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Visão clareada

Texto: ANDRÉ LOPES

Com o terceiro álbum, os The XX conseguem consolidar definitivamente uma sonoridade que, ao alcançar dimensões mais exteriores, não abdica da intimidade para criar uma relação única com quem escuta.

XX (2009) traduz um dos mais interessantes discos de estreia da década passada: a maneira como a banda atualmente constituída por Romy Croft, Oliver Sim e Jamie Smith “XX” soube construir uma sonoridade quase ímpar. As guitarras soam anémicas e conscientes da distância que as separa dos riffs expansivos que na viragem da década povoavam as tabelas de vendas. Fortes em baixas frequências, as canções dos The XX ganham a sua singularidade também por via como as melodias existem em simbiose com períodos de silêncio que de resto conferem o espaço – e o tempo – suficientes para que as vozes de Romy e Oliver nos cantem sobre desfasamentos emocionais e o constrangimento social de jovens adultos. Coexist (2009) desiludiu pelo planeamento seguro que originou um disco tão limitado quanto estanque. I See You (2017) é felizmente um passo na direção certa, já que por aqui ouvimos o som de uma banda que reconhece o privilégio de uma sonoridade que não se replica discretamente, seguindo aqui por terrenos mais amplos.

Sob a influência clara do exercício de estilo de produção que Jamie XX cunhou com In Colour (2015), é particularmente gratificante ouvir o novo álbum do trio inglês e pensar na vitalidade que as suas canções conseguiram ganhar. A introversão presente nos primeiros dois álbuns dos The XX deixava-se sentir em especial na entrega vocal, mas também pelo minimalismo possível que a banda soube não só transformar em vantagem, como em elemento característico. Essa dinâmica delicada entre instrumentos persiste em I See You, porém faz-se agora acompanhar de uma maturidade que a coloca em causa, mas não a esquece.

Dangerous inicia o alinhamento deste álbum em jeito atípico: ouvem-se trompetes quase estridentes que eventualmente se juntam a uma linha de baixo e a uma ideia percussiva que – apesar de comum – reflete o interesse destes músicos na cena club europeia. Dangerous é explicitamente uma faixa que contrasta com o restante repertório dos The XX e que, da maneira como soa, parece fazer desse um motivo de orgulho. É quase uma dança de vitória que tem lugar antes do momento da verdade ter lugar, algo que seria presunçoso não fosse possível encontrar no restante alinhamento outras faixas igualmente marcantes. Lips, Violent Noise e Replica deixam claro que, seguindo a tal fórmula que tornou a banda bem-sucedida em primeiro lugar, os espaços para melhoria existiam de facto. Romy e Oliver deixaram de sussurrar e parecem especialmente confortáveis em alternar versos com uma segurança renovada. Performance é uma ocasião especialmente emotiva numa segunda metade do alinhamento mais abstrata, face à qual Infinity do primeiro disco terá sido indício.

Com prestações mais confiantes e uma produção que deixou de temer o ritmo, I See You condensa os elementos principais da sonoridade dos The XX, colocando-a à prova por via de contexto sonoros mais desafiantes. O resultado soa a uma promessa cumprida, que só desiludirá aqueles que de um dos grupos mais discretos da cena independente atual esperam uma completa rutura absoluta com o passado.

The XX
“I See You”
Young turks

★★★★

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