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“Speak & Spell”: os desafios de inventar uma nova pop eletrónica

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1981 o álbum de estreia dos Depeche Mode não só é documento da etapa em que Vince Clarke era o principal compositor do grupo como deve ser encarado como peça marcante da afirmação de uma nova visão para a canção pop.

Na alvorada dos anos 80, depois de inscritas em disco as primeiras visões de uma pop feita com eletrónicas um mundo de possibilidades começou então a desenhar-se para um geração (tanto de músicos como de ouvintes) que encontrava ali o futuro com que escrevia o seu presente. Era a minha, já agora, acrescento. E se entre os visionários alemães, dos Tangerine Dream aos Kraftwerk aos ensaios igualmente desafiantes lançados por nomes fora do mapa mais habitual dos acontecimentos pop, como Vangelis (Grécia), Jean Michel Jarre (França), Yello (Suíça), Telex (Bélgica) ou Yellow Magic Orchestra (Japão) a verdade é que o eixo que havia definido o tutano da cultura pop/rock parecia até então não ser dos mais prolíficos neste ponto da história apesar, claro está, de propostas como as já apresentadas pelos Suicide (nos EUA) e por pioneiros como os Human League, OMD ou Gary Numan no Reino Unido. Mas entre 1979 e 1980 uma vaga de entusiasmos varre o panorama pop anglo-saxónico, sobretudo no Reino Unido, com expressões não apenas em Londres mas também em cidades como Sheffield, Basildon ou Liverpool. E é num destes pólos fora da capital (Basildon) que, de uma série de primeiras bandas entre amigos e colegas de escola, nascem os Depeche Mode.

De uma primeira maquete surgem contactos, um deles levando o seu tema Photographic a uma antologia visionária que acabaria por definir a identidade da etiqueta Some Bizarre (que teria nos Soft Cell o seu caso-sério), um outro trazendo à sua órbita o músico Daniel Miller, que militara nos The Normal (e assinara o clássico da cold wave Warm Leatherette), que os convidou a gravar um primeiro single na sua nova idependente Mute Records. 37 anos ainda lá estão, apesar de num patamar completamente diferente.

O impacte discreto, mas sentido, de Dreaming Of Me (esse single de estreia, gravado em finais de 1980 e lançado em inícios de 1981), coloca os Depeche Mode em cena num tempo em que a vaga new romantic dava que falar, nascendo daí uma ideia de que a ela estavam ligados (na verdade foram mais contemporâneos de jogo do que peças do mesmo tabuleiro). Mais notória era a sua ligação a uma forma mais luminosa e festiva de encarar a escrita de canções pop com eletrónicas. Contra o tom mais sombrio das criações de um Gary Numan ou da primeira etapa de vida de uns Human League, as canções que anunciavam a chegada dos Depeche Mode aliavam-se às novas propostas pop de uns renovados Human League, dos Soft Cell ou dos OMD para acabar por definir as bases de uma nova identidade para as canções pop feitas com sintetizadores.

Se o single Dreaming of Me resultara num cartão de visita capaz de cativar primeiras atenções já o seu sucessor, New Life, mostrou que o grupo (e a nova pop eletrónica) conseguia gerar êxitos com presença destacada nas tabelas de vendas, facto que seria definitivamente sublinhado pelo impacte, ainda maior, de Just Can’t Get Enough, que surgiu em setembro de 1981 e deu ao grupo o seu primeiro tema de impacte global criando um clássico que ainda hoje recordam em concertos.

O terceiro single abriu caminho para a chegada, em outubro de 1981, de Speak & Spell, um álbum que, apesar de ser hoje dos menos recordados na discografia mais remota dos Depeche Mode, merece ser evocado como um título marcante no processo de afirmação de uma pop eletrónica luminosa e dançável.

Apesar de incluir dois temas assinados por Martin Gore – Tora! Tora! Tora! e Big Muff -, que cede a voz à versão cantada de Any Second Now, o álbum reflete a escrita simples, ligeira e luminosa de Vince Clarke, que se assumiu assim como o principal autor nesta etapa inicial da carreira dos Depeche Mode. O tom quase ingénuo de uma canção como What’s Your Name ou o sentido nada ameaçador de um tema mais denso como o noturno Nodisco traduzem o sentido de leveza que domina um disco que hoje podemos reconhecer na base de muita da música pop que escutámos depois.

Além dos singles – e na sua versão original, em vinil, Dreaming of Me não constava do alinhamento – o álbum tem em Photographic, uma das peças fundadoras de uma visão pop dançável que teve no hi-nrg uma expressão noturna por aqueles dias – outro dos seus momentos maiores. Esta é na verdade uma regravação do tema com o qual o grupo se estreara discograficamente em 1980 na compilação da Some Bizarre. Vale a pena sublinhar ainda as qualidades sonoras de um álbum que traduz a ideia de um encontro feliz entre uma banda e um produtor (Daniel Miller), tendo este sabido ajudar os músicos a encontrar os registos sonoros e os caminhos para os arranjos que moldaram canções que ainda hoje traduzem uma rara frescura.

Através dos temas aos quais Martin Gore está associado como autor e vocalista encontramos aqui os pontos de ligação possível para o futuro dos Depeche Mode. Incomodado com os ritmos e vivências de um sucesso demasiado súbito, e pouco entusiasmado com a vida de estrada, Vince Clarke resolveu abandonar o grupo já com o álbum concluído. Começou por definir uma dupla de estúdio com Alison Moyet nos Yazoo, formando depois projetos pontuais como os Assembly ou uma parceria com Paul Quinn, antes de encontrar em Andy Bell o companheiro certo para formar os Erasure que, ainda hoje, se mantém ativos.


“Photographic”


“New Life”

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