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Uma grande comédia triste

Texto: DIOGO SENO

Nomeado para os Óscares na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, “Toni Erdmann” é o terceiro filme da realizadora alemã Maren Ade. Face a uma avalanche de tristeza, a resposta chega ali com o humor possível.

Já passada a primeira metade, o protagonista do brilhante e original terceiro filme da realizadora alemã Maren Ade diz a um pobre camponês que lhe emprestou casa de banho e papel higiénico que não perca o bom humor. É o programa deste corajoso filme: face a uma avalanche de tristeza, responder com o humor possível, muitas vezes de forma despudorada. É a sensibilidade de Ade, a perceber que por baixo de toda a comédia existe um substrato de dor (e drama), e é o que dá a esta história de um pai e de uma filha desavindos a gravidade, o viço e a beleza que a distinguem.

Um professor de música de liceu, Winfried já quase não tem contacto com a sua filha Ines, que vive em Bucareste, onde tenta construir uma carreira de sucesso enquanto consultora. Muitas coisas os distinguem e separam: onde o pai é brincalhão e espontâneo, a filha é fria e rígida. São gerações (e géneros) diferentes e, no mundo competitivo e engravatado onde trabalha, Ines tem de ser dura, para ser levada a sério. Tentando uma reaproximação, Winfried visita-a em Bucareste, onde, brincadeira atrás de brincadeira, vai provocar a caos na sua vida organizada. O reencontro corre mal e Winfried parte. Mas passado pouco tempo regressa, encarnando um alter-ego, de peruca e tudo: Toni Erdmann, consultor e coach. O cenário em que ele irrompe é o de um presente bastante realista: o da Europa dos negócios que só olham ao lucro, inclemente às diferenças e alheada dos modos de vida de grande parte das populações (e que engraçada é a forma como o filme brinca com o jargão deste glacial mundo corporativo).

Não conhecemos o passado de Winfried e a história da sua relação com Ines, mas sentimos a sua necessidade de compreender e aproximar-se da filha. As razões dos comportamentos de cada um são equitativamente exploradas e é no confronto destes dois “lados” que a narrativa vai sendo arquitectada.

Ade filma as cenas para nelas coabitar o humor ferido e a ternura, a sátira e a crítica social. Daí que a duração, tanto quanto a construção, seja determinante no sucesso do filme. Prolongando-se para lá do tempo expectável de uma piada, o desconforto instala-se, e a questão de se estamos a assistir a um drama ou a uma comédia ressoa. E com a chegada de Toni Erdmann, uma personagem maior do que a vida, este efeito aumenta. Na ligeireza com que encara os problemas, é uma grande personagem cómica na linhagem de outras criadas pelo cinema e pela literatura, desarmando com simplicidade as hipocrisias que o rodeiam. A sua presença questiona não só a conduta profissional da filha, mas confronta-a com a questão que o pai Winfried lhe tinha colocado no primeiro reencontro: “És feliz?”

Mas a realizadora não se fica pelos potenciais efeitos cómicos simplistas expectáveis do clown. Tanto como as personagens têm liberdade para habitar o espaço e uma complexa variedade de emoções, assim a narrativa tem espaço para se expandir, muitas vezes para lugares inesperados. Toni Erdmann é uma figura de uma candura infantil e o ligeiro arregaçar da dentadura que lhe fica como característica vem com uma sabedoria que a brincadeira facilmente dissimula. Ines censura os comportamentos do pai mas posteriormente adopta-os à sua maneira, utilizando-os a favor da sua condição. O trabalho dos actores é admirável: pai e filha desafiam-se, estão em constante confronto, e Peter Simonischek e Sandra Huller dão vida a todas estas dimensões e complexidades com nuance e emoção.

Tocando as diferentes notas que habitualmente estas narrativas tocam, Toni Erdmann tem no entanto subtileza no retrato, e consegue um equilíbrio justo entre enternecimento e desencanto, equilíbrio que se mantém até ao final, onde a um abraço em câmara lenta a um monstro felpudo (capaz de figurar na mais doce fábula infantil) se segue a mágoa de um funeral. Nem Ines nem o pai têm respostas. O seu reencontro, apesar dos resultados hilariantes e comoventes para todos os envolvidos (e sobretudo para o espectador) não traz mudanças substanciais à sua vida, e a(s) catarse(s) não se arruma(m) à volta de uma banal afirmação de optimismo. Mas estão lá uma tímida esperança, e o reconhecimento de uma tristeza incontornável, e uma aceitação estóica dessa condição.

“Toni Erdmann”, de Maren Adem, com Sandra Huller, Peter Simonischek, Michael Wittenborn, Thomas Loibl, Trystan Putter e Indrid Bisuer, está em exibição com distribuição pela Alambique Filmes

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