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Lene Lovich: “Se calhar precisamos de uma nova revolução punk!”

Texto: NUNO GALOPIM

Na semana em que regressa a Portugal, Lene Lovich conversou com a Máquina de Escrever sobre o impacte que a revolução punk teve em si, das relações da sua música com as imagens e de uma mais regular presença em palco com a nova banda.

Depois de longos períodos de ausência nos últimos tempos, e acompanhada pela Lene Lovich Band, tem mantido uma presença mais regular na música, sobretudo em palco. Como é que tem encarado estas novas rotinas?
São muito importantes porque têm a ver com a minha identidade. Tenho de saber quem sou… O mundo real é para mim algo difícil de encarar. Nem sempre é feliz… Mas no palco tudo é perfeito.

É-lhe fácil escolher o que vai apresentar em cada concerto?
Não difícil porque tenho muitas canções, pelo que não falta por onde possa escolher. O elemento mais importante aí é o tempo. Se se está em palco muito tempo então podemos criar vários tipos de atmosferas e tocar vários tipos de canções. Mas se o concerto é mais curto então tentamos criar um momento em que tudo seja entusiasmante. Quanto mais longa a duração maior é a nossa capacidade para explorar várias emoções.

Recentemente apresentou o álbum “Stateless” de fio a pavio em concerto. Como correu?
Estava com algum receio de o fazer porque não tocava algumas daquelas canções há muito tempo. E até mesmo quando o álbum foi editado nem tocávamos algumas daquelas canções ao vivo. Era por isso como fazer algo completamente novo. E fiquei surpreendida porque correu mesmo muito bem. Eu já não tocava saxofone há muito tempo, e tinha também algum receio disso. Mas também correu bem. Mas não vamos levar o saxofone a Portugal desta vez…

Este não será, então, um concerto focado em “Stateless”…
Não. Vai ser uma mistura…

Podemos esperar então temas dos seus cinco álbuns?
Sim, um pouco de tudo.

Como reagem os mais novos que vão aos seus concertos às canções que apresenta?
Acho que ficam um pouco surpreendidos. E surgi com a revolução punk. As pessoas eram muito honestas e entusiasmantes em palco. Um pouco imprevisíveis também… Acho que os mais novos, hoje, estão mais habituados a ver coisas que são muito “normativas”. É-me um pouco difícil falar sobre isto, mas acho mesmo assim que os mais novos gostam da música dos anos 80, querem ver essa realidade. Acho que aparecem para aprender.

Que canção recomendaria a alguém mais jovem para por aí começar a descobir a sua obra?
Se calhar o Lucky Number… Porque é a mais fácil de compreender.

A ideia se ser único e diferente tinha um peso marcante no panorama musical nos tempos em que começou a editar discos?
Se calhar precisamos de uma nova revolução punk. O de outros tipos de revolução. Porque tudo me soa a jogar pelo seguro, muito normativo, muito previsível… Vivia-se de facto um tempo especial quando comecei. Não havia controlo da parte das editoras discográficas e isso para mim foi muito importante. Não durou muito tempo também (risos)… Mas foi um tempo para que os artistas pudessem ser diferentes. E foi divertido porque ninguém sabia o que podia esperar do que quer que fosse. E as pessoas queriam ser surpreendidas…

E houve surpresa na Stiff Records [a editora que então lançava os discos de Lene Lovich] quando “Lucky Number” se tornou num êxito daquela dimensão colossal?
Claro! Não imaginavam que pudesse alcançar aquele patamar de sucesso. Mas foram muito astutos no marketing… Pensavam que podiam tentar vender qualquer coisa. Mas acho que ficaram surpreendidos quando a canção se transformou num grande êxito.

Era uma editora interessante para nela trabalhar por aqueles tempos, Tinham um catálogo verdadeiramente interessante, consigo mesma, os Madness, Elvis Costello ou Ian Dury, entre tantos outros?
Tinham uma personalidade muito forte! Era uma editora pequena, por isso podiam reagir depressa ao que acontecia e muito atenta ao que acontecia no panorama ao vivo. Queriam bandas que fossem boas em palco. Eles viam então as bandas de que gostavam e depois queriam ter essa música. As editoras maiores não conseguiam aí reagir tão rapidamente quanto eles. A Stiff Records foi bem sucedida nesse aspeto.

A revolução punk afetou, como observou, a maneira tanto do público como das bandas e também editores e divulgadores lidarem com a música. E consigo mesma. O que a mudou a si, pessoalmente?
Teria sido difícil uma grande editora ter-me aceite no seu catálogo. Não éramos uma banda punk típica. Mas aquele era um tempo de misturas e de confusões. E isso para mim foi muito bom. Porque as portas que antes estavam fechadas de repente abriram-se. E chegou o tempo para que eu pudesse ser aceite. Foi por isso muito importante para mim. Além disso ninguém conseguia então prever o que seria a próxima banda a ter êxito porque tudo era muito imprevisível. E por isso as portas eram abertas a todos. E isso foi muito bom!

