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Black Bombaim + Killimanjaro: a psicose que cá se vive

Texto: PEDRO MIRANDA

A aposta em sonoridades mais pesadas pode ser um caminho subaproveitado para as casas que as acolhem. No sábado o Musicbox convidou Black Bombaim e Killimanjaro, dois nomes que se têm imposto como referências do ‘stoner’ nacional.

Já não será segredo por esta altura que os sons mais abrasivos são considerados, de maneira geral, um mau investimento. Não possuem o imediatismo de tendências mais circuladas, têm a menos-valia de exigirem um bom par de colunas e local onde se faça barulho à vontade, e parece ser consensual que, consequentemente, atraem comparativamente menos pessoas a concertos ao vivo – um estilo de nicho, se me permitem. Basta ver-se, por exemplo, alguns dos festivais nacionais dedicados exclusivamente às sonoridades do heavy metal, psych rock e stoner – Vagos Open Air, Reverence Valada, Sonic Blast Moledo, Lisbon Psych Fest, ou o recentemente extinto Sound Bay Fest – nenhum dos quais movimenta, no seu limite superior, mais do que alguns milhares de pessoas, ainda que, por vezes, pesem a seu favor artistas de elevado renome internacional.

Aos amantes do metal, passando a grosseira simplificação, resta radicarem-se nas pequenas e médias salas de concertos que ainda apostam na música à margem do convencional, e que parecem ser cada vez menos. Salas essas que os fãs frequentemente enchem, sem dúvida, fiéis e dedicados como os conhecemos, mas que saberão a pouco aos olhos de quem vê no headbang um estilo de vida. No sábado passado, o Musicbox viveu a pele de uma dessas casas ao convidar Black Bombaim e Killimanjaro, dois nomes que se têm imposto como referências do stoner nacional ao lado de Asimov, The Black Wizards ou Stone Dead – uma pequena dose do que se encontraria em alguns dos festivais acima mencionados, e motivo acrescentado para que se revejam prioridades quanto à promoção do stoner rock.

Killimanjaro já estavam em palco mal a sala se compunha, e com o habitual figurino, que pouco lembraria o género, rapidamente começaram a encetar a estirpe de garage que grangeou o reconhecimento do trio de Barcelos. Apostavam nas mesmas armas que sempre tiveram a seu favor: velocidade galopante, distorção ameaçadora e os vocais bélicos do frontman José Gomes. Infelizmente, não chegou para elevar uma performance que, não sendo por qualquer parâmetro má, falhou em fazer justiça ao que os Killimanjaro já se mostraram capazes de fazer.

A agressividade a que tão frequentemente se encostavam era frustrada por um som deficiente e uma certa falta de pertença, talvez decorrente da natureza da sala. E a rapidez estonteante, se bem que pontuada por um ou outro tropeção, era exagerada ao ponto de se parecerem menos com Graveyard e mais com Metallica – não os inventivos, desafiantes, ritmicamente complexos Metallica de outrora, mas aqueles já fora do prazo de validade que encontramos nos dias de hoje. Num desempenho que acabou por evidenciar mais defeitos que qualidades, ficou o mais-ou-menos na esperança de que o melhor venha numa próxima.

O objecto de desejo era sem dúvida, no entanto, Black Bombaim. Não só por cá estarem há mais tempo, ou pelo distinguido percurso que traçaram (onde se encontra, por exemplo, o celebrado Far Out, de 2014), mas mesmo pela relativa dificuldade, estando considerados todos os factores, que é ver o trio da Lovers & Lollypops ao vivo em Lisboa – a última vez havia sido no ano passado, acompanhados do aclamado saxofonista Peter Brotzmann, aquando do lançamento do tremendo disco que assinam em conjunto.

E o ambiente do Musicbox mudaria de tom, de facto, durante a apresentação dos Black Bombaim. Os parcos espaços que sobravam eram rapidamente preenchidos por fãs, presumivelmente com fome do peso que o grupo anterior havia fracassado em transmitir, e o produto em exposição era naturalmente diferente: a aproximação mais imediata, arrebatadora e com pouco espaço para rodeios dos Killimanjaro era substituída por uma refinada e paciente progressão, geralmente constituída à volta de frases únicas de baixo repetidas por vários minutos. Desta forma, as tentativas de empurrões que marcavam as filas da frente deram lugar a uma apreciação bastante mais interiorizada, o que nem por isso diminuiu o aproveitamento da música que era tocada.

Afinal, era sem pressas que os Black Bombaim construíam as suas paisagens sonoras, onde não raro o baixo repetitivo encontrava lugar perfeito no centro à medida que as batidas escalavam, acompanhadas pelas divagações que iam surgindo à guitarra – uma belíssima fusão da massividade do stoner com a expressividade do post-rock. E estes movimentos intensamente hipnotizantes (apenas quatro constituíram todo o concerto, dois deles perfazendo o último esforço em nome próprio, Far Out) eram montados com tal elegância e destreza, tamanha atenção ao detalhe e com vista a um resultado final de tal forma holístico, que não foi difícil encará-los como parte integrante do que de melhor se faz em matéria destes sons em Portugal, claramente inspirados por nomes de referência no género: Sleep, Yawning Man, Kyuss…

As ideias trazidas à mesa podiam por vezes parecer insuficientes, ocasionalmente havendo algum excesso de repetição e algumas frases algo desinteressantes, mas numa performance a que de resto não se apontam falhas não deixou de se revelar a mestria com que os Black Bombaim cavalgam as suas malhas, alimentam-nas até ao expoente máximo para depois delas se despedirem com igual classe. Promotores da música e dos músicos que por aí andem: o psych e o stoner ainda por cá estão, e bem de saúde. E urge que se aposte neles.

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