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Lady Gaga na SuperBowl: pró e contra

Textos de GONÇALO COTA e NUNO GALOPIM

Duas opiniões contrastadas sobre a atuação de Lady Gaga durante o intervalo da final da Super Bowl que, invariavelmente, representa um momento televisivo de projeção mundial.

Contra:

Lady Gaga trouxe para o intervalo da Super Bowl a espectacularização pop dos seus maiores sucessos, mas dissolveu em demasia a mensagem política necessária. Este seria contexto idílico para uma contra-resposta, não só pelo facto do derradeiro entretenimento televisivo de massas, congregando as maiores audiências, como por tudo aquilo que Gaga representa simbolicamente.

God Bless America e de This Land is Your Land, uma ode patriótica escrita nos anos 40, poderia antever, falaciosamente, juntar o melhor do entretenimento bem arquitectado visual e musicalmente, como orientação política expressiva e interessante. Apenas o inicio e uma versão encurtada, como pede a ocasião, de Born This Way onde se integra uma mensagem mais explicita contra a heteronormatividade e sexismo, toda a construção do espectáculo foi dissonante para operacionalização bem concretizada uma visão mais politizada.

De recordar que a carreira de Gaga alicerçou-se essencialmente principalmente através de duas premissas essenciais:defesa das identidades feministas e queer – das mais vulneráveis à tónica da nova agenda política americana -, e na da expressividade, em antagonismo com a subtileza, como mecanismo de diferenciação artística. Ambas minoradas durante uma altura crítica na história política americana, que carece de figuras que transmitam mensagens políticas inteligentes, explicitas e desestabilizadoras do processo de normalização corrente. – G.C.

A favor:

Tenho andado cada vez menos interessado pela música, as palavras e as imagens criadas por Lady Gaga. Quando surgiu, e sobretudo entre os dias de The Fame e The Fame Monster, aliou o melhor das linguagens ao serviço da canção pop e das ferramentas de comunicação mainstream para falar dos que eram diferentes. Coisas do “empoderamento” como agora se diz… E foi por isso uma voz politicamente interventiva, usando em favor das causas em que acreditava a exposição mediática que uma emergente carreira de sucesso na música lhe estava a dar. Depois veio um primeiro tiro (artístico) ao lado em Born This Way, pior ainda o de ArtPop, e a coisa não se recompôs (nos discos). E recentemente dei por mim a pensar: que voz mais útil a um tempo como aquele que vivemos podia estar ali a cantar de outra maneira…

Por curiosidade fui espreitar a atuação na Super Bowl. E não é que foi mesmo um dos seus melhores momentos dos últimos tempos? Sim. Tanto nos domínios das artes do palco (e isso não era surpresa, que a vi cá em Lisboa) como na capacidade de, subtilmente, passar sugestões um discurso político em terreno ideologicamente algo adverso. E vale a pena lembrar que o jogo, a que esta atuação serviu de programa de intervalo, decorreu em Houston, no Texas. Sim, o mais poderoso dos chamados “red states”. E que a América em que vive tem hoje Donald Trump na Casa Branca.

O olhar de quem seguia a atuação pode ter-se agarrado a uma quase ofuscante manifestação de showbiz de primeira liga. Mas as ideias de alerta e de combate equalitário serviram-se logo nos primeiros instantes. E depois de uma afirmação de patriotismo a citar God Bless America de Irving Berlin (como que pedindo que zele por ela, América) e de uma passagem pela mais célebre das canções de Woody Guthrie – sim, o magnífico This Is Your Land, que para a esquerda americana tem uma carga de alguma afinidade com uma Grândola Vila Morena de José Afonso – Lady Gaga citou o final do “pledge of allegiance”, ao lembrar “one Nation under God, indivisible, with liberty and justice for all”. Libertade e justiça para todos. Num tempo em que Trump emitiu uma ordem para barrar a cidadãos de sete países a entrada nos EUA, uma para construir um muro na fronteira e deportar emigrantes ilegais, as palavras ressoaram com sentido de atualidade.

Pouco depois, uma passagem pela letra de Born This Way sublinhava, uma vez mais sem recurso a um panfletarismo ostensivo, que há questões de igualdade de direitos que há que ter em conta. Porque há conquistas que não se podem perder… Depois houve uma sucessão de êxitos em coreografia de encher o olho, sem transformar nunca em comício um espetáculo que não se pode comparar a um concerto de um artista. Porque serve um fim específico. E é uma encomenda. Sim, é uma encomenda. Mas as mensagens já tinham passado. Uma plateia mainstream, global, assimilara-as sem dar por isso. Na mouche, portanto. – N.G.

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