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Momentos de uma vida

Texto: NUNO CARVALHO

“Moonlight” é um tríptico que traça o percurso de um rapaz negro “gay” desde a infância até à idade adulta, lançando um olhar sobre uma personagem que acaba por silenciar o seu verdadeiro eu como estratégia de sobrevivência.

Numa entrevista a uma revista online americana, Barry Jenkins, o realizador de Moonlight, referiu o conceito de “microagressão” como uma ideia-chave para se perceber a génese do percurso transviado para o qual o protagonista do filme é arrastado. “Penso que todos nós, de formas muito subtis, desempenhamos um papel na projeção de uma imagem de masculinidade nos rapazes de todas as etnias, mas em particular nos homens negros”, explicou o cineasta de 37 anos, natural de Miami.

Num tempo em que ouvimos dizer, e lemos até pela mão de colunistas na imprensa de referência, que um dos “responsáveis” pela malaise das sociedades ocidentais é o “politicamente correto”, nomeadamente a suposta “picuinhice” de coca-bichinhos de uns quantos radicais de esquerda que teimam em acusar “microagressões” com uma sensibilidade e suscetibilidade supostamente exageradas (como se já não houvesse direito a ser-se sensível – basta ver o tom cada vez mais cínico e agressivo com que são tratadas as “almas sensíveis”, como se o desejável fosse enfileirarmos todos no exército moribundo de mortos-vivos de consciência – sobretudo moral – anestesiada), torna-se cada vez mais legítimo – e por vezes legitimado pelo próprio poder político – defender o direito a um certo tipo de politicamente incorreto, o que na mente de muita gente significa, infelizmente, a liberdade para poder injuriar ou tecer, por exemplo, lesivos comentários homofóbicos (o que, em ambos os casos, constitui um crime à luz da lei). E, tal como um amontoado de pecados veniais acaba por totalizar por vezes um pecado maior, também as microagressões em série vão furando o juízo dos mais vulneráveis até eventualmente lhes abrir no coração uma cratera de dor.

A personagem central de Moonlight, Chiron, que acompanhamos em três fases da vida (infância, adolescência e idade adulta), divididas por três segmentos, sofre uma transformação em direção a um relativo malogro existencial devido à discriminação e rejeição de que é vítima, que o empurram para uma solidão quase irredutível e para a trágica materialização de um certo estereótipo que a sociedade inconscientemente quer ver confirmado (o do marginal). Mas Chiron também é responsável por aquilo em que se transformou, por se ter tornado aquilo que de facto não é. Nesse sentido, o que Juan (Mahershala Ali, nomeado para o Óscar de ator secundário), que se torna seu amigo e uma espécie de substituto da figura paterna ausente depois de o salvar de um bando de pequenos bullies que o perseguem (na primeira parte, a da infância), lhe diz quando o alerta para o facto de a dada altura termos de decidir quem queremos ser e de não devermos permitir que ninguém nos diga o que somos em função do que quer que sejamos acaba por não ter a devida ressonância no destino de Chiron, que se fecha sob uma capa de opacidade e silencia o seu verdadeiro eu como estratégia de sobrevivência.

Baseado na peça In Moonlight Black Boys Look Blue, do ator e dramaturgo americano Tarell Alvin McCraney, Moonlight (que está nomeado para oito Óscares, incluindo os de melhor filme, realização e argumento) é um tríptico que traça o percurso de um rapaz negro gay desde a infância até à idade adulta. Mas não é o típico filme que tenta lançar um olhar abrangente e panorâmico sobre algo como três décadas de vida, uma tarefa que quase sempre redunda em retratos superficiais e genéricos. Jenkins optou antes por seguir o método de se concentrar num momento ou conjunto de momentos sucintos da vida de Chiron e “dramatizá-los num nível quase granular ou microscópico”. Assim, em vez de uma sucessão de cenas para simular a passagem do tempo, temos em cada segmento um pequeno conjunto de cenas focadas num dado ponto ou episódio da vida do protagonista, evitando dessa forma o retrato prolixo, hiperinformativo e sobrecarregado de imagens. Neste sentido, Moonlight revela uma estratégia narrativa mais interessante do que, por exemplo, Boyhood: Momentos de Uma Vida, de Richard Linklater, ao concentrar-se em episódios que funcionam como súmulas e amostras paradigmáticas de um “organismo” bem mais vasto.

Moonlight mostra também uma perspetiva estimulante sobre a natureza do bullying. O que podemos concluir é que frequentemente um perseguidor (bully) é alguém que se identifica sobremaneira com aquele que persegue, mas que sente uma vergonha exacerbada dessa identificação, procurando agredir naquele com que se identifica justamente o que detesta em si mesmo. No caso da homofobia, que Moonlight retrata com extrema justeza, dá-se com muita frequência o caso de o agressor homofóbico ser ele próprio um homossexual egodistónico (ou seja, alguém que não se aceita como homossexual e que reprime a expressão dessa identidade).

“Moonlight”, de Barry Jenkins, com Mahershala Ali, Naomie Harris, Alex R. Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Janelle Monáe, Jaden Piner, André Holland, estreia hoje, numa distribuição da NOS Audiovisuais

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