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Futuros imperfeitos: a ficção científica na Berlinale

Texto: NUNO GALOPIM

O ciclo retrospetivo proposto por esta edição da Berlinale recorda alguns grandes clássicos da história do cinema de ficção científica, recuando mesmo aos tempos do mudo.

A ficção científica usa muitas vezes outros tempos, outros lugares, outras gentes e outras tecnologias para, no fundo, falar de nós mesmos, aqui, na nossa época (ou contemplando o futuro que nos espera ou refletindo sobre o nosso passado). Pelo que, ao levar os “futuros imperfeitos” ao grande ecrã, a retrospetiva central desta edição da Berlinale não podia ser melhor sugestão num tempo em que tudo parece estar a mudar. E não necessariamente para melhor.

Ao longo desta edição do festival de Berlim vão passar por este ciclo 27 filmes clássicos do cinema de ficção científica, uns mais célebres, outros verdadeiras peças de culto a (re)descobrir. De THX1138 de George Lucas ao 1984 de Michael Anderson, de Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner – Perigo Iminente, ambos de Ridley Scott, a Dark City de Alex Proyas, não faltam bons motivos para (re)encontros na sala escura…

Recordemos aqui alguns deles…

“Soylent Green”
de Richard Fleischer (1973)

Estreado em Portugal como à Beira do Fim, Soylent Green (1973) é uma das mais interessantes visões distópicas do século XXI retratadas no cinema do século XX. Algo inspirado pelo romance Make Room! Make Room!, de Harry Harrison, o filme de Richard Fleischer, protagonziado por Charlton Heston e pelo veterano Edward G. Robsinon, revela um mundo atormentado pelo excesso de população onde os alimentos naturais são apenas petisco acessível à carteira dos muitos ricos. O grosso da população alimenta-se de comida processada, a mais recente das propostas chegadas ao mercado, o soylent green, sendo apresentada como fabricada a partir de plâncton.

Com ação projetada no ano 2020, o filme coloca-nos numa Nova Iorque sobrelotada (com cerca de 40 milhões de habitantes), num tempo em que o aquecimento global produziu já efeitos evidentes sobre o clima. É numa cidade que vê muitos dos seus habitantes na condição de sem-abrigo que encontramos um detetive (interpretado por Heston) que tem a seu cargo o caso do assassinato de uma figura da elite, cuja investigação o leva às entranhas da companhia que produz as pastilhas verdes de “soylent green”, acabando por chegar a uma descoberta aterradora sobre o que na verdade está na sua raiz.

Richard Fleisher (1916-2006) foi um nome com importante obra na história do cinema fantástico tendo assinado, além de Soylent Green, filmes como 20.000 Léguas Submarinas (1954) ou Fantastic Voyage (1964).

“Eolomea”
de Herrmann Zschoche (1972)

Os astronautas têm meias com buracos… Esta é uma das mais inusitadas entre as imagens que encontramos em Eolomea, co-produção entre a RDA, URSS e Bulgária que representa um dos exemplos do cinema de ficção científica do bloco de leste que encontramos no ciclo que está a ser apresentado na Berlinale. Filme de 1972 é contemporâneo de um tempo de presença já recorrente da Nasa na Lua e lança os objetivos bem mais além, apresentando uma etapa no desenvolvimento tecnológico que inclui a presença de bases noutros pontos do cosmos e hábitos de navegação interplanetária transformados em rotina.

Eolomea apresenta a história de uma série de misteriosos desaparecimentos numa região do cosmos na qual há uma estação espacial que deixou de dar sinais de vida. Por motivos de segurança os voos a essa região do cosmos são suspensos. Mas contra a ordem há quem ali se dirija… Até porque há um sinal a ser recebido que sugere a possibilidade de existência de um planeta.

Há elementos interessantes que marcam a presença de marcas uma ética “de leste” no filme, da sugestão de que as decisões são avaliadas e votadas por um comité à presença de uma figura feminina na liderança (contrastando aí com as representações de género mais habituais na ficção científica ocidental). Os buracos nas meias podem ter um valor de comic relief, mas são também um sinal do anti-glamour com que se sugere a visão deste futuro dominado por uma arquitetura industrial que valoriza a presença de chapas de metal sempre que possível.