Deu uma atenção desde logo ao vídeo e ao trabalho com a imagem em geral, antes mesmo de se ter tornado uma rotina a criação de telediscos para cada novo single…
Sim, é verdade… A principio as grandes editoras não se aperceberam de como esse trabalho era de facto tão importante. Fui das primeiras artistas a aparecer na MTV… Nos primeiros tempos dos telediscos foram as editoras mais pequenas aquelas que se aperceberam de que aquela era uma boa ideia a assimilar.

O que juntam os telediscos às canções?
Quando escrevo canções eu imagino mentalmente imagens. Surgem ao mesmo tempo do que aquilo que escuto. Para mim a música tem de ser visual. Por isso essa ligação funciona tão bem quando é depois filmada.

Mas até mesmo nas canções há toda uma dimensão cénica. Os temas de “Flex”, por exemplo, são dotados de sugestões cénicas nos arranjos que por vezes sugerem molduras para o que acontece na frente…
Quando estou a gravar gosto de ver e de sentir a canção. Por isso tento muitas ideias para o tentar alcançar e assim materializar o que imaginei. Há por isso muitas ideias para criar essa noção de imagem musical. Uma outra importância dos aspetos visuais, e aqui regressando aos telediscos, é que permitiam às pessoas que me pudessem ver na televisão mesmo que não pudessem ir aos concertos.

Há algum álbum seu do qual se orgulhe particularmente?
Creio que teria dizer que seria o Flex… Eu estava tão feliz pelo facto de as pessoas estarem a gostar daquilo que eu estava a fazer. Passei toda a vida a estar errada, a ser alguém que não era aceite. E de repente, pelo sucesso de Stateless, estava a começar a ser aceite. E porque a editora estava muito ocupada com outros artistas e achou que nós estávamos bem, bem organizados e conseguíamos tratar da música nós mesmos, deixou-nos com liberdade total. E isso raramente acontece daquela forma. Por tudo isso estava muito feliz. Tinha liberdade. E gosto de trabalhar quando estou feliz. Há pessoas para quem isso funciona ao contrário. Há quem escreva melhor quando passa mal.

“Flex” é um álbum feliz, assim sendo…
Sim, muito feliz.

E é um disco cheio de detalhes nos arranjos. Muito elaborado. Foi trabalhoso em estúdio?
Eu e o Les Chapell, o meu parceiro, sempre tivemos montes de ideias. E gostávamos de poder tentar explorá-las então. Isso foi bom. O mais difícil foi quando chegámos à etapa da mistura e começámos a pensar se precisávamos mesmo de usar todas essas ideias. E se acharmos que sim, então o que é que deveríamos fazer para que elas resultassem em favor das canções? Para soarem bem e completas?…

Logo desde o início há nos seus discos uma evidente vontade em explorar o que de novo os sintetizadores estavam a colocar nas mãos de quem fazia música…
Eu estava muito interessada nos sintetizadores logo desde o início. A principio o que se conseguia fazer eram efeitos sonoros… Coisas muito básicas. Não havia teclados sequer. E acompanhei os desenvolvimentos que se seguiram e achava aquilo tudo tremendamente entusiasmante. Ao mesmo tempo era um labor que consumia muito tempo porque nunca me dava satisfeita com as primeiras ideias e queria sempre ver até onde era possível ir. E experimentar era aquilo de que gostava mais. Por isso gastava ali muito tempo até encontrar o som certo.

Porque estamos a falar de um tempo em que ao músico cabia o trabalho de criar os sons também. Não havia “bibliotecas” de samples…
Sim, é verdade. E acho que é impressionante a quantidade de hipóteses que hoje estão disponíveis. Ali havia mais uma ideia de aventura de descoberta sobre o que era possível fazer que servisse a canção.

E como recriam hoje em palco alguns desses sons que levaram tempo a encontrar em estúdio?
É uma situação completamente diferente e não estou à espera de recriar os álbuns. De todo! De resto entusiasma-me a ideia de apresentar as canções de uma forma mais simples. Porque uma boa canção pode ser tocada de muitas maneiras. Quero por isso apresenta-las dessa forma mais simples, estando eu ali para as mostrar. É tudo aquilo de que preciso… Não são necessárias paisagens complicadas.

Pondera fazer e até gravar novas canções?
A vida não é fácil. Há questões económicas a ter em conta. Mas também questões emocionais. Há coisas a reparar… Ainda não está tudo reparado. Mas estou a tentar…

A Lene Lovich Band apresenta-se sábado, dia 4, pelas 21.30. no Cineteatro Municipal D. João V, na Damaia.

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