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Frida Kahlo e Clarice Lispector na coleção “Antiprincesas”

Texto: HELENA BENTO

Coleção sobre “mulheres que não se resignam e lutam para fazer valer aquilo que pensam é lançada dia 8 e contará com um debate e a exibição de uma curta-metragem sobre Violeta Parra, artista e compositora chilena, e uma das biografadas.

Clarice Lispector nasceu “numa Europa pobre, cresceu num Brasil pouco progressista, e o português foi sempre a sua língua”. “Dobrou as palavras, libertou a mente, ignorou as regras, e assim escreveu romances, contos, e crónicas, com a máquina de escrever ao colo e os filhos a brincarem à sua volta”. Frida Kahlo “pintou as tristezas e as alegrias da sua vida com cores alegres. Teve uma perna defeituosa que nunca escondeu, e usou a arte para combater o sofrimento físico”. Juana Azurduy “percebeu como era difícil e injusta a vida na Bolívia, à época de um país ocupado, e não conseguiu ficar parada. Vestiu uma saia branca e um casaco vermelho, pegou numa espada, e enfrentou a cavalo as lutas pela libertação da América do Sul”. Violeta Parra “viajou pelos lugares mais remotos do Chile para recolher e salvar do esquecimento as canções tradicionais. Aprendeu sozinha a tocar vários instrumentos, a pintar em cartões velhos e a bordar serapilheira. Quando foi preciso, vestiu saias feitas de cortinados, carregou os filhos para o trabalho, e nunca desistiu de cantar as vozes e os sons do seu povo”.

Clarice Lispector, Frida Kahlo, Juana Azurduy, Violeta Parra. São elas as protagonistas dos primeiros quatro títulos da coleção “Antiprincesas”, criada em 2015 pela editora argentina Chirimbote e adotada pela Tinta-da-China e a EGEAC, Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural de Lisboa, no âmbito do programa Lisboa por Dentro, que tem como objetivo estimular a descoberta da cidade através de diversas propostas artísticas. A coleção já está em pré-venda no site da editora portuguesa e chega às livrarias no dia 3 de março (esta sexta-feira). O lançamento da coleção, no dia 8, no Capitólio, em Lisboa, contará com um debate e a exibição de uma curta-metragem sobre a compositora, cantora e artista chilena Violeta Parra.

“As antiprincesas não são do contra só porque sim: não se resignam, e lutam por fazer valer aquilo em que pensam. Como não usam tiaras, podem virar tudo de pernas para o ar e arriscar o que bem lhes apetece, como por exemplo, mudar o mundo”, lê-se na contracapa dos primeiros quatro títulos da coleção. Com textos da escritora Nadia Fink e desenhos do ilustrador Pitu Saá, estes livros “para meninas e meninos” dão a conhecer, numa linguagem simples e até divertida, a vida e obra de “antiprincesas”, mulheres que, não tendo “superpoderes”, são “superpoderosas” e sabem que “as mulheres reais é que podem mudar o mundo”. Nas últimas páginas dos livros, que combinam ilustração, fotografias e textos curtos, são apresentadas propostas de atividades e jogos para os mais novos em torno de cada uma das biografadas.

Em 2015, numa entrevista à BBC, Nadia Fink explicou que o objetivo da coleção é “romper com o estereótipo da mulher cuja beleza está associada ao seu aspeto exterior e mostrar exemplos de mulheres com beleza interior”, mulheres que “não estiveram paradas, à espera que um príncipe as salvasse, mas antes transformaram elas próprias a sua vida”. A ideia para esta coleção surgiu quando Nadia Fink, que trabalha na prestigiada revista de política e cultura Sudestada, sediada na Argentina, tivera de investigar sobre a vida e obra de Violeta Parra e Frida Kahlo e questionou-se depois sobre como poderiam as histórias destas duas mulheres ser contadas aos mais novos. Com a Chirimbote, uma editora de livros infantis recém-fundada, decidiu então lançar esta coleção que procura “transformar paradigmas” e mostrar outros modelos de mulheres “que não os modelos clássicos, como a Barbie ou as princesas da Disney”. Foi ainda criada, em paralelo, a coleção “Anti-heróis”, que conta já com livros dedicados ao escritor argentino Julio Cortazár, a Che Guevara e a Eduardo Galeano, jornalista e escritor do Uruguai.

Na mesma entrevista, Nadia Fink reconhece que um dos maiores desafios foi perceber como contar, a um público infantil, a história de mulheres “que sofreram muito em vida e tiveram finais trágicos”, como Violeta Parra, que se suicidou aos 49 anos, e Frida Khalo, que morreu na sequência de uma broncopneumonia, mas tentou mais do que uma vez suicidar-se. No caso de Violeta, à pergunta “e o que lhe aconteceu depois?”, feita no livro, é dada a resposta: “Isso já é outra história, que há de ser contada noutro texto, ou que tens de procurar noutros livros, noutras vozes… Por aqui, nós vamos continuar atrás do rasto desta Violeta que anda de guitarra ao ombro pelas estradas perdidas do Chile, a bater a todas as portas das aldeias e dos campos, a conversar com gente muito velha, que lhe conta histórias e lhe canções”.
Embora evitando narrativas e desenlaces dramáticos, os livros não escondem, além disso, alguns dos aspetos mais polémicos da vida destas artistas, relacionados com questões como a bissexualidade ou com situações de abandono. “É bom mostrar aos mais novos que a vida também é isso”, que a vida “também é dor”. Nadia Fink ainda não sabe quais serão as próximas biografadas – as poetisas Alfonsina Storni e Alejandra Pizarnik estão entre as hipóteses consideradas – mas de uma coisa tem a certeza: as novas antiprincesas serão “mulheres anti-sistema que sofreram muito para romper com os moldes da sociedade”.

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