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O Thin White Duke olhou para a Europa e viu o futuro

Texto: NUNO GALOPIM

Incluido entre a caixa antológica lançada em 2016 o álbum de 1976 “Station to Station”, de David Bowie, conhece agora uma nova edição avulso, recuperando a capa com imagem a preto e branco da versão original do disco.

Editado em janeiro de 1976 Station to Station foi importante momento de transição na obra de David Bowie, estabelecendo um caminho entre os espaços escutados na música negra norte-americana explorados em 1975 em Young Americans (mas também já evidente no disco ao vivo David Live, de 1974, registado em Filadélfia) e uma nova identidade “europeia” que conheceria expressão maior na trilogia Low / Heroes / Lodger que se lhe seguiria entre 1977 e 79. O facto de representar uma etapa de transição não nos impede contudo de ali reconhecermos um dos melhores dos discos de Bowie.

Todavia, mais que uma etapa no desenvolvimento do esteta musical, Station to Station é a tradução em disco de uma das mais sombrias temporadas na vida de David Bowie. Com nova morada em Los Angeles, numa casa onde raramente se abriam cortinas, pouca luz iluminando uma decoração feita de motivos inspirados no antigo Egito, Bowie entregava-se, rezam as mitologias, a uma dieta de pimentos verdes e vermelhos, cocaína e sumo de laranja.

A saída acabaria por ser encontrada pouco depois nas páginas das Berlin Stories de Christopher Isherwood e com importante nova etapa de vida encetada pouco depois na cidade que inspirara essas histórias de outros dias e que o deixou ser um quase anónimo entre tantos outros dos seus habitantes.

Ao mesmo tempo que ia criando estas novas canções aceitou, durante 12 semanas, o exigente papel protagonista em The Man Who Fell to Earth, de Nicholas Roeg (uma foto tirada num dos décors filme acabaria por dar capa a Station to Station)… E data ainda deste período a famosa entrevista ao Sunday Times na qual anuncia um divórcio do rock… Na verdade, naquele tempo um dos discos que o mais inspira é Autobahn, dos Kraftwerk. E pouco depois, já em preparação da digressão a que chamaria Isolar, toma Discreet Music, de Brian Eno, como um dos seus novos polos de referência (de resto nascerá de um encontro entre os dois músicos, no concerto final da série em Wembley em Maio de 1976, um entendimento em torno de uma conversa sobre Discreet Music o ponto de partida para uma colaboração que começaria a ganhar forma pouco depois, em Low).

O sucesso de Young Americans e o fim da ligação ao manager Tony DeFries sugeriram um sentido de liberdade que, literalmente, Bowie transformou em música. Juntando nova equipa de músicos, em sessões que chegaram a durar mais de 24 horas, sob intensa demanda de perfeccionismo serviram canções que emergiam, entre as já referidas metas musicais e um sentido de alienação que transportava para a sua escrita traços evidentes da personagem que vestira no filme de Nicholas Roeg.

O disco é assim uma fresta possível sobre o retrato de uma alma atormentada entre reflexões sobre o oculto, o cristianismo, o mundo moderno. E serviu a criação de nova figura, o Thin White Duke, cuja aparência e comportamentos em tudo eram manifestações das ideias (de ficção) expressas nas canções. O teatro, uma vez mais, ao serviço da obra. O homem, naturalmente, expressão inevitável de si mesma.

O álbum surgiu em finais de 2016 integrado na caixa “Who Can I Be Now”, que recuperava a etapa vivida entre 1974 e 1976. Agora “Station to Station” surge em nova edição avulso, tanto em LP como em CD.

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