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A história de uma família que é também a história de um país

Texto: HELENA BENTO

Deborah Pearson, escritora, performer e dramaturgista que nasceu no Canadá e vive no Reino Unido, regressou esta semana à Culturgest, em Lisboa, para apresentar “History History History”, um documentário ao vivo sobre um avô que quis ser uma estrela de cinema e sobre a história de um país, a Hungria, que se revoltou contra o domínio soviético.

Deborah Pearson queria contar a “verdade” sobre a sua família e sobre aquele avô que só vira três vezes na vida e que conhecia de uma comédia húngara sobre futebol que deveria ter estreado em 1956, não fora a revolução popular contra a URSS que transformou o Cinema Corvin, em Budapeste, onde o filme iria ser exibido, num campo de batalha, e obrigou o avô a fugir do país. Deborah Pearson queria contar a “verdade”, a história “objetivamente verdadeira” sobre aquele homem que deixara a família sozinha em Toronto para voltar para a Hungria, depois de lhe prometerem que poderia voltar a representar. Percebeu depois, porém, que não iria conseguir fazer isso – a documentação era escassa, assim como eram escassas as pessoas que o conheceram e que ainda estavam vivas, além de que muitas delas sofriam de demência. Falou então com a mãe e a avó – algo que tinha evitado desde o início, por se tratar de pessoas demasiado próximas do avô e por isso com memórias “defeituosas” – e ouviu os seus testemunhos. Falou também com o argumentista da tal comédia húngara, exilado em Paris, e com pessoas ligadas ao filme. History History History, documentário ao vivo, é o resultado dessa tentativa de reconstrução da história do avô, cuja história coincide e se confunde, em grande medida, com a história da Hungria sob o domínio da União Soviética, entre 1944 e 1991.

O espetáculo esteve esta semana no palco da Culturgest, em Lisboa, numa sessão dupla (quarta e quinta-feira). Sozinha sentada numa secretária em frente ao palco, Deborah Pearson vai desfiando as memórias e factos que compõem a história da sua família, desde que os avós fugiram de Budapeste, após a revolução de 1956 que levou milhares de pessoas às ruas em protestos contra as políticas impostas pelo governo da República Popular da Hungria e pela antiga União Soviética, até se instalaram em Toronto, no Canadá, e o avô ser seduzido, ao fim de algum tempo, a voltar para a Hungria, com a promessa de que poderia voltar a representar. Deixou a mulher e os filhos e partiu. De volta ao seu país não encontrou, porém, o que estava à espera, e a promessa que lhe haviam feito relevou-se, afinal, uma ilusão. Ainda assim permaneceu no país a lutar pelo sonho de ser uma estrela de cinema com papéis secundários em filmes irrelevantes. Sozinha com os filhos numa cidade que se revelou pouco acolhedora e de difícil integração, Toronto, a avó de Pearson voltaria a casar anos mais tarde com um homem da comunidade da diáspora húngara, “o avô húngaro”, que não era o avô biológico, mas a quem Pearson chamava “Papa”.

Enquanto Deborah Pearson fala virada o público, no ecrã atrás de si está a ser projetada a tal comédia de futebol que tornou o seu avô conhecido, traduzida livremente e com muito humor pela artista canadiana. Foi esse filme, aliás, que em criança viu repetidas vezes em VHS acompanhada pela sua mãe, que lhe traduziu as falas em húngaro, língua que nunca aprendeu, que motivou Pearson a querer saber mais sobre o avô materno desconhecido. Além da voz da mãe, a artista canadiana traz também as memórias da avó para dentro do documentário ao vivo. É à avó que cabe, aliás, contar os detalhes mais íntimos sobre o avô e a relação entre os dois, de tal modo que antes da estreia do espetáculo na Noruega, em janeiro de 2016, pediu-lhe parar tirar as entrevistas dela porque ao fim de alguns dias a refletir sobre a peça sentia-se emotiva e exposta. A mãe interveio e a avó acabou por mudar de ideias, mas a situação levantou algumas questões éticas que Pearson traz igualmente para o documentário ao vivo: mesmo que respeitasse a decisão da avó, e é certo que iria fazê-lo, que consequências é que isso traria para o seu trabalho? E como encarar isso? Como um gesto responsável? Como censura? As questões ficam em aberto. Nas entrevistas com a avó fica, além disso, bem explícita a ideia de contaminação entre as esferas pessoal e política – e o impacto da História na vida pessoal. Questionada sobre o fim da relação do casal, a avó diz que se não fosse a revolução eles ainda estariam juntos. Estariam?

History History History levanta várias questões que deixa, propositadamente, por responder. Cabe a nós fazê-lo, em cada uma das nossas indagações pessoais.

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