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O inferno dos que vivem mais perto do céu

Texto: NUNO GALOPIM

Filmado nos Andes peruanos, entre comunidades mineiras que vivem acima dos cinco mil metros de altitude, “Eldorado XXI” sugere um olhar etnográfico com assinatura autoral sobre gentes que ali lutam pela sobrevivência.

Estamos no teto do mundo… A cerca de 5.500 metros de altitude, nos Andes peruanos, a comunidade que mais perto do céu vive um dia a dia que parece coisa de inferno. É entre os lugares as gentes de La Rinconada e de Cerro Lunar, vagueando o olhar da câmara entre uma noção de tempo que tanto vive a monotonia da passagem de tantas horas iguais a si mesmas como estremece depois com histórias de corrupção e morte, que Salomé Lamas nos transporta a um eldorado que tem minas de ouro no centro da ação, mas sem o calor, a luz ou o sentido de aventura das histórias que tantas vezes associamos a esta palavra entre memórias do cinema. Ali há frio, desconforto, isolamento, silêncios, e rotinas de trabalho de fazer o mais programado dos robots parecer um festim de surpresas.

Com valor etnográfico pela forma como busca retratar o real, guardando muitas vezes o texto dentro do contexto (e há que seguir com atenção os depoimentos do coro de vozes para, com as imagens, construir o retrato que temos pela frente), Eldorado XXI é também um desafio para o espectador. Pode não ser fácil vencer os 57 minutos do plano fixo inicial na rampa de acesso à mina que, se por um lado nos deixa bem dentro daquele vaivém em sobe e desce de quem trabalha mesmo com a escuridão a chegar, por outro serve de palco às histórias de vida contadas por quem ali faz o seu quotidiano. É preciso deixar o ritmo (mais acelerado) dos nossos dias na porta da sala… E, tal como o corpo de ajusta à respiração nas grandes altitudes, também a atenção pede uma habituação.

Uma vez aceite o convite à continuação da descoberta, avançamos entre mais olhares pelo espaço em volta daquela povoação que mais parece uma favela feita de gélidos igloos de chapa metálica, reparando agora em outros detalhes da paisagem, dos corpos, e voltando a escutar histórias.

Eldorado XXI não pretende ser um documentário explicativo (e é bem verdade que há diferenças entre o pensamento sobre o que pode ser o cinema documental para o grande ecrã e o criado para televisão). Esta é uma experiência que busca por um lado a fidelidade de quem ali esteve na construção do olhar sobre o que viu e sentiu. E que ao mesmo tempo procura vincar uma marca de autor. A quantidade de prémios que obteve deixa claro que o filme foi bem sucedido em ambos os planos.

“Eldorado XXI” de Salomé Lamas está em exibição no Cinema Ideal, em Lisboa

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