou preferia que houvesse ali mais personalidade e menos pastiche, terá razões para torcer um pouco o nariz. Mesmo assim, feitas as contas, o fulgor destas histórias de tão exagerado azar acaba por falar mais alto e toma o leme das atenções dos espectadores. Vejamos como a coisa ganha (ou não) asas próprias na segunda e terceira temporadas que deverão concluir os ciclos de histórias contados nos livros.

A primeira temporada de Uma Série de Desgraças está disponível no Neflix.

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