Uma nova intimidade em Luísa Sobral
Texto: GONÇALO COTA
Os candeeiros dispuseram-se pelo palco como se este fosse incontestavelmente um espaço de intimidade: à medida que cada um dos músicos se sentava, num ritmo bastante coreografado, acendiam-se e encandeavam-lhes as faces e os instrumentos que iriam tocar. A menina de dezasseis da primeira edição dos Ídolos, que percorre o palco, apresenta uma ternura na flor da maternidade e um amadurecimento que lhe assenta tão bem como a camisa que pediu especialmente à mãe para a ocasião.
As novas músicas não destoam da plasticidade de sonoridades antigas, continuando-lhe a caber na voz baladas cândidas ou composições de jazz mais orquestradas – o controlo das particularidades vocais que ostenta permite-lhe navegar sem muito esforço na versatilidade do reportório. Não esquece de nos dizer que João Monge lhe compôs duas das poucas canções com letras em português Paspalhão e Jardim Roma, recuperando a essência de ambiências de dias de ainda maior juventude.
Os temas em inglês não fazem esquecer os tempos em que estudava música em solo americano, com destaque para Janie e My Man, que se tornou o single principal, ou para reinterpretação de And So It Goes de Billy Joel. Stormy Weather foi o ponto alto da noite, cantado em dueto com o irmão, Salvador Sobral, que com o olhar embevecido de quem assume sem vergonhas, mas com o receio do palco de quem o conhece há pouco, de que não poderia estar mais orgulhoso. Num segundo dueto, substituiu também a crueza voz de António Azambujo em Inês por um timbre mais delicada, conseguindo a melhor versão da música que ouvi.
Em despedida, toca-nos os singles dos álbuns anteriores. Xico (que defende “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”) e João, bem como a canção de embalar que escreveu para o pequeno José, Para Ti. Toma-nos numa narrativa propositada onde reconstrói a sua nova intimidade pessoal, sendo que a família e a maternidade são os eixos centrais para compreender como quer Luísa Sobral que olhemos para ela.

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