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A noite dos (re)encontros

Texto: NUNO GALOPIM

O regresso de Lene Lovich a uma plateia portuguesa promoveu um mergulho por memórias da “new wave”, num alinhamento essencialmente centrado nos discos que lançou entre 1978 e 1982. A teatralidade esperada e uma pose comunicativa e bem disposta conquistaram quem lá esteve.

Na crónica que esta semana publiquei na BLITZ (ler aqui) contava a história daquele que foi o meu primeiro disco. Ou melhor, do primeiro álbum comprado com o dinheiro das semanadas e uns trocos aqui e ali ia poupando, sobretudo na hora do almoço e do lanche, quando uma ementa mais económica significava juntar mais uns tostões para depois gastar… em discos. Foi em 1980, com Flex, de Lene Lovich, que comecei a gerir uma economia que permitia chegar ao fim de cada semana com um single novo ou, após dieta de três semanas, um LP… Já tinha comprado singles. O primeiro, não muitos meses antes, fora o de Video Killed The Radio Star, dos Buggles que, para quem tinha 12 anos (em 1979) traduzia toda a carga messiânica de uma visão de futuro com sabor pop. Como era possível resistir? Flex foi contudo o primeiro álbum. E, pouco depois, quando Lene Lovich trouxe a digressão que apresentava esse disco a Portugal e anunciava um concerto em Cascais, a ordem foi para ficar em casa… Fazia sentido… E iniciou-se então uma espera. Que não terminou há dois anos por ocasião da sua vinda a Leiria porque não foi mesmo possível lá ir naquela data. Mas que teve o seu ponto final na noite de ontem no Cineteatro D. João V na Damaia (bela sala, confortável e com espaço para não andarmos aos encontrões se alguém passa pela fila em que estamos sentados, diga-se antes de tudo mais). Desde aquela noite, em que fiquei a remoer o “não” passaram 37 anos… Valeu a espera? Sim, plenamente.

Mais ausente do que presente, sobretudo desde a segunda metade dos anos 80 – desde então tendo apenas editado os álbuns March (1989) e Shadows and Dust (2005) – Lene Lovich juntou uma banda há relativamente poucos anos e voltou a viver uma relação mais próxima com a estrada. Foi com essa banda que voltou à região da grande Lisboa, apostando num reencontro com velhas canções apresentadas em arranjos necessariamente menos complexos do que aqueles que escutávamos nos discos (que valorizavam de sobremaneira um labor cénico desenhado por sintetizadores e moldado a rigor durante a mistura das canções). Já a teatralidade era a de sempre. E a relação com a plateia a de uma conhecedora das artes da comunicação.

Numa variação sobre o look clássico que definiu sobretudo na chegada aos oitentas, valorizando as míticas tranças e todo um muito peculiar arranjo num jeito de turbante à la Lene, a cantora entrou em palco ao som de What Will I Do Without You (de Flex, de 1980), apresentando logo depois, de seguida, Blue Hotel (o segundo single de No Man’s Land, de 1982), a sua versão de I Think We’re Alone Now (que foi o seu single de estreia em 1978) e Maria (novamente do álbum de 82), para esta última vincando as qualidades de um hino equalitário entre homens, mulheres… e animais. E aqui ficou a nota de uma voz em defesa dos direitos dos animais (causa que lhe valeu até um single em parceria com Nina Hagen) mais subtil do que a que Morrissey uma vez nos passou, com uma carga de alguma violência gráfica (ideologicamente compreensível, mas um tanto excessiva na forma) numa atuação no Coliseu dos Recreios.

Surge então o primeiro “caso” da noite, com uma corda partida na guitarra, que valeu uma improvisação para voz e banda restante, em jeito de canção, gracejando com o sucedido e o consequente desaparecimento pontual do guitarrista para os bastidores. Alguns minutos adiante outra corda daria de si, desta vez servindo a banda (apenas com as teclas, bateria e baixo) uma versão descarnada, mas cenicamente coesa, e ali bem oportuna, de The Night (de Flex).

Se as memórias das canções já por si valeriam de justificação a uma plateia dominada por quem deve ter andado na escola na mesma altura do que eu (e um bocadinho antes) a comunicabilidade de Lene Lovich e a forma exemplar como contornou os inesperados vincaram mais profundamente aquele tipo de empatia que, de facto, só acontece em concertos ao vivo e, sobretudo, em salas com a dimensão que sugere proximidade como aquela em que ali estávamos.

Houve ainda mais recordações a passar pelo palco, ordenadas no alinhamento sugerindo a evolução de ambientes. De Stateless (de 1978) ouvimos Momentary Breakdown (que se seguiu à primeira corda partida, pelo que o título quase ali traduzia a realidade), o saltitante Say When e Lucky Number (que fez sair para os corredores e fundo da sala aqueles que não conseguiam mais manter-se sentados, mais o esperado coro da plateia, com cada um a tentar não desafinar o seu “Ah! Oh! Ah! Oh!” do refrão). De Flex escutámos You Can’t Kill Me, Bird Song (uma das mais aplaudidas da noite), o irresistível Angels… E os agudos estavam lá… Do alinhamento de No Man’s Land ouviu-se ainda Rocky Road. Passando ao largo de March, do período posterior a esse trio de discos de referência na sua discografia houve depois duas faixas de Shadows and Dust: Wicked Witch e Light… E ainda New Toy, single de 1981 nascido de uma colaboração com Thomas Dolby. No encore juntaram-se ainda Savages (do álbum de 1982), Details (do EP New Toy) e Home (do álbum de estreia). Sim, faltou apenas um a fechar que, por exemplo, se teria resolvido desviando para aqui um dos singles. Ou tocando It’s You Only You, o único dos seus 45 rotações da etapa 1978-83 que ficou de fora do alinhamento…

Uma última nota para uma inesperada primeira parte com o projeto a solo da teclista Kirsten Morrisson que apresentou quatro temas (alguns deles presentes no seu álbum de estreia Proserpine’s Gold, de 2015) nos quais cruza eletrónicas e uma voz com escola no canto lírico que vez lembrar, mesmo dadas as diferenças tanto vocais como instrumentais, os climas de uma Yma Sumac, caso a grande diva exotica caminhasse nestes climas de uma pop barroca com sabores mais atuais.

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