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Quando os músicos escutaram o “1984” de Orwell

Texto: NUNO GALOPIM

Numa altura em que o romance “1984” de George Orwell volta a estar na ordem do dia, propomos um percurso entre três episódios em que a música foi ali procurar inspiração ou para recriar a narrativa ou para adubar distopias igualmente aterradoras.

Poucos livros de ficção científica tiveram um impacte na cultura popular do século XX como 1984, o último romance de George Orwell, originalmente publicado em 1949. Retrato aterrador de vidas sob o jugo de um regime totalitário que mantinha os seus cidadãos “informados” por constantes comunicados de propaganda e, ao mesmo tempo, subjugados por sistemas de vigilância permanentes, 1984 foi tomado como referência para filmes, canções e até mesmo um formato de reality show televisivo, adoptando este o nome que Orwell criou para o líder do seu mundo distópico: o Big Brother…

Esta semana o livro surgiu no topo da tabela dos títulos mais vendidos na Amazon. Segundo noticiava ontem o Guardian este aumento de vendas surgiu como uma reação direta à menção de “factos alternativos” por Kellyanne Conway, consultora de Donald Trump, na sequência do comunicado do secretário de imprensa da Casa Branca que referia que a tomada de posse tinha tido a maior plateia de sempre, facto que as fotografias tiradas no passado dia 20 confirmam que não é verdade.

Mais do que nunca 1984 é um texto que urge conhecer. E hoje lembramos aqui três abordagens que a música fez já sobre essa visão aterradora que Orwell nos deu a ler…

“Diamond Dogs”
de David Bowie (1974)

Em finais de 1973 David Bowie começou a desenvolver dois projectos para musicais de palco que acabaram por nunca se concretizar. Um deles seria uma versão longa da história de Ziggy Stardust, abandonada depois por se pensar ser um passo errado para trás. O outro, uma adaptação do romance 1984, de George Orwell, cuja realização acabou impedida pela não cedência de direitos por parte da viúva do escritor.

Entusiasmado pelas ideias que entretanto havia desenvolvido, Bowie acabou por criar a sua visão distópica de uma outra cidade projectada no futuro, na qual uma série de referências americanas foram por si incluídas. Esta cidade de sombras, tensão e desilusão acabaria por ser o cenário no qual projectou as canções de Diamond Dogs, álbum que assinala franca vontade de partir para lá dos domínios estilísticos associados ao glam rock (esgotados por si em Aladdin Sane e, entretanto, feitos moda descartável por inúmeras novas bandas oportunistas), experimentando um sentido dramático que teria evidentes herdeiros, mais tarde, entre os partidários do rock gótico.

Apesar de projectado num futuro eventual, o álbum representa uma visão crítica da vida urbana dos anos 60 e 70. Bowie chegou a descreve-lo como uma visão muito inglesa de um sentido de vida apocalíptico e reconheceu que entre as canções residiam marcas de incidentes da vida financeira na Nova Iorque de então.

O disco enfrenta, ainda, pela primeira vez na escrita de Bowie, referências concretas ao consumo de drogas. Musicalmente é um disco de reinvenção de ideias, e revelador de sinais de atenção de Bowie para com as outras músicas do seu tempo. 1984, canção criada antes das demais composições, revelava um interesse pelo emergente fenómeno disco (e não esconde uma certa proximidade, na arquitectura rítmica, com o tema para o filme Shaft, recentemente gravada por Isaac Haayes.

“1984 (For The Love of Big Brother)”
dos Eurythmics (1984)

Tinha já havido uma primeira adaptação ao cinema do romance de George Orwell (originalmente publicado em 1949). Estrado em 1956, 1984, de Michael Anderson, com Edmond O’Brien, Michael Redgrave e Jan Sterling. E houve depois, em 1965, uma segunda versão, para TV, por Christopher Morahan, que horrorizara a viúva de Orwell. De tal forma que, durante algum tempo, outras adaptações propostas encontraram da sua parte um “não”.

