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Assim se (re)inventava a canção pop nos anos 90

Texto: NUNO GALOPIM

O álbum de estreia dos Saint Etienne foi, em 1991, uma peça marcante no processo de assimilação, pela canção pop, de pistas escutadas na nova música de dança. Mas juntava ainda outro tempero, citando ecos de memórias da “swinging” London.

Em inícios dos anos 90 um dos desafios que se colocavam à canção pop era o de procurar novas formas e referências a assimilar, assegurando mais um episódio da sua constante reinvenção. Os acontecimentos que a club culture e as novas expressões da cultura urbana tinham trazido à tona das atenções em finais dos anos 80, levando fenómenos como a house (e seus derivados), novas reinvenções da soul e o hip hop a novos patamares de visibilidade, haviam já marcado claramente os terrenos indie rock, com bandas como os Stone Roses, Happy Mondays ou Primal Scream a refletir nas suas novas gravações essas mesmas presenças. Em espaço pop uma reflexão semelhante fazia-se então através de nomes como os Beloved, os Deee-Lite, os Pet Shop Boys (que traziam já louros conquistados nos 80s mas mantiveram-se na linha da frente desta manifestação) e os Saint Etienne.

Estes últimos, nascidos em 1990, apresentavam-se inicialmente como um projeto de dois jornalistas que trocavam a escrita pelas canções e que se propunham a chamar uma nova voz a cada novo single. Começaram por se mostrar com uma magnífica versão de Only Love Can Break Your Heart (original de Neil Young), com a voz de Moira Lambert. Pouco depois convidavam Donna Savage para cantar em Kiss and Make Up, uma versão de um tema dos Field Mice. Mas quando, ao terceiro single, Nothing Can Stop Us, o seu primeiro original, encontram Sarah Cracknell, o grupo dá uma cambalhota. De dupla com convidados para cantar passam a trio de alinhamento fixo. O álbum de estreia, que editam por essa altura, retrata precisamente esse momento de transição. E de verdadeira epifania pop.

A presença da cultura house (e de algumas das suas variações então em voga) está bem evidente entre as canções de Fox Base Alpha. Tal como o está a assimilação do sampling como ferramenta cénica fulcral (ajudando, por exemplo, a construir momentos de ligação entre as faixas), num quadro de elementos em jogo que traduzem uma atenção pelo state of the art das coisas pop de então. É contudo em Nothing Can Stop Us, o tal momento “eureka” com a voz de Sarah Cracknell, que o grupo encontra a outra valência estrutural na definição da sua identidade: uma carga retro devidamente assimilada que procurava assim trazer à pop dos noventas ecos do festim de luzes, cores e imagens da swinging London dos sessentas. Fox Base Alpha é, em todas as frentes, o retrato deste conjunto de felizes encontros, representando o primeiro episódio numa discografia que somou depois inúmeros álbuns e singles que dos Saint Etienne ajudaram a fazer uma das discografias pop mais gourmet do seu tempo.



O álbum acaba de conhecer uma reedição em vinil que junta ao disco original (aqui apresentado em dois discos, a 45 rotações), o complemento Remains of The Day, um álbum inteiro feito de temas gravados naqueles dias (já disponível na reedição Deluxe em CD editada em 2016), assim como um single de sete polegadas com o tema Kiss and Make Up na voz de Moira Lambert. Há depois um booklet e uma pequena multidão de extras gráficos. Um mimo para admiradores. E ao mesmo tempo uma afirmação de que aqui está, de facto, uma peça de referência da pop dos noventas.

“Fox Base Alpha: 25th Anniversary Edition” dos Saint Etienne, é uma caixa em vinil com edição pela Heavenly Recordings/PIAS.

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