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Os filmes da Monstra 2017 (3)

Texto: DIOGO SENO e RUI ALVES DE SOUSA

Em tempo de balanço do que passou nesta edição da Monstra aqui ficam alguns olhares sobre os filmes que mais nos marcaram entre os que vimos este ano.

“Louise à Beira-Mar”
de Jean-François Laguionie

Louise, uma senhora simpática que está a passar uma temporada nas praias francesas, tal como o resto da população, vê-se sozinha na estância balnear. Não foi a tempo de apanhar o último comboio do ano, que a levaria de volta à vida quotidiana e solitária “oferecida” pela cidade. Louise terá de sobreviver e, enquanto a salvação não chega, aproveita para descobrir melhor o espaço que, afinal, não conhece tão bem como pensava, reencontrando a praia e o que está à sua volta com um novo olhar, distante da azáfama do pico do calor.

O que fazer, então, já que aquela aldeola se encontra deserta e só voltará a funcionar no próximo Verão? A resposta que Jean-François Laguionie, veterano do cinema de animação (fez o primeiro filme há mais de cinco décadas), nos dá com este Louise à Beira-Mar é simples: passa por uma viagem de autodescoberta, onde Louise passeia pelas suas memórias, confunde perspectivas diferentes sobre o mesmo acontecimento e revive as épocas dos momentos que decidiu guardar na cabeça. E daqui surge um filme filosófico e simples, uma reflexão sobre a relação de uma mulher com a sua vida, feita com delicadeza e com um cuidado especial a uma personagem não menos especial. – R.A.S.

“O Gato que Ensinou a Gaivota a Voar”
de Enzo d’Alò

A Monstrinha de 2017 contou com a presença de Enzo d’Alò, realizador apropriado para uma edição do festival que homenageou a animação feita em Itália. Foram exibidas duas longas de sua autoria: uma nova adaptação de Pinóquio, e este filme, mais antigo, que adapta um conto célebre de Luís Sepúlveda. É uma fábula bonita que possui uma abordagem menos própria para todas as idades, estando mais direcionada para os pequeninos – e que bom ver, de qualquer forma, uma sala repleta de pais e filhos. Portanto, o prazer que este filme poderá ser mais aproveitado pelo seu “público-alvo” que irá, sem dúvida, vibrar com os gatos que falam, a gaivota simpática que cresce e tentará cumprir o seu objetivo de vida com a ajuda dos seres felinos: voar.

Mesmo que seja fiel ao espírito do livrinho de Sepúlveda, não temos aqui, no entanto, uma recriação ipsis verbis, tanto que foram acrescentados uns quantos momentos musicais desenquadrados do resto do filme, cuja única função relevante (ao que parece) é de encher o guião de forma a que se tenha um resultado final que possa cumprir os parâmetros mínimos de duração de uma longa-metragem. De resto, temos em O Gato Que Ensinou a Gaivota a Voar uma animação que, não desiludindo nem entusiasmando em termos técnicos ou narrativos, sobressai pela singularidade emocional e divertida das personagens – mesmo que as pequenas coisas mais interessantes do filme sejam mostradas de forma tão apressada, de forma a dar mais espaço às canções e outras decisões do realizador que não ficam na memória.- R.A.S.

“O Hino do Coração”
de Tatsuyuki Nagai

A animação japonesa tem, na vida escolar e no que a rodeia (nos planos real e imaginário), um tema constante que já deu azo a alguns títulos inesquecíveis que representam tão bem esse “sub-género”. Recordo-me por exemplo dos emblemáticos Susurro no Coração e A Colina das Papoilas, ambos dos estúdios Ghibli. Mesmo que não pertença ao “espólio” desse grande estúdio de anime, esta longa, que passou em competição na Monstra, acaba por não ficar muito atrás dos títulos referidos e de tantos outros.

Hino do Coração tem uma história que mistura com perspicácia uma brincadeira infantil, originada por um drama da vida quotidiana que será desvendado a certa altura, com as repercussões que isso pode provocar na própria realidade. A par e passo acompanhamos a protagonista, as vidas íntimas de alguns dos seus colegas de escola, também com mágoas do passado que se confundem com o presente, e a ligação entre todos, provocada pela criação de uma peça para ser apresentada numa efeméride especial para a cidade.

A magia de um conto de fadas infantil (que, tal como as versões originais do que os irmãos Grimm e Hans Christian Andresen nos deixaram, tem o seu quê de diabólico) mistura-se com temas bem mais sérios. E a faltar alguma consistência, já que o filme acaba por ter alguns escassos momentos de desorientação em vários níveis, o realizador Tatsuyuki Nagai compensa com um resultado final que, sendo poético e emocionante (daqueles que podem causar lágrimas), nos agarra por saber orientar bem o destino das suas personagens sem que elas caiam no mais aparente cliché. Um belíssimo filme, e o melhor que vi neste ano de Monstra. – R.A.S.

