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Crónica de um amor súbito (com final feliz)

Texto: DANIEL BARRADAS, em Paris

Aos 71 anos, com uma voz desgastada pela idade, o veterano Christophe reinventou-se rodeado pelos melhores que a França tem e fez um dos melhores álbuns de 2016. Agora apresentou-se ao vivo em Paris. E ultrapassou as melhores expectativas que se pudesse ter.

Christophe

É difícil explicar os amores súbitos. No início do ano passado, já nem sei como, descobri o álbum Les vestiges du Caos de Christophe, que tinha acabado de ser editado. Foi tiro e queda. Encomendei imediatamente a edição em vinil e comprei bilhetes para o concerto de Paris, a um ano de distância. Então, na passada sexta-feira, 3 de fevereiro, cá estava eu em Paris, no final da digressão de uma vedeta que, fora de França, quase ninguém conhece e que, mesmo aqui, continua preso num nicho de público que ronda os 60/70 anos. Quando alguém me pergunta o que vim fazer a Paris, ficam a olhar de lado para mim com a resposta.

Eu não conheço o Christophe do passado, o tal que é um ícone do rock “yé yé” da França dos anos 60 ou das baladas ensopadas em sintetizadores dos anos 80. Não tenho qualquer afinidade sentimental com uma longuíssima carreira que se cola à identidade musical de um país e que muitas vezes roçou as suas expressões mais azeiteiras. Eu apaixonei-me foi pela música deste Christophe que, aos 71 anos, com uma voz desgastada pela idade, se reinventou rodeado pelos melhores que a França tem e fez um dos melhores álbuns de 2016. Jean-Michel Jarre escreveu-lhe letras, Alan Vega contribuiu a cantar (antes de morrer), Enki Bilal cedeu desenhos para a cenografia do concerto… Isto só para mencionar os nomes conhecidos fora de portas. E se não ouviram Lou, a sua canção de tributo a Lou Reed, armem-se de um lencinho para a lagrimita e ouçam-na agora.

À entrada da sala Pleyel, que depois da recente renovação é agora das melhores de Paris, o entusiasmo não era exactamente palpável. Mas quando um público quase geriátrico começa a bater palmas por o espectáculo se atrasar a começar é quando sabemos que temos uma plateia repleta de fãs. E pelos vistos há os suficientes para esgotar quatro noites seguidas. (Que sei eu disto? Eu sou o turista…)

Mas ninguém perdeu pela espera porque o que se seguiu ultrapassou as melhores expectativas que se pudesse ter. Tivemos direito não só a um extraordinário concerto mas também a um surpreendente espectáculo. Tendo em conta que Christophe mal se levanta da sua cadeira (aliás, fez grande piada de ter o microfone ligado à cadeira giratória, o que lhe permite continuar a cantar, quer esteja a tocar piano ou virado para a plateia ou para os músicos) o palco esteve continuamente cheio de surpresas coreografadas pelo ilusionista Dani Lary, apoiado pela mais recente tecnologia de iluminação. Houve projecções de videos em cortinas de fumo, houve bolas de sabão, houve bailarino de flamenco, houve piano a atravessar o palco e o próprio Christophe chegou a flutuar no ar…

O espectáculo dividiu-se em duas partes: uma primeira em que Christophe interpretou integralmente o álbum Les vestiges du Chaos num evidente manifesto para impôr o seu “eu” actual (e foi incrivelmente forte e emotivo); e uma segunda em que, ao piano, recriou os seus grandes êxitos, convidando um a um os membros da banda a juntarem-se a ele em virtuosos duetos de piano com baixo, bateria, guitarra, saxofone, sintetizador e violoncelo. Esta segunda parte terminaria depois num apoteótico “agora todos” para a releitura do seu êxito Les mots bleus que fez a canção voar em direcções insuspeitas. Foi o abrir do caminho para o encore que veria mais dos seus êxitos reinterpretados em vestes modernas. Esse programa culminaria na última canção, Aline, o seu grande sucesso de 1965 que, qual fantasma que se recusa a ser exorcisado é então descontruido para fazer algo de novo. E foi numa inesperada e extraordinariamente bem sucedida fusão de Creep dos Radiohead com a letra de Aline, sublinhada por um jogo de luzes impressionante que Christophe deixou o salivante público com a mensagem que reiterou ao longo de toda a noite: “Eu ainda aqui estou e sou relevante”.

E este turista musical que vos escreve levantou-se com toda a sala para a devida ovação. Mentalmente, tirei o chapéu e fiz uma vénia também a este grande, grande senhor.

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