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Bruno Pernadas, Marco Franco e a excelência da aspiração

Texto: PEDRO MIRANDA

Entre a Culturgest e o Panteão Nacional o Festival Recaldo apresentou-se pela décima vez como o compêndio do que de mais inovador se fez por terras lusas ao longo do ano anterior. Numa das noites partilharam o palco Marco Franco e o quarteto de Bruno Pernadas.

Marco Franco (foto de Vera Marmelo)

Que bom é ver as excentricidades da música expostas, por seu mérito, pela luz da ribalta. No espaço de duas semanas, e aproveitando a relativamente recente vaga de experimentalismo de que tem usufruido a música portuguesa, o Festival Recaldo apresentou-se pela décima vez como o compêndio do que de mais inovador se fez por terras lusas ao longo do ano anterior. Um conceito discutível, é certo, que merecerá o repúdio dos que se apegam aos formatos mais convencionais da canção pop, mas que promete igualmente encontrar apreço naqueles que veem no desafio parte integrante do futuro da música.

E não é como se esta fosse uma característica de difícil descortinação – bastaria que, para tanto, se consultasse a inconspícua lista de nomes que se comprometiam com este idóneo rescaldo de 2016. E por lá, há de tudo: jazz experimental, noise punk, electrónica abstracta, banjos e mesmo um espectáculo de trompete a solo na humilde sala que é o Panteão Nacional. Mas ao que importa: o primeiro dia de comemorações do 2016-para-além-da-rádio passou pelo pequeno auditório da Culturgest, casa que acolheu de braços abertos a grande maioria dos concertos do evento, e teve como protagonistas e anfitriões os invulgares talentos de Marco Franco (Tim Tim por Tim Tum, Mikado Lab, Pocketbook of Lightning) ao piano e do quarteto de jazz liderado por Bruno Pernadas.

A sala, em iguais partes pequena, parcamente iluminada e inegavelmente acolhedora, proporcionava as condições perfeitas para apreciar o primeiro espectáculo da noite. Sozinho, sentado ao piano de cauda e totalmente desprovido do aspecto convencional de pianista (sapatilhas de skate, calças justas, casaco colorido e padronizado, gorro), Marco Franco, mais conhecido pelas suas virtudes na percussão, dava uma singela performance de beleza comovente. O seu dedilhar reproduzia o frágil tom de voz com que se dirigia esporadicamente à plateia para agradecer, com sincera humildade, os aplausos que ia recebendo: a calma e a delicadeza, registo do qual nunca se afastou, emanava dos seus dedos à medida que executava os temas de Mudra que, munidos de uma certa estranheza melódica (ora dissonante, ora ritmicamente complexa), assumiam-se sempre como bem conseguidos – com particular atenção para Serpents and Cascades e Emnut Durra. Um curto desempenho de estética refinada, e valor acrescentado por preconizar o excelente esforço que se lhe seguia.

Arriscar-me-ia a apostar que, embora relativamente mais recente na memória musical portuguesa, o nome de Bruno Pernadas já estará melhor estabelecido na psique nacional. Até por ter sido escalado como o grande nome da noite, e pelo pequeno facto de ter lançado, em Setembro, duas das mais extravagantes aventuras pelo mundo do jazz moderno (mais aqui). Mais: prometia apresentar-se no seu formato menos usual, que dispensa guitarras acústicas e sintetizadores em favor de um line up de jazz mais clássico – guitarra, contrabaixo, bateria e saxofone – como ditam os sons do seu terceiro disco, “Worst Summer Ever”. Antecipava-se, assim, um espectáculo de titânicas proporções, feito não menos valoroso por problemas técnicos que forçaram um recomeço da apresentação (“Vou dizer a marca do pedal para não o comprarem!”, brincou Pernadas em jeito envergonhado).

Falamos da introdutora This is not a Folk Song, um belíssimo exercício em acordes dissonantes dispostos em formato pausa-avanço que, na Culturgest, se estendeu para lá da marca dos dez minutos e encapsulou em si todas as qualidades que o quarteto exibiria naquela noite: a extrema sincronia e compreensão mútua na execução das pautas, a habilidade em fazer crescer frases melódicas e conferir-lhes a emoção que pedem, a afincada destreza com que manejavam as dinâmicas silêncio/ruído e rapidez/lentidão em palco, tudo gritava maturidade, proficiência e excelência no espectáculo de Bruno Pernadas. Um que, segundo ele próprio confessou aos mais distraídos, havia sido especialmente pensado para o tom experimental do festival em questão, com versões modificadas de Granado Wire, Intro e Worst Summer Ever, prolongados interlúdios de bateria e contrabaixo e mesmo uma canção não editada, Something Spiritual.

Em todas demonstrava o porquê de ter sido considerado para fazer parte do festival. Em meio a fraseados complexos, feedback distorcido e variados samples de frases em repetição contínua, Bruno Pernadas brilhou ao comando do palco da Culturgest como muitos apenas sonhariam em fazer. Que, à medida que se impõe como um dos grandes nomes a conhecer na música portuguesa, continue a exceder espectativas e testar os limites da experimentação, e que o Festival Silêncio possa continuar a exibi-las em destaque por muitos anos.

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