Últimas notícias

O musical afinadinho

Texto: NUNO GALOPIM

Apesar de somar um recorde de nomeações para os Óscares (14 no total), “La La Land” de Damien Chazelle não é mais do que uma criação tecnicamente bem afinada para encher o olho mas que não acrescenta rigorosamente nada. Nem mesmo à história do musical.

Gostamos de celebrar os “regressos”. E um dos “regressos” de que mais se costuma falar no cinema é o do musical. Não as novas experiências, pelas temáticas diferentes ou formas musicais menos habituais, como as John Cameron Mitchell nos deu em Hewdig and The Angry Inch ou Christophe Honoré em Les Chansons d’Amour, que traduzem novas visões tanto musicais como narrativas, isto para nem falar na oferta de Bollywood, que pelos vistos para muitos são cartas fora deste baralho… Fala-se normalmente do “regresso” do musical quando o tom evoca a dimensão das grandes produções clássicas de Hollywood e, com filmes-pastiche (mas banais, porque há bons pastiches) como Chicago ou Les Miserables, o discurso repetiu de facto os velhos efeitos de encantamento. Encher o olho, dar música a rigor e, se possível, não mudar nada… A receita costuma funcionar de tantos em tantos anos (sim, com silêncios pelo meio) e serve-se depois com a caução das estatuetas douradinhas (que estão longe, muito longe, de traduzir o que de melhor o cinema nos dá a ver).

Regressando ao musical. Tanto com Chicago como com Les Miserables não havia realmente uma dinâmica de “regresso”, já que nenhum um desses dois títulos gerou uma sucessão de produções semelhantes no imediato, como em tempos sucedia quando grandes musicais surgiam em cartaz uns atrás dos outros. Na verdade, mais do que esses dois casos que tanto brado deram no momento, coube à Disney, entre finais dos anos 80 e durante os anos 90, fazer de filmes como A Pequena Sereia, A Bela e o Monstro, Aladdin, Pocahontas ou O Rei Leão, a recriação mais evidente de uma aposta recorrente no trabalho de relacionamento do espírito clássico do musical com uma proposta para o grande ecrã. Tudo isto para chegarmos a La La Land: O Milagre do Amor, o novo filme de Damien Chazelle que poderá, mesmo se colher os muitos prémios para o qual está já nomeado, não ser mais do que um episódio sem continuidade garantida nesta mesma história. Um episódio que promete contudo grande visibilidade, bilheteira e pilhas de Óscares. Montes deles.

Sucessor de Whiplash – Sem Limites na obra do realizador, contando novamente com a ajuda de Justin Hurwitz na composição (que desta vez junta climas jazz a sabores clássicos do musical americano), e com os nomes de Ryan Gosling, Emma Stone e John Legend no elenco, La La Land retoma uma história antiga: a de wannabees que querem vingar em Hollywood. Uma atriz e um músico de jazz… Ela é atriz, mas ainda está na fase de servir cafés num bar com gerente chata. Ele é músico de jazz, um pianista íntegro, mas quem não sai emprego senão a tocar canções de Natal em restaurante chique um em banda de versões que toca clássicos dos 80 (dos A Flock of Seagulls aos A-ha) em festas de gente com carteira para pagar mais do que apenas um DJ. Soa a pouca imaginação, certo? Pois é, mas lança o tom da coisa. Pede caução a velhas memórias que cita. Mas sabe a ultra-ensaiado, afinado e demasiado polido. E postiço. Muito postiço.

Com a âncora em fundo narrativo seguro e numa banda sonora de mais-do-mesmo, o filme aposta então no aparato técnico. E basta ver o efeito da sequência de abertura (e mais clássica não podia ser, mesmo com ecos modernos pelo meio) para perceber porque joga todas as cartas no efeito de deslumbramento. A cor (e há verdadeiras explosões de diversidade de pantones), as danças e as canções são depois o tempero certo para que a coisa não falhe o alvo. Há quem adore a coisa. E dia 26 os Óscares vão alimentar mais ainda o encantamento. Mas…

Anúncios

1 Comment on O musical afinadinho

  1. Não concordo nada Nuno. O filme é incrivel. Mas pronto nem todos gostamos do amarelo…

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: