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O que viram os meus olhos

Texto: NUNO CARVALHO

No seu jeito de assustadora boneca desalmada, a protagonista de “Os Olhos da Minha Mãe” é uma espécie de “gone girl” que parece um estranho cruzamento entre a Rooney Mara de “Efeitos Secundários” e a Rosamund Pike de “Em Parte Incerta”.

À primeira vista, Os Olhos da Minha Mãe parece apenas um superficial exercício estético, com enquadramentos muito belos (ainda que de uma beleza macabra e gótica), uma cuidada fotografia a preto e branco e elipses bem conseguidas. Mas, na verdade, a primeira longa-metragem do cineasta americano Nicolas Pesce tem um pouco mais além disso. O facto é que há nela uma possibilidade de leitura metafórica para lá do aparente carácter unidimensional das imagens estilizadas e às vezes até narrativamente esquemáticas. De resto, um certo esquematismo conceptual numa obra não implica que esta seja vazia ou falhada (pode ser intencional e configurar mesmo um estilo de narrativa – e aqui podemos dar como um exemplo entre muitos possíveis a ficção conceptual de um J.G. Ballard, nomeadamente em romances como Arranha-Céus ou Crash).

Esta história de uma rapariga que cresce órfã e profundamente traumatizada depois de ver a mãe, uma cirurgiã oftalmologista que em tempos viveu em Portugal, ser assassinada por um intruso psicótico na quinta isolada onde vivem é também um conto gótico e de horror psicológico sobre a impossibilidade de relacionamento interpessoal e a forma como os traumas do passado podem deformar e destruir um ser humano ao ponto de o tornar completamente incapaz de amar e de ser amado, por se afigurar repulsivo e hediondo para os outros, e a solidão extrema que essa condição comporta. Mas também pode ser uma parábola sobre o vazio interior da psicose ou sobre uma forma malograda e doentia de amar – através da figura do bebé que Francisca (a protagonista interpretada pela portuguesa Kika Magalhães) rapta para criar com o seu modo desesperado e tresloucado de “amar”. No seu jeito de assustadora boneca desalmada, Francisca é uma espécie de “gone girl” (no sentido de “passada” da cabeça e semi-viva) que de certa maneira parece um pouco um estranho cruzamento entre a Rooney Mara de Efeitos Secundários e a Rosamund Pike de Em Parte Incerta.

Produzido por Antonio Campos (Afterschool/Christine), Sean Durkin (Martha Marcy May Marlene) e Josh Mond (James White), trio da Borderline Films, Os Olhos da Minha Mãe é um filme que privilegia a criação de atmosferas e a beleza na composição das imagens sobre a estrita lógica e coerência narrativas, bem à imagem de uma das principais influências assumidas por Pesce – a de David Lynch –, que também reconhece em nomes como Hitchcock, Takashi Miike, Park Chan-wook ou William Castle outras fontes de inspiração. Que o filme possa ser uma homenagem cinéfila a estas referências em vez de uma obra autoral muito original e que viesse trazer ao mundo a revolução artística, eis o que só abona a favor da sensatez, modéstia e ludismo do realizador estreante. Os Olhos da Minha Mãe não é um típico filme de terror, antes uma mescla de géneros, na qual cabe até a melancolia do fado de Amália Rodrigues…

“Os Olhos da Minha Mãe”, de Nicolas Pesce, com Kika Magalhães, Diana Agostini, Paul Nazak e Will Brill, está em exibição numa distribuição pela Cinema Bold

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