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E a Broadway chegou a terras “indie”

Texto: NUNO GALOPIM

Depois de terem sugerido um caminho feito entre heranças do psicadelismo, no seu novo disco os Foxygen citam agora diversas outras grandes heranças da canção popular americana, com a música criada para o teatro entre as suas referências centrais.

Com cada disco apontado a um azimute diferente só agora podemos começar a compreender que aos Foxygen parece interessar mais uma programa de viagens inesperadas entre os grandes livros de género da canção popular americana do que, como sugeria o percurso definido pelos seus dois álbuns mais recentes, uma candidatura para um lugar de destaque no universo das (recorrentes) reinvenções das memórias do psicadelismo que, depois do relativo apagamento da presença da “família” Elephant 6 e do desinteresse dos MGMT em viver sob esses rótulos, carece neste momento de figuras com a visibilidade (no plano indie, entenda-se), que em tempos tiveram uns Of Montreal ou Olivia Tremor Control.

Nascidos em Weslake Village (uma das muitas “cidades” da grande Los Angeles), os Foxygen são uma dupla de amigos, já com uma mão cheia de singles e EPs numa discografia que em 2012 ensaiou uma primeira abordagem a um formato próximo do álbum (na verdade era mais um mini-LP de sete canções) em Take The Kids Off Broadway, uma tentativa de junção de ideias sob a sua própria produção, em regime lo-fi, mas mostrando já um horizonte vasto de referências (Make It Known, cruzando ecos do Scott Walker dos sessentas com discreto tempero tex mex dava ali conta de um potencial a desenvolver).

Conheceram depois Richard Swift, a quem deram uma maquete, a sua entrada em cena para a cadeira da produção garantindo depois ao disco seguinte os argumentos para um impressionante passo em frente. Com o longo título We Are The 21st Century Ambassadors of Peace & Magic (que desde logo sugere uma atualização de um ideário comum aos sonhos da geração que viveu o “summer of love” de 67), o disco de 2013 revelava uma banda mais encantada com as referências que a motivava do que com uma eventual busca de um lugar próprio no universo das linguagens da música pop. Um passeio entre as nove canções que fazem o alinhamento do disco sugeriam ecos dos Beatles, Lou Reed, Elvis Presley, Bob Dylan, Serge Gainsbourg ou os Zombies (e aqui basta escutar San Francisco, a pérola pop do alinhamento).

Um ano depois outros valores comandavam o disco seguinte deste duo. Uma outra ambição (ou seria ousadia) levava-os a apresentar um álbum duplo com uma ordem interna conceptual, sugerindo patamares e caminhos na verdade não muito distantes das linhas antes apontadas, numa viagem que cruzava tempos e sensações e que exigia, logo de começo, uma disponibilidade de tempo para tamanha quantidade (e intensidade) de propostas. Tal como tínhamos encontrado nos MGMT pós-Oracular Spectacular, o sucessor do aclamado We Are The 21st Century Ambassadors of Peace and Magic, a que chamaram … And Star Power, revelava um disco que ostensivamente rejeitava polir caminhos, oferecendo antes uma proposta mais aventureira (para quem a faz e quem a escuta, entenda-se). 

E agora, como diriam os Monty Python, algo completamente diferente. Sem descalçar o seu encantamento de raiz pelos ecos de um som rock clássico (das classes de 60), o novo Hang (que nada tem a ver com a faixa com o mesmo nome que fechava o álbum anterior) parte de pistas em tempos sugeridas em Take the Kids Off Broadway para apresentar uma incursão absolutamente inesperada, mas arrebatadora, por heranças do grande musical americano. Dotado de uma visão eclética, sem receio de pisar terrenos menos habituais em espaço indie rock, os Foxygen apresentam uma visão sobre heranças da Broadway num alinhamento conciso (de apenas oito canções e 32 minutos de música) pelas quais passam ecos das sonoridades dos grandes musicais de palco, num registo onde a surpresa e o salto de linha para uma rota diferente acontece em segundos (como, quando a meio de On Lankershim, emergem ecos de cenografia country, que logo cedem vez a uma pompa classic rock). E não faltam ocasiões em que a voz de Sam France lembra, além da abordagem teatral de Patton, a ainda mais distante, e talvez esquecida (mas não menos encenada) postura vocal dos graves de Sal Solo (sim, o vocalista dos Classix Nouveaux). Nem um momento, ao som se Follow The Leader, no qual piscam o olho ao riquíssimo universo de referências que a soul trilhava na alvorada dos setentas, com o funk e o disco quase na linha do horizonte e uma orquestra a seu lado.

De certa forma Hang lembra o que de deliciosamente inesperado desfilava à nossa frente no magnífico California dos Mr Bungle (a obra-prima da discografia de Mike Patton). Pode haver em Hang, dos Foxygen, mais variações sobre a noção de pastiche (o que não é necessariamente sempre mau) do que a afirmação, mesmo sob heranças nítidas, de uma presença autoral maior (como sugeria o disco dos Mr Bungle). Mas a verdade é que, estranhando-se num primeiro contacto, o novo álbum dos Foxygen lembra-nos da riqueza pouco explorada em terreno pop/rock contemporâneo de anos a fio de teatro musical feito para os lados da Broadway.

“Hang” Dos Foxygen, está disponível em LP, CD e em formatos digitais em edição pela Jagjaguwar.

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