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Dez presidentes que a ficção levou à Sala Oval

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

Em tempo de entrada em funções do 45º presidente dos EUA, aqui ficam dez casos de figuras que a ficção levou à Casa Branca tanto na televisão como no cinema.

Martin Sheen em "West Wing - Os Homens do Presidente"

Com a tomada de posse de um novo presidente em contagem decrescente vamos recordar aqui alguns entre os muitos chefes de estado americanos que a ficção criou tanto para séries de televisão como para o grande ecrã.

Há casos em que a ficção e a realidade não andam assim tão distantes. E se o candidato latino que ganha a Casa Branca no final de Os Homens do Presidente antecipou de certa forma o que seria a campanha vitoriosa de Barack Obama, já os jogos entre o casal presidencial na quarta época de House of Cards parecia piscar o olho, mesmo sob as devidas diferenças, aos Clinton. Já a ideia do presidente Camacho, de Idiocracy, levantou comparações com a campanha de 2016, pelo menos para Stephen Fairey, o autor do poster “Hope” de Obama que usou o nome do filme de Mike Judge num poster onde usava essa memória para discutir a necessidade de uma outra dimensão no debate político.

Aqui ficam, então, dez presidentes de ficção…

Elizabeth Keane
em “Homeland – Segurança Nacional”, de Howard Gordon e Alex Gansa (2017)

É a presidente-eleita que vemos na sexta temporada de Homeland… E traduz a expressão do que de inesperado significou para muitos a vitória de Donald Trump nas eleições de 2016. Escritos (e certamente rodados) antes da data da eleição, os episódios que agora estão a ser transmitidos esperavam a vitória de uma mulher… Daí a figura da presidente eleita que, mesmo assim, está longe de ser uma Hillary Clinton, já que parece ter um pouco de Bernie Sanders em si e, como chegou a avisar o autor da série, também um pouco de Trump… Para já sabemos que era uma senadora por Nova Iorque (lá está a analogia com Clinton), mas parece ter visões diferentes sobre a forma de fazer política, sobretudo no plano internacional. A escolha da atriz Elizabeth Marvel é um achado já que, ainda recentemente, a vimos a fazer o papel de Heather Dunbar, que disputava com Frank Underwood as primárias em House of Cards.

Thomas Kirkman
em “Sobrevivente Designado”, de David Guggenheim (desde 2016)

O chamado ‘designated survivor’ é uma figura fundamental para a eventual sucessão presidencial nos EUA em caso de calamidade. E existe para que, numa ocasião em que estejam reunidos num mesmo local os mais altos cargos do poder executivo, possa haver alguém capaz de assegurar a continuidade da governação na eventualidade de surgir uma situação que não deixe nenhum deles com vida. A série (com o título original Designated Survivor) coloca-nos perante um ataque em tudo inesperado, que destrói o Capitólio durante o ‘State of the Union’, aparentemente não deixando sobreviventes. Apontado nesse mesmo dia como ‘designated survivor’ (apesar de acabar de ter sido convidado a deixar o executivo para tomar um cargo de prateleira dourada), o Secretário da Habitação (interpretado por Kiefer Sutherland) é obrigado a rumar à Casa Branca. Em tempo de crise, uma figura sem “visual” nem “voz” presidencial terá de se reinventar para não só ter de enfrentar uma comunicação ao país, como os quadros militares e diplomáticos num momento de crise que a todos coloca à prova… Homem íntegro, Kirkman revela-se, aos poucos, um grande presidente. Não imaginando contudo a dimensão da conjura que se desenhara em volta do poder.

Frank Underwood
em “House of Cards”, de Beau Willimon (desde 2013)

Apesar de ter nascido diretamente da figura de Francis Urquhart (na versão inglesa, e original, da série), o impacte da versão americana de House of Cards e o trabalho magnífico de Kevin Spacey como ator deram entretanto vida própria à figura de Frank Underwood, que hoje tem peso icónico entre as muitas figuras políticas alguma vez criadas no universo da ficção. Depois de duas temporadas iniciais nas quais assistimos a uma progressiva ascensão do whip democrata a vice-presidente, acabando por tomar o lugar do presidente quando este se demite, a figura de Frank Underwood levou para o espaço da Casa Branca uma dimensão mais negra e assombrada dos bastidores da política. Barack Obama, confesso admirador da série, comentou naturalmente as diferenças entre o real e a ficção, notando que não é tão fácil assim fazer mover as águas. Há contudo no trabalho de escrita da série e na interpretação de Spacey uma solidez tal que confere ao todo uma carga invulgarmente cativante… Na quarta temporada vimo-lo a tentar disputar a reeleição, escolhendo a mulher (interpretada por Robin Wright) como parceira do ticket… Esperamos por novos episódios para ver se os votos lhes respondem… Ah, vale a pena lembrar que, apresar da série inglesa ter tido um tory como protagonista, Frank Underwood é do Partido Democrático.

