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Um feminismo muito… Doce

Texto: GONÇALO COTA

(Re)olhar a “poplítica” do Festival da Canção, em dia de final: a mística das Doce produziu-se em parte pela desconstrução do paradigma da subordinação feminina, que transgrediu as lógicas patriarcais e machistas da sociedade portuguesa da década de 80.

Na ressaca de 48 de um regime derrubado em 1974, conhecia-se pouco mais do que os costumes e modos de pensar iminentemente clericais. A revolução de abril faz urgir um mundo novo de modos de estar e pensar mais cosmopolitas e contemporâneos, sendo as figuras musicais da década de oitenta o reflexo disso – Heróis do Mar ou António Variações, por exemplo, invertem a normatividade no modo como se apresentam.

Das quatro vezes que se apresentaram no Festival da Canção, de 1980 a 1982 e novamente em 1984, as Doce apresentaram-se sempre em contra-resposta à rigidez, formalidade e repressão de anteriores propostas. Na coreografia, na postura ou nos motivos musicais, a leveza com que exploravam a sexualização do corpo feminino permitiu uma emancipação artística não experimentada até então em Portugal.

Contudo, não foi feita sem críticas. A crítica a Ali Baba, na edição de 1981, foi taxativa com o arrojo da indumentária de Fátima Padinha, Teresa Miguel, Lena Coelho e Laura Diogo, inspirado em odaliscas. As críticas mostraram então uma impreparação e incompreensão na possibilidade da emancipação feminina.

É em 1982, e novamente com uma composição de Tozé Brito, que as Doce vencem o Festival da Canção. Com chapéus e fatos que fazem lembrar o romance de Dumas, Doce trazem com Bem Bom letras que remetam para a experiência sexual, numa perspetiva feminista do Festival da Canção que expressa a capacidade de confluir a não-monopolização de prazer por parte do homem, bem como a possibilidade de mobilizar temas sexuais e integrá-los nos media musicais independentemente do género.

Numa abordagem pop menos efusiva do que as que tinham apresentado anteriormente, o regresso das Doce aos Festival da Canção acontece dois anos depois, em 1984, com O Barquinho da Esperança, letra de Pedro Ayres Magalhães, dos Heróis do Mar e Madredeus, e de Miguel Esteves Cardoso.


“Doce” (1980)


“Ali Babá” (1981)


“Bem Bom”


“O Barquinho da Esperança”

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