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Agenda cheia nos 80 anos de Philip Glass

Texto: NUNO GALOPIM

No dia em que se assinalam os 80 anos de Philip Glass o Carnegie Hall (em Nova Iorque) faz a estreia mundial da sua Sinfonia nº 11. Mas há mais datas em agenda para assinalar a vida e obra de um dos maiores compositores do nosso tempo.

Há quase 30 anos, numa entrevista televisiva, Philip Glass explicava, muito à sua maneira, que havia entre o público (ou, antes, que soma de públicos) que escutava a sua música havia quem dela gostasse por ser clássica. E quem apreciasse, sobretudo, o facto de não ser clássica. Muitos eram os que nela encontravam familiaridade por ser pop. E havia, claro, quem a elogiasse, precisamente por não ser pop. Os paradoxos eram apenas aparentes. E enunciados porque, de alguma forma, alguém tentou arrumar novos conceitos são velhas noções de fronteira. Na verdade, Philip Glass é expressão de uma vida e arte que transcendem a clássica separação entre a “alta” e a “baixa” cultura. A sua obra é essencialmente dominada por óperas, sinfonias e peças para teclados. Mas também marcada por fluente relação com o cinema e mesmo a canção popular. Explorador de novas tecnologias e formas, mas também frequente cliente de velhos instrumentos e formas vocais. Sem preconceitos de classe, Glass é um homem do seu tempo. E, mesmo mais apreciado entre os cultores da pop e cinéfilos que nos meandros da música erudita, não deixa de ser reconhecido como um dos mais importantes e influentes compositores da segunda metade do século XX. E hoje chega aos 80 anos, com o Carnegie Hall, em Nova Iorque, a assinalar a data com a estreia mundial da sua Sinfonia Nº 11, interpretada pela Bruckner Orchester Linz, sob direção de Dennis Russell Davies, num programa que inclui ainda Days and Nights in Rocinha e Ifé: Three Yorúbá Songs, esta última uma colaboração do compositor com a cantora Angélique Kidjo.

E aqui podem ler uma entrevista recente na qual Philip Glass fala desta sua nova sinfonia.

Baltimore, 1949. O pequeno Philip, com 12 anos, ajuda o pai na loja de discos, todas as semanas escutando as novidades, acima de tudo, as que não vendem. O pai Glass faz questão de trazer para casa os 78 rotações que ninguém compra, tentando perceber porque são preteridos, tentando aprender, assim, a gerir com mais cautela a próxima encomenda. Um dia trouxe para casa uma sonata para violoncelo de Shostakovitch que ninguém quis. E tantas vezes a escutou, tentando descobrir o que estaria “errado” com aquela música, que acabou por adorá-la. O mesmo acontecendo ao filho, Philip, que já estudava flauta desde os oito anos e que, nestas sessões caseiras com os rejeitados da loja, descobriu, além de Shostakovitch, obras de Hindemith, Bartók, Debussy, Webern, Berg, quartetos de corda de Beethoven ou trios para piano de Schubert… Músicas que ouviu ao mesmo tempo que acompanhava, como tantos outros teenagers americanos, uma progressivamente mais intensa movimentação nas esferas da música popular, que culminaria com a explosão rock’n’roll com Elvis Presley, poucos anos depois.

Por essa altura, Philip estudava já matemática e filosofia, assim como a inseparável música, na Universidade de Chicago, em pouco tempo acabando como distinto aluno (premiado) na Julliard School of Music. Poucos imaginando, então, que o rapaz com gostos invulgares entre os amigos acabaria anos mais tarde aplaudido como um dos mais importantes compositores da segunda metade do século XX. Reconhecido sobretudo pelo determinante papel na renovação dos hábitos (de criação e consumo) de teatro musical (pode ler-se ópera) e pela evidente personalidade vincada de uma música inicialmente austera nas formas e elementos, nascida num tempo de partilha de referências, técnicas, palcos e filosofias com figuras como as de La Monte Young, Terry Riley e, sobretudo, Steve Reich, valendo-lhe tal etapa a sua identificação como um dos quatro pilares do minimalismo norte-americano, um dos mais marcantes e influentes movimentos musicais da segunda metade do século XX, com repercussões não só ao nível da música de arte, como nas próprias esferas da cultura popular.

