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O que esconde o silêncio?

Texto: NUNO GALOPIM

Chega amanhã aos ecrãs “Silêncio”, adaptação, por Martin Scorsese, do romance homónimo de Shūsaku Endō que explora a dimensão humana e espiritual de um choque de culturas numa altura em que as comunidades cristãs japonesas sofreram terríveis perseguições.

Corre o risco de ser um dos filmes mais ostensivamente ignorados pelos Oscares, mas é certamente um dos melhores que vamos ver este ano. Baseado no romance homónimo de Shūsaku Endō, que em 1971 já havia conhecido uma primeira adaptação ao cinema por Masahiro Shinoda e que evoca factos que João Mário Grilo explorou em Os Olhos da Ásia (1996) Silêncio falará ao português (e ao japonês) de um modo que talvez escape a outros públicos. Traz-nos memórias de feitos que por vezes esquecemos quando evocamos os grandes heróis dos descobrimentos e recorda um legado que a expansão marítima portuguesa deixou em lugares distantes, como o Japão: o cristianismo.

Criado sob um atento trabalho de recriação histórica (contrastando aí com certas liberdades visuais em A Última Tentação de Cristo, por onde algumas imagens quase evocavam o modo não realista com o qual Pasolini tecia as suas incursões de época), Silêncio transporta-nos ao Japão do século XVII numa altura em que, depois de uma etapa de muitas conversões e tolerância de culto vividas algum tempo antes, as perseguições e o medo de morte atormentam as pequenas comunidades cristãs que ali haviam surgido.



O rumor de que um respeitado missionário jesuíta, do qual não havia notícias há algum tempo (o padre Ferreira, interpretado por Liam Neeson), renunciara à fé leva dois outros padres da mesma ordem (recriados por Andrew Garfield e Adam Driver) a rumar ao Japão para apurar o que sucedera e, fosse necessário, resgatá-lo de eventual perigo. Em terra insegura, vigiada por um inquisidor (uma das mais interessantes personagens do filme, interpretado por Issey Ogata) e suas milícias, que perseguem cristãos que matam em suplícios públicos de grande violência, encontram uma fé que vive silenciosa, escondida. Com as pequenas comunidades também eles sentem o medo e assistem, impotentes, ao martírio dos capturados. O filme explora então os porquês da perseguição, que se manifesta como expressão de defesa perante um choque de culturas. E procura ouvir, entre outros silêncios o que há para lá das acusações de apostasia de que então chegaram ecos para lá do Japão.



“A Última Tentação de Cristo” (em cima) e “Kundun”

Há em Silêncio um encontro de linhas antes lançadas por outros dois filmes “religiosos” de Scorsese. Datado de 1988, e baseado no livro homónimo de Nikos Kazantzakis, A Última Tentação de Cristo coloca-nos perante a dimensão humana de Jesus, revelando alguém que é atormentado pela dúvida, embora impelido depois por um chamamento que a princípio não consegue explicar. Esta ideia da dúvida e a dimensão humana de quem vive a relação da fé com as comunidades e as adversidades que as atormentam habita agora também a alma de Silêncio. Já em Kundun, de 1998, Scorsese contava-nos a vida do atual Dalai Lama (o 14º) numa história que explorava a dada altura o choque de culturas entre a China revolucionária e a identidade tibetana, ideia (mas aqui na colisão entre valores japoneses e ocidentais) que Silêncio também aborda. Vale a pena notar que entre estes dois filmes se contemplam figuras basilares do cristianismo e do budismo, afinal as duas religiões que habitam o choque que escutamos em Silêncio.

O filme, de ritmo pacífico, por vezes quase contemplativo, investe sobretudo na descoberta gradual do outro pelos padres jesuítas portugueses que viajam ao Japão. As opções silenciosas que alguns deles eventualmente tomam deixa-nos pensar, no fim, que o silêncio aparente de alguém pode afinal ser eco abafado de uma ruidosa tempestade interior.

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