“Encontros Imediatos de Terceiro Grau”
de Steven Spielberg (1977)

O ano de 1977 representa um ponto de viragem na história do cinema de ficção científica. Por um lado acolhe a estreia de A Guerra das Estrelas, de George Lucas. Por outro assinala também a chegada aos grandes ecrãs de Encontros Imediatos de Terceiro Grau, filme de Steven Spielberg que, depois de Tubarão (1975) o estabelece como uma das novas grandes forças do cinema norte-americano. O filme materializou o que era um projeto já com alguns anos do realizador, que queria experimentar o espaço da ficção científica e surge numa época em que, talvez como consequência de uma cultura gerada pelos filmes de série B (e menor) dos anos 50 e 60, o interesse pelos “ovnis” (objetos voadores não indentificados) gerava dúvidas generalizadas sobre se estaríamos ou não sós no universo. O próprio título refere um conceito levantado por “ovniologistas”: um encontro imediato é aquele em que existe, além do contacto visual com um alienígena, um momento de comunicação.

O filme começa por apresentar uma série de situações em locais bem distintos do globo. Todas elas resultam de fenómenos aparentemente estranhos, algo acabando por ligá-los… Uma equipa de cientistas recolhe e estuda os dados, levantando hipóteses. Mas Spielberg opta por seguir antes duas famílias, cada qual com uma história pessoal de relacionamento com fenómenos invulgares.

Visualmente deslumbrante – fruto de mais um trabalho de efeitos visuais de Douglas Trumbull, o mesmo que esteve com Kubrick em 2001: Odisseia no Espaço – e inteligentemente centrado na exploração das personagens (uma delas interpretada por François Truffaut) o filme junta ainda um elemento adicional determinante: a música. E não apenas pela banda sonora criada por John Williams, já que uma das formas de comunicação que permite a ligação entre os humanos e os alienígenas que nos visitam é mesmo a música.

“Blade Runner”
de Ridey Scott (1982)

O ponto de partida foi um conto de Philip K. Dick, no qual o escritor procurara, acima de tudo, refletir sobre o que é, afinal, um ser humano. Aqui se conta a história de um tempo em que o homem criou réplicas de si mesmo para que estas executassem os seus trabalhos, sobretudo em colónias planetárias exteriores. Seres inteligentes, que nascem contudo com um tempo de vida finito e cuja convivência com os espaços reservados aos humanos não é permitida, havendo uma força policial que se dedica a localizar os que tentam fugir.

O que fez de Blade Runner um clássico maior do cinema de ficção científica não foi apenas o fulgor da narrativa (que muito deve à visão de Philip K. Dick) ou os trabalhos de composição das personagens. A banda sonora, de Vangelis, sugere um futuro assombrado. Mas abre portas ao passado… E a criação da visão desta Los Angeles do futuro sublinha a mesma ideia. A cidade é lúgubre e chuvosa, eternamente movimentada mas no fundo profundamente solitária. Os edifícios evocam formas e tons que convocam memórias do film noir. Um filme projetado quarenta anos no futuro feito ao estilo de há quarenta anos atrás, como descreveu Scott Bukatman num livro sobre este filme. A visão de Ridley Scott, sobretudo pelo seu ritmo lento e caráter ambíguo na forma de apresentar o desfecho, gerou algum desconforto no estúdio e gerou a criação de uma versão “alternativa” para a estreia comercial.

“Himmelskibet”
também conhecido como “A Trip to Mars”,
de Holger Madsen (Dinamarca, 1918)

Um dos mais importantes pioneiros do cinema de ficção científica é uma longa-metragem que ajuda a estabelecer uma ponte entre as visões do fantástico ensaiadas nos filmes de Georges Méliès com as narrativas mais elaboradas, com produções de maior fôlego, que em breve surgiriam em filmes como Aelita (1924), de Yakov Protazanov, ou Metropolis (1927), de Fritz Lang.

O filme tem como protagonista um oficial da marinha com feitos conquistados na aviação e que sonha em ir mais longe. A Marte, pois… Durante dois anos acompanha a construção de uma nave e vai observando o planeta vizinho. Quando lá chegam encontram uma utopia pastoral. Marte é habitado por seres de aparência humana e que trajam ao jeito da antiguidade clássica. A ideia de ver morta num encontro com comes e bebes intriga um marciano e, ao puxar da pistola e mostrar ali mesmo como se mata uma ave, gera-se um incidente diplomático, cuja escalada de tensões acaba com uma granada lançada sobre os marcianos e a morte de um deles (algo que ali não acontecia há milhares de anos).

A evolução da trama revela aos visitantes terráqueos um passado de guerras em Marte que a história do planeta com o tempo erradicou. “A maldição do sangue não pode regressar a um planeta de paz”, dizem-lhes. E abre-se o caminho não só ao arrependimento, mas à descoberta de um modelo de sociedade em que tudo pode ser belo e limpo, puro e inocente… Uma montagem em paralelo entre o idílio marciano e a realidade terrestre sublinha as diferenças.

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