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Uma banda inspirada por “Blade Runner”

Texto: NUNO GALOPIM

Num momento em que “Blade Runner” passa em Berlim e uma sequela está prestes a chegar recordemos aqui a música dos Tyrrell Corporation, uma dupla que editou o seu álbum de estreia há 25 anos. Sim, o nome da banda foi inspirado pelo filme.

A revolução criada pela música de dança em finais dos anos 80 teve profundo impacte em várias frentes. E na alvorada dos noventas vários híbridos ganharam forma, ensaiando e cruzando linguagens, entre as consequências diretas dos acontecimentos nos universos da house e periferias e escolas mais “clássicas”, da pop ao rhythm’n’blues (e por aí adiante). Hoje esquecidos, os Tyrrel Corporation brilharam por momentos, sobretudo ao som do single The Bottle (de 1992). Mas vale a pena, mesmo não sendo um daqueles monumentos mais inesquecíveis do seu tempo, voltar a focar algumas atenções sobre North East of Eden, o primeiro dos seus dois álbuns, onde canções de alma pop e com evidente interesse pelos caminhos da música soul nasciam sob arquitetura rítmica de raiz colhida na house music.

Eram uma dupla. Joe Watson cantava e assegurava parte da composição. Tony Barry escrevia as letras e era o principal teclista (na verdade ambos tocavam teclados). Oriundos de Redcar (no nordeste inglês), mudaram-se, um de cada vez, para Londres e, com os mais variados e nada musicais empregos, financiaram tempo de estúdio para gravar a sua música. Estrearam-se em single com Six o’Clock. Cativam atenções da Cooltempo e avançam para a criação de North East of Eden, um álbum que não esconde a sua fisionomia pop e um desenho de linhas diretamente assimiladas da cultura house, apesar de transportar genéticas que ora passam por memórias que vão da philly soul ao disco sound.

The Bottle, a faixa central do alinhamento, é um parente próximo do que os keyboard wizzards de inícios dos noventas (como Adamski) vinham a ensaiar, contando com o valor acrescentado de uma voz de inspiração soul (dispensando-se todavia os solos de harmónica e guitarra que habitam a reta final da canção). O alinhamento avança depois por vários caminhos, da house à la Mr Fingers (com presença destacada do piano) cruzada com disco (de tempero philly soul) em Six 0’Clock a uma revisão, na era house de memórias R&B dos sessentas, em Walking with a Stranger, não esquecendo as mais diretas consequências do “efeito” Soul II Soul no panorama brit de então em Ballad of British Justice e Lies Before Breakfast ou uma mais colorida expressão pop de heranças soul e disco em Grapes of Wrath.

Cantavam a noite e os copos, mas também o mundo ao seu redor, não deixando de comentar o país em pontuais afloramentos de consciência política que assim partilhava espaço com um terreno de festa e libertação. Bem mais interessante do que o segundo – e quase ignorado Play for Today, de 1994 –, o álbum de estreia dos Tyrrel Corporation (sim, o nome é diretamente inspirado em Blade Runner) faz agora 25 anos que foi editado. Sem expectativas maiores, vale a pena (pelo menos) conhece-lo.

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