“Revengeance”
de Bill Plympton e Jim Lujan

É já longa a relação que a Monstra tem com o trabalho do realizador Bill Plympton, exibindo sempre que possível os seus novos trabalhos. Um autor que é uma referência do cinema de animação contemporâneo, e que assina filmes com temas ou tons corrosivos, que já lhe valeram o estatuto de “cineasta de culto”. Para a edição de 2017 do festival, pudemos descobrir uma longa-metragem que Plympton co-realizou com Jim Lujan, uma comédia que satiriza vários aspectos das sociedades modernas e que está pejado de referências a outras obras do cinema – e não só.

Entre as centenas de propostas que caem diariamente na sua caixa de e-mail, Plympton recebeu uma “demo” enviada por Lujan. Fascinado pela apresentação e pela criatividade das ideias do jovem realizador, homem de vários outros talentos (dá voz à maioria dos personagens do filme, por exemplo), não demorou muito a decidir ajudá-lo a concretizar este Revengeance. E o resultado final não poderá cair no esquecimento dos seus espectadores: temos aqui uma animação deliberadamente “rasca”, com um traço forte e muito caricatural, o que acentua a psicologia de cada personagem e a sua tomada de posição na história, e com um humor que paira constantemente entre a subtileza e a punchline mais fácil e brejeira.

Revengeance é uma paródia divertida a vários clichés dos filmes e das narrativas mais clássicas, que triunfa por acertar no desenvolvimento da sua premissa, de forma curta e grossa. E só pelo protagonista, já os rápidos 70 minutos do filme merecem ser vistos: quantas vezes pudemos encontrar, no cinema recente, um detetive que, apesar de imitar os ídolos desse tipo que figuram em muito do cinema noir (Bogarts e afins), não consegue nada que se pareça com esses modelos, sendo mais facilmente associado ao estereótipo do homem que é contabilista de profissão? É nisto e noutros pormenores exageradamente deliciosos que temos os bons momentos de comédia de Revengeance, bem auxiliados pela animação tão peculiar. – R.A.S.

“La Tortue Rouge”
de Michael Dudok de Wit

Apenas com duas curtas, O Monge e o Peixe e Pai e Filha, o realizador holandês Michael Dudok de Wit cimentou a sua reputação como um dos nomes mais destacados da animação europeia. Ambas mostravam um perfeito casamento entre “conteúdo” e “forma”: à depuração das linhas e das figuras e à quase monocromia correspondia uma narrativa simples, repetitiva, próxima das fábulas orientais. Dudok de Wit exibia inspirações da pintura e desenhos chineses e japoneses e as duas curtas captaram a atenção do Estúdio Ghibli, sobretudo do realizador Isao Takahata. Surgiu assim o convite para realizar a primeira longa-metragem co-produzida pelo estúdio japonês.

O resultado final é diferente de todo o portfolio do estúdio, embora compartilhe alguns traços. A simplicidade da animação talvez esteja mais próxima das experiências de Takahata do que da exuberância de Miyazaki. Curiosamente, Dudok de Wit afasta-se dos seus traços estilísticos anteriores e das inspirações asiáticas e cria um universo visual peculiar, bastante europeu, que parece beber tanto da arte da animação como de outras artes visuais (nomeadamente da banda desenhada), onde o desenho se encontra com a aguarela, onde as paisagens são simples mas dinâmicas, onde o horizonte é apenas uma linha, e onde as figuras são simplificadas ao máximo mas não perdem “vida”.

Um dos aspectos mais interessantes deste filme acaba por ser a forma como concilia as potencialidades desta animação minimalista com um ritmo e naturalismo que não é habitual nesta arte, muito menos em longas-metragens recentes.

Entregue aos ciclos da natureza, e da vida humana, profundamente ligados, Dudok de Wit mostra como a resistência inicial do homem naufragado dá lugar à aceitação de uma nova condição. Até aqui, apesar do desconhecimento das razões que o levaram ali e da presença misteriosa da tartaruga, mantêm-se um registo mais natural do que fantástico. Mas a fantasia e as metáforas começam a ganhar vida. É nos aspectos mais oníricos e poéticos que o filme se aproxima de forma mais clara do universo Ghibli, e há inclusive uma piscadela de olho ao fascínio de Takahata e Miyazaki com a “capacidade de voar”. Também nos gestos dos bonecos, nas suas acções vagarosas, no ritmo ponderado da história, na atenção ao pulsar do meio ambiente (o mar, a floresta, os animais) mostra o realizador a sua capacidade de recriar de forma poética e estilizada o “real”. Embora não desenvolva a sua premissa e as mensagens desta fábula sejam já conhecidas de outras paragens e não atinjam a sofisticação de outros filmes do estúdio, com 80 minutos (dez vezes mais do que as curtas anteriores do realizador) e sem diálogos (embora as personagens tenham voz), A Tartaruga Vermelha mostra como ainda é possível, com uma animação depurada e de belíssima cor, mostrar a nossa relação com a natureza e a passagem do tempo de forma melancólica e comovente. – D.S.

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