Últimas notícias

Daft Punk: a revolução faz 20 anos

Texto: NUNO GALOPIM

Passam hoje 20 anos sobre a data da edição de “Homework”, o álbum de estreia dos Daft Punk. O que parecia uma visão promissora transformou-se numa peça à qual hoje reconhecemos um papel de referência para acontecimentos que vieram depois.

A história já tinha começado a ganhar forma há algum tempo. Mas foi a 20 de janeiro de 1997 que, ao apresentar o “trabalho de casa” num álbum que aprofundava a visão já antes sugerida em singles anteriores, os Daft Punk passaram de peões de um jogo em movimento a figuras de proa de um conjunto de acontecimentos que abrira portas à mais marcante e consequente das agitações que a música eletrónica europeia colocava em cena desde os dias em que os alemães Kraftwerk tinham desempenhado semelhante papel no mapa de acontecimentos cerca de duas décadas antes…

O tal “french touch” (seja lá o que fosse) de que tanto se falou daí a pouco tempo, quando aos Daft Punk se juntaram vozes como as dos Air, Cassius, e tantos outros que então devolviam a França uma atenção que a cena musical local não conhecia há muitos anos, pode nem ter sido a marca de identidade mais característica ao falarmos da obra dos Daft Punk… Mas são estes “carimbos” mediáticos que juntam peças e lhes dão um sentido coletivo. No fundo, aquele termo (como o de tantos movimentos e géneros), mais do que um sentido musical tinha um caráter mais social. Era como uma hashtag.

Mais do que apenas veículo na linha da frente do alerta para os seus conterrâneos (sendo contudo verdade que os Daft Punk tiveram um papel fulcral na concentração de atenções na cena eletrónica e house francesa), o duo que fez das máscaras de robot a sua imagem de marca foi agente de uma movimentação que transcendeu fronteiras, cimentando uma dimensão de popularidade ao jeito pop para um conjunto de movimentações que tinham a house, o electro e variações sobre heranças do funk no seu tutano. E foi há precisamente 20 anos que a consistência da sua visão ganhou voz quando Homework nos entrou pelas casas dentro…

A dupla Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo já tinha editado singles. O primeiro, The New Wave, data de 1994. E em 1995 surge, pela independente Soma, uma primeira edição de Da Funk, então com visibilidade discreta. Em 1996 esse mesmo delicioso devaneio house funk, a dada altura com tempero que evocava os bleeps da acid house chegava mais longe e cativava mais atenções nova reedição, agora pelo catálogo da Virgin. E porquê? Porque logo aí os Daft Punk juntaram à sua proposta aparentemente destinada às pistas de dança uma arma que lhe deu visibilidade e depois levou o mesmo tema a uma vida também em horário diurno nas rádios e nas casas de muita gente: o teledisco. Aquelas imagens marcantes do homem com rosto de cão que, desencantado, discriminado, enganado, anda pela rua da grande cidade, conquistou admiradores que focaram igualmente atenções na música.

Fez-se assim um primeiro êxito e, logo ali, cunhava-se um relacionamento firme entre música e imagem que, daí em diante, não deixaria nunca de acompanhar as edições de novos discos (com telediscos e até mesmo filmes) e os concertos ao vivo. E esta última dimensão, a de palco, que Homework desde logo sugeria no modo como apresentava o alinhamento do álbum (a faixa de abertura era gravada ao vivo), ajudou a dar aos Daft Punk o terceiro dos seus trunfos, juntando à música (contagiante que sabia trazer o prazer da noite para a luz do dia) e às imagens (que revelavam pontes entre uma visão arty e uma capacidade de assegurar a comunicação para as massas), a fisicalidade da performance perante plateias…



O impacte de Around The World, editado como single poucas semanas depois do lançamento do álbum e acompanhado por um teledisco icónico de Michel Gondry deu-lhe uma nova janela de exposição, garantindo a Homework não apenas o reconhecimento e aplauso crítico (que foi invulgarmente quase unânime) mas também a solidez de um objeto de comunicação numa dimensão verdadeiramente pop, capaz de se fazer banda sonora de um tempo.

Homework, que abriu uma obra que hoje é de referência, foi um dos discos mais importantes e influentes que a etapa final dos anos 90 nos deu a escutar. Vinte anos depois consegue não ser tão datado como outros títulos do seu tempo… Os Daft Punk estavam, já ali, muito à frente…

Anúncios

1 Comment on Daft Punk: a revolução faz 20 anos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: