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O regresso de um estranho

Texto: NUNO CARVALHO

“Paris, Texas”, o filme mais amado de Wim Wenders, que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes, está em reposição no Espaço Nimas numa cópia restaurada

Paris, Texas (1984) é certamente o filme de Wim Wenders mais amado pelo público, mais aclamado pela crítica e um dos mais premiados (valeu-lhe a sua única Palma de Ouro em Cannes). Ao contrário, por exemplo, de As Asas do Desejo (1987), muito belo do ponto de vista formal mas demasiado literário e com uma certa pose autoral que afinal não se revela assim tão original, Paris, Texas é um filme de uma simplicidade tocante (o que, convenhamos, é sempre o mais difícil de conseguir). É um filme com coração mas nunca sentimentalista, feito com inteligência narrativa, estética e humana mas sem nunca ser cerebral. Enfim, e para celebrarmos o direito ao lugar-comum, é uma “carta de amor à América”, sobretudo a uma América idealizada, romanesca e cinematográfica.

O enredo do filme também é simples e pode condensar-se numa frase (aliás, todas as verdadeiras boas histórias podem resumir-se numa sinopse curta – mas é claro que isso depende muito do poder de concisão de quem a faz; quando as sinopses andam às voltas para encontrar o ponto de um filme e parecem não encontrá-lo ou estão malfeitas ou é a história do filme que não está bem contada…) Travis Henderson (Harry Dean Stanton) é encontrado a vaguear pelo deserto, aparentemente amnésico e afásico, é recolhido pelo irmão (Dean Stockwell), reencontra na casa deste em Los Angeles o filho, Hunter (Hunter Carson), de 7 anos, que durante os quatro anos de ausência do pai ficou à guarda do irmão e da ex-cunhada, e parte com ele numa viagem em busca da sua mãe, Jane (Nastassja Kinski).

Paris, Texas é um cruzamento de road movie com drama familiar, que, apesar de ter uma resolução narrativa minimamente libertadora, está bem longe de ser redentor. A verdade é que o casal outrora formado por Jane e Travis, cuja harmonia familiar é evocada através de um filme caseiro, talvez nunca mais volte a existir (ambos casaram-se numa fase da vida em que decerto eram ainda demasiado imaturos para resistirem como família, e talvez também fossem assimétricos em demasia para que o amor resultasse). A esta mescla junta-se ainda a beleza das paisagens (nomeadamente o deserto da região sudoeste, o vale de San Fernando e os canyons de Houston), robustecida pelos acordes minimalistas da banda sonora de Ry Cooder e pela direção de fotografia de Robby Müller (habitual colaborador de Wim Wenders e responsável, por exemplo, pela imagem de filmes como Homem Morto, de Jim Jarmusch, ou Ondas de Paixão, de Lars von Trier). O argumento é do ator e dramaturgo americano Sam Shepard.

“Paris, Texas”, de Wim Wenders, com Harry Dean Stanton, Nastassja Kinski, Dean Stockwell, Aurore Clement, Hunter Carson, está em exibição no Espaço Nimas

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