Philip Glass, de resto, apesar de ter já composto mais de 20 óperas, oito sinfonias, oito concertos, inúmeras peças para instrumentos solistas e ensemble, entre outras, sempre foi mais aclamado e amado entre os músicos e públicos pop(ulares) que nas esferas da música clássica, onde frequentemente é alvo de críticas menos entusiasmadas. Ao longo da sua extensa carreira colaborou com inúmeras figuras pop como David Bowie (de cujos álbuns Low e Heroes fez nascer duas sinfonias, respectivamente as suas primeira e quarta), Aphex Twin (para quem assinou arranjos de Icct Hedral), S-Express (para quem remisturou Hey Music Lover), Natalie Merchant, Suzanne Vega, Mick Jagger, Ute Lemper (para todos estes tendo assinado canções), Marisa Monte ou Pierce Turner (a quem diversas vezes cedeu arranjos). Uma vivência pop com paroxismo no magistral Songs From Liquid Days (1986), ciclo de canções no qual participaram, entre outros, David Byrne, Laurie Anderson ou Paul Simon, que precedeu em longos anos um outro (Book of Longing) que faria mais tarde sobre poemas de Leonard Cohen. Por duas vezes a sua obra gerou álbums de remisturas. O mais recente desses discos, Rework, nasceu sob a orientação (e entusiasmo) de Beck.


Com Beck

Philip Glass foi citado em vários episódios dos Simpsons. Parodiado em South Park e, inclusivamente, no Contra Informação português (por ocasião da estreia da ópera O Corvo Branco). A sua obra para palco (ópera, teatro e bailado), para concerto ou cinema – e são inúmeras as bandas sonoras que assinou, três delas nomeadas para Óscares da Academia (Kundun de Martin Scorsese, As Horas de Stephen Daldry ou Diário de um Escândalo, de Richard Eyre) – definiu uma multidão de descendências, que encontramos desde John Adams, Michael Nyman, Nico Muhly ou Max Richter a uma verdadeira multidão de compositores ao serviço do mundo do cinema e não menos artistas e bandas pop/rock.

Depois de uma etapa inicial de aprendizagem (e primeiras composições, hoje renegadas pelo próprio), na qual a música de americanos como Aaron Copland, Charles Ives ou William Schuman representou uma primeira esfera de referências para o jovem estudante em Chicago e, mais tarde, na Julliard e, de uma segunda fase de estudos, entre 1960 e 65, primeiro com Darius Milhaud e, depois, Nadia Boulanger (com quem analisou, em Paris, obras de Mozart, Bach e Beethoven), Philip Glass encontrou onde menos esperava as sementes de mudança que nele fizeram aflorar uma nova personalidade musical. Em Paris, mais que nos Domaines Musicales de Pierre Boulez, era no teatro e cinema (sobretudo com Godard e Truffaut) que colhia novos estímulos, aprofundados depois de conhecer Ravi Shankar, com quem co-assinou, em 1966, a banda sonora de Chapaqua, filme de culto de Conrad Rooks. Partiu para a Índia, em busca de respostas a novas questões, a noção de ritmo aí bebida desordenando toda uma ordem musical até então apreendida. Foi também na Índia que conheceu o 14º Dalai Lama, aí nascendo uma franca identificação com a causa tibetana que o levaria a ser, em 1987, um dos fundadores da Tibetan House e, ainda hoje, regular organizador e participante de concertos anuais de angariação de fundos. Este ano o concerto, que se realiza a 16 de março, será dedicado à música de Glass, representando a data mais outro momento alto da celebração do seu 80º aniversário.

De regresso a Paris, uma primeira composição, de formas mais austeras, ditada pela protagonista percepção do ritmo, surgiu para ilustrar uma peça teatral de Beckett. De uma só machadada abria não só espaço a uma nova demanda estética (da qual nasceria uma genética que, mesmo hoje por vezes distante, ainda coordena a sua linguagem), assim como uma fluente relação com os universos do teatro. Na verdade, quando hoje se pergunta a Philip Glass se faz música minimalista, responde que em tempos assim foi, mas que agora cria, sobretudo, música para teatro.