Em 1984, o ano materializado naquela distopia que se fizera entretanto referência maior da literatura do século XX, uma segunda adaptação ao cinema foi anunciada. Vinha assinada por Michael Radford, apresentava no elenco John Hurt, Richard Burton e Suzanna Hamilton e trazia como um dos valores de comunicação mais notórios uma banda sonora inédita composta e gravada pelos Eurythmics.

Convém lembrar aqui que a dupla constituída por Annie Lennox e Dave A. Stewart vivia momentos de aclamação tanto na crítica como junto do grande público. E se o seu álbum de estreia, editado em 1981, havia passado longe das atenções, a sua incursão pela pop eletrónica em Sweet Dreams (Are Made of This) (1983) e o seu descendente imediato Touch (1984), mais aberto ao diálogo com outros instrumentos, fizera deles figuras na linha da frente das atenções em terreno pop/rock.

1984 (For The Love of Big Brother) concilia a ideia de uma banda sonora para o filme com a criação de um novo corpo de temas dos Euryhtmics. Mesmo sem o impacte dos dois discos anteriores, o álbum gerou um single de sucesso global – Sexcrime (1984) e motivou ainda a edição de um outro single, sendo então escolhida balada Julia que não repetiu o sucesso do anterior.

O realizador não gostou contudo da música dos Eurythmics e há um ‘director’s cut’ do filme no qual ele usa antes uma partitura orquestral que pediu como alternativa. Passados estes anos, é contudo das canções dos Eurythmics que se fala quando se fala deste filme.

“1984”
ópera de Lorin Maazel (2005)

Em 2005, coube ao maestro e compositor Lorin Maazel o desafio de transformar o romance de Orwell num espectáculo musical. Com libreto de J. D. McClatchy e Thomas Meehan, 1984 (a ópera) estreou-se em Londres, na Royal Opera House, em Maio de 2005. Maazel, que contava já 75 anos (e 50 de carreira) quando aceitou finalmente o desafio de compor 1984.

Maazel encontrou preciosa colaboração no realizador de cinema canadiano Robert Lepage. Com um elenco onde se destacam o barítono Simon Keenlyside (no papel protagonista de Winston Smith), o tenor Richard Margison (como o vilão O’Brien), o soprano Nancy Gustafson (como Julia) e a voz de Jeremy Irons na leitura, em off, dos comunicados de propaganda, a ópera é um monumento de música e imagens. A encenação explora a omnipresença do olhar do Big Brother sobre um espaço opressivo pós-industrial, sombrio e intimidante. A espantosa música de Maazel, por sua vez, sublinha o fosso que separa o discurso oficial do poder, forte e implacável, que esmaga as vozes e sonhos do indivíduo. A Royal Opera House esgotou a lotação enquanto a produção esteve em cena. E o mesmo aconteceu, pouco depois, quando passou pelo palco do La Scala, em Milão. 1984 teve edição em DVD (pela Decca) em imagens captadas em Covent Garden em 2005, num filme realizado por Brian Large.

No texto que acompanha o DVD, Lorin Maazel relata como a sua ópera nasceu de uma profunda admiração pelo texto de Orwell. O compositor confessa-se admirado pelo “génio” do escritor, mas também pelo caráter contemporâneo das temáticas sociais que o romance levanta. O tom de denúncia que o livro veicula, nomeadamente quando foca o subjugar do indivíduo perante uma ideologia e um poder absoluto, é claramente central na ópera que nasce da sua fiel adaptação. Das palavras, Maazel captou atmosferas que transformou em música, que mantém vivo o “horror” de 1984. Originalmente publicado em 1949, o livro teve também já vida no pequeno e grande ecrãs. Uma primeira adaptação ao cinema em 1956 por Michael Anderson Já depois da sua morte, Michael Radford apresentou (em 1984) uma terceira e magnífica adaptação, com os principais papéis entregues a John Hurt e Richard Burton, com banda sonora assinada pelos Eurythmics.

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