Josiah Bartlet
em “Os Homens do Presidente”, série de Aaron Sorkin (1999-2006)

O paradigma de um grande presidente democrata… Pelo menos, segundo um livro de análise política lançado em 2007 (antes de Obama, portanto), Jed Bartlett era para muitos analistas políticos “o mais popular dos presidentes democratas da memória mais recente”… Interpretado por Martin Sheen, a figura de Josiah Bartlet cruzou toda a série, magnificamente escrita por Aaron Sorkin, Os Homens do Presidente (West Wing no original). Originalmente no ar entre 1999 e 2006 (por sete temporadas), a série acompanhou no calendário real o final da presidência de Clinton e grande parte do tempo de administração Bush. Mostrava uma Casa Branca chefiada por um democrata, intelectual e íntegro, protagonista de uma trama que colocou os bastidores da vida política americana no plano de uma narrativa cativante (eram magníficos os diálogos!). O arco narrativo das sete épocas cobre os dois mandatos de Bartlet (com uma reeleição pelo meio), a luta que a dada altura tece contra a esclerose múltipla de que padece e a eleição do seu sucessor. A série continua a ser um exemplo maior de excelência num panorama de ficção televisiva no qual não faltam tantas outras incursões pelo mesmo universo temático.

Matt Santos
em “Os Homens do Presidente”, , série de Aaron Sorkin (2004-2006)

A eleição de um presidente latino que chama depois um adversário político para a sua administração fez da figura ficcional de Matt Santos (interpretada por Jimmy Smiths) uma antecipação de factos ficcionados que teriam alguma ressonância na eleição (real) de um primeiro presidente não branco (se bem que Obama tenha chamado ao cargo de Secretária de Estado a rival nas primárias do Partido Democrata e não o opositor republicano na eleição geral, como o faz a figura de Matt Santos). Segundo uma biografia de Obama assinada por David Remnick, o então senador do Illinois serviu de modelo a esta personagem). Texano, democrata, Santos foi assim o sucessor do muito respeitado Jed Bartlet, o presidente interpretado por Martin Sheen em Os Homens do Presidente. O processo eleitoral, que tem expressão central nas últimas temporadas de West Wing, revelou nesta eleição uma escolha renhida, com Santos a somar 272 votos no colégio eleitoral, apenas mais seis do que o seu rival.

Presidente Camacho
em “Idiocracy”, filme de Mike Judge (2006)

É tudo o que mais podia assustar as regras da política tal e qual as conhecemos até aqui… Mas, num filme que acompanha uma incursão no futuro por parte de um americano do nosso tempo que é usado em primeiras experiências de criogenia (que falham) e acorda no século XXVI, aquele é o homem que lidera o país. Chama-se Camacho, tem melhor oratória pelo som de uma metralhadora do que pelas palavras da sua voz e um look que mais parece de lutador de wrestling do que do livro de estilo mais habitual na Sala Oval. O ator Terry Crews veste nesta comédia satítrica o papel de Dwayne Elizondo Mountain Dew Herbert Camacho, que era de facto um antigo lutador de wrestling e foi eleito presidente, sendo o rosto de um país mergulhado numa distopia que lembra um pouco os eloi da Máquina do Tempo de H.G. Wells, a quem a evolução parece ter despido a inteligência. Camacho, cujos discursos são um primor de nada vezes nada em formato ruidoso, entregará ao homem que veio do passado (e que é dado como o mais inteligente do mundo, seguindo aquela ideia de quem tem olho em terra de cegos) o desafio de concertar a economia… Como curiosidade podemos recordar que Donald Trump tem no seu passado um envolvimento direto com o universo do wrestling, facto que um artigo da Time lembrou ao evocar este filme em 2016.

James Marshall
em “Air Force One”, de Wolfgang Petersen (1997)

“Get off my plane!… Esta deve ser a frase “de ação” mais célebre alguma vez entregue a um presidente ficcional criado para o cinema. E coube a Harrison Ford vestir a sua pele. O ator interpreta a figura do presidente James Marshall num filme que, depois de uma ação conjunta com os russos contra uma ameaça e de um encontro de celebração em Moscovo, centra a sua atenção em acontecimentos a bordo do avião presidencial, o Air Force One. Disfarçados de jornalistas, terroristas desencadeiam ali um ataque que coloca em risco a vida do presidente e durante o qual este se revela um homem de ação, surpreendendo o grupo atacante que não sabia de detalhes do seu passado como veterano na Guerra do Vietname. Apesar do protagonismo de um presidente e do cenário central do filme ser o seu avião oficial, Air Force One é mais um filme de ação do que um thriller político. DE resto, as ideias de James Marshall não são aqui levantadas.

Mr. Garrison
em “South Park” de Trey Parker e Matt Stone (desde 1997)

Personagem presente na série South Park desde o início – como um dos professores da escola primária – é uma figura cheia de contradições e segredos reprimidos. A sua evolução passa por duas operações de mudança de sexo. E, depois de uma etapa como Mrs. Garrison, é novamente como homem que um dia regressa de uma viagem ao Canadá decidido a candidatar-se à presidência dos EUA. A figura como candidato tem muito de caricatura da figura de Donald Trump. Garrison vence as eleições e torna-se no 45º presidente dos Estados Unidos na 20ª temporada de South Park. A figura de Mr. Garrison foi inspirada por um professor que Trey Parker (um dos criadores da série) conheceu nos dias do jardim escola. E, tal como esta personagem de ficção, usava um boneco como forma de criar diálogos ou de comunicar com os alunos. Como candidato presidencial Mr. Garrison tem como um dos inimigos o filme Star Wars de J.J. Abrams mas a dada altura pede que os eleitores votem antes em Hillary Clinton e não em si. Mesmo assim ganha a eleição… É, em todas as suas expressões e vidas, uma figura moldada segundo o nonsense corrosivo muito característico de South Park.

James Dale
em “Marte Ataca!”, de Tim Burton (1996)

Um dos mais marcantes títulos da obra de Tim Burton e um dos mais desconcertantes de toda a filmografia “marciana” alguma vez criada, Marte Ataca! não poupa a sátira às instituições que passam pelo ecrã. E, num registo diametralmente oposto à figura do presidente-militar, de ação, que vimos pela mesma altura em O Dia da Independência, a figura do presidente Dale, interpretada por Jack Nicholson, é uma das mais corrosivas entre as paródias que o filme de Tim Burton nos apresenta. Homem de muito pulmão e conversa mas medíocre na forma de agir, Dale vive momentos de susto e horror quando os marcianos aterram pela primeira vez e, mais ainda, quando invadem a Casa Branca. O seu discusro de diplomacia (que acaba com certidão de óbito) quando os marcianos chegam ao lugar onde, escondido, mantinha a administração ativa, é outro dos momentos de referência do filme. Vale a pena lembrar a “primeira dama” que ali era brilhantemente interpretada por Glenn Close.

Merkin Muffley
em “Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb”, de Stanley Kubrick (1964)

Numa das mais impressionantes prestações cinematográficas da obra de Peter Sellers, o conjunto de três figuras que o ator veste no filme de Stanley Kubrick Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb inclui a figura (ficcional) de um presidente norte-americano. Trata-se de Merkin Muffley, cuja filiação partidária não é sequer sugerida, mas que se revela o espírito mais prudente e diplomático numa trama em que todos parecem estar a perder o juízo. História marcante entre as ficções que refletiram sobre a guerra fria e o medo de uma aniquilação nuclear, o filme tem na figura do presidente o referencial mais próximo de uma ideia de prudência, a sua imagem ajudando a sublinhar essa mesma postura. É contudo um homem indeciso. Demasiado indeciso… Tanto que, quando os acontecimentos ultrapassam as cautelas, e o tempo para agir ultrapassa os limiares do que seria viável, a escalada acaba por ultrapassá-lo.

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