Nova Iorque acolheu-o de volta, primeiros espaços de vida pública então oferecidos por museus e galerias, fechado que estava o circuito das salas de concerto às suas músicas e às de outros contemporâneos. Sem um cêntimo para desenvolver projectos (todas as fundações e mecenas de referência recusaram as suas propostas em finais de 60), trabalhou como canalizador, taxista, teve uma empresa de mudanças com Steve Reich, foi assistente do escultor Richard Serra. Era um entre “uma geração de compositores em revolta aberta ao mundo académico”, como afirma no livro Talking Music, de William Duckworth.


Com o Philip Glass Ensemble, nos anos 70

Sem instrumentistas com vontade de o acompanhar, criou o seu próprio ensemble em 1968 e logo ganhou primeiros admiradores entre a comunidade das artes performativas, mais tarde cineastas e músicos pop. Às primeiras peças, como Two Pages (1968) ou Music In Contrary Motion (1969), nas quais ia definindo princípios linguísticos, fez seguir peças mais complexas, dotadas de mais evidente pulsão dramática, como Music With Changing Parts (1970) ou Music In Twelve Parts (ciclo de quatro horas composto e estreado entre 1971 e 74). Experimentava-se todo um código que conheceria expressão maior em Einstein On The Beach (de 1976, peça habitualmente referida como ópera, apesar de consideravelmente diferente de outras “óperas” que mais tarde assinou), colaboração com Robert Wilson (futuro parceiro em The CIVIL warS e O Corvo Branco) que é apontada como marco de referência na história do teatro musical. Desta ópera e, sobretudo, das duas outras que completaram a trilogia dos “retratos” (Satyagraha, de 1980 e Akhnathen, de 1983) partiram variações em torno de uma genética comum, com o tempo a sua obra evoluindo a caminho de instrumentos mais convencionais e, aos poucos, aceitando no seu corpo a presença de referências colhidas na tradição clássica ocidental, sobretudo no barroco, romantismo e primeiras manifestações do século XX.


“Einstein on the Beach”

“Satyagraha”

“Akhnathen”

Em tempo de assinalar o seu 80º aniversário opta por uma intensa agenda de trabalho. Em 2007, quando celebrou os 70 anos, Philip Glass fez 70 anos não o fez com programações especiais. Andou antes na estrada, em mais uma digressão, em mãos tinha o trabalho na ópera Appomatox (baseada na guerra civil americana), em duas novas sinfonias, duas bandas sonoras (para The Inner Life Of Martin Frost, de Paul Auster e O Sonho de Cassandra de Woody Allen), um novo ciclo de Études para piano, um novo concerto para violino e orquestra (de subtítulo The American Four Seasons) e ainda o projecto Book of Longing, baseado na poesia de Cohen. Dez anos depois, aos 80, o ano de 2017 acolhe-o, novamente com… trabalho.

De 1 a 8 de fevereiro o Carolina Performing Arts (UNC Chapel Hill) apresenta “Glass at 80,” uma celebração da obra de Glass e do seu impacte na música e na vida intelectual, com um programa que inclui as presenças de colaboradores seus como Lucinda Childs, Laurie Anderson e o Kronos Quartet.

Em Nova Iorque, o National Sawdust (Brooklyn) vai ter uma série de programas ao longo do ano sob a desigação Phil@80, que inclui, a 24 de fereveiro, The Complete Piano Etudes por Maki Namekawa. Em Manhattan, o Carnegie Hall (que como acima se refere estreia hoje a Sinfonia nº 11) vi ter Glass na cadeira do compositor ao longo da temporada, anunciando-se atuações com a Pacific Symphony Orchestra (com Anoushka Shankar), da Louisiana Philharmonic, de Nico Muhly, do Philip Glass Ensemble e da American Composers Orchestra.

Em junho o Opera Theater of Saint Louis vai apresentar a estreia americana da ópera The Trial, com encenação de Michael McCarthy, uma produção da Royal Opera de Londres, quando ali foi apresentada em 2014.

Nos discos, para já, e assinalando o 30º aniversário do Concerto para Violino nº 1, a Orange Mountain Music (editora do próprio Glass) edita uma nova gravação com o virtuoso Renaud Capuçon e a the Bruckner Orchester Linz, dirigidos por Dennis Russell Davies.

Este texto inclui excertos de “Música Glássica”, que publiquei como prefácio da edição portuguesa de “Música de Philip Glass”, livro que a Quasi lançou em 2007.

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