Últimas notícias

E os Depeche Mode voltaram a levantar os martelos

Texto: NUNO GALOPIM

Ecos de um mundo cada vez mais perturbante passam pelo disco mais político que os Depeche Mode alguma vez gravaram e que abre pontes não só temáticas como também musicais com memórias de grandes álbuns criados pelo grupo em meados dos anos 80.

Sinais dos tempos que correm, ecos de um mundo crispado, tomadas de consciência de opções e rumos preocupantes em curso, constatações de uma humanidade em rota de regressão… São realidades que passam entre o alinhamento de um álbum que, contra o rumo de alguma perda de viço que a banda vivera na última década, devolve em 2017 as canções dos Depeche Mode a um patamar que há muito não conheciam.

Spirit não é um disco formatado por uma ideologia. Mas é um álbum profundamente político no sentido em que observa, comenta e questiona os tempos, os líderes, as opções em curso. Esta relação com o presente e com um real mais palpável rompe assim o domínio de um mapa temático de obsessões que tinham começado a ganhar terreno na aurora dos anos 90 e tinham transformado muitas das composições recentes dos Depeche Mode em odes esgotadas ao mais do mesmo.

Logo em Going Backwards, que abre o alinhamento, a repetição da frase “we feel nothing inside” sublinha uma reflexão desencantada sobre um mundo que perdeu o respeito, que perdeu o controlo, e no qual estamos a regredir, a ignorar as realidades e a virar as costas à história… Pois é, quantos de nós não pensámos já precisamente nisto mesmo nestes últimos tempos? Em Worst Crime falam de leitores sem educação, de hesitação apática, de informações erróneas, de líderes que caminham em sentidos errados… E lá voltamos ao mesmo… Pois é, este é o nosso mundo em 2017. Em Poorman focam olhares num plano económico, falam de corporações, dos contrastes cada vez maiores entre quem tem tudo e quem nada tem. Em Fail instala-se uma descrença no futuro, quando confessam que talvez não valha a pena acreditar que a justiça vai vencer e que a verdade irá regressar à tona, reconhecendo que a nossa dignidade navegou para longe e que nós, como humanidade, falhámos… Esta nota pessimista tem contudo um contraste em Where’s the Revolution, um hino que exulta à ação. E perante semelhantes declarações, que estão em sintonia com memórias de outras trovas políticas do grupo, nomeadamente nos tempos de Construction Time Again (e não é por acaso que os vemos de martelos nas mãos em novas fotos promocionais), os Depeche Mode assinam o seu disco mais político de sempre. Tão zangados quanto desencantados, fazem de Spirit um retrato tenso e intenso daquilo que somos e de um futuro negro que tememos… E asssim deixam um alerta. E que ressoe antes que seja tarde demais…

Musicalmente, e se bem que mantenham ecos de relacionamento com alguns dos caminhos experimentados em tempos mais recentes – e devemos reconhecer que até nos mais fracos Sounds of the Universe (2009) e Delta Machine (2013) houve momentos musicalmente estimulantes –, o álbum parece procurar por um lado um relacionamento com tonalidades mais minimalistas e negras que ensaiaram em várias canções de meados dos anos 80, mais concretamente os discos como Construction Time Again (1983), Some Great Reward (1984) e Black Celebration (1986), como reflete em alguns instantes um sentido de demanda no terreno do som como em tempos havia quando Alan Wilder era ali o quarto (e bem importante) elemento.

O disco representa, face ao historial recente da banda, aquele em que a divisão de escrita entre Martin Gore e Dave Gahan resulta em melhores e mais equilibradas contribuições, assinando os dois, em conjunto, You Move, canção que assinala uma das mais evidentes ligações ao passado recente dos Depeche Mode. Já So Much Love, de Gore, recupera tonalidades de uma pop negra, mas viçosa, que os marcou na segunda metade dos oitentas. Também de Gore (e na sua voz) o belíssimo Eternal assinala a continuidade de uma presença que nunca deixou de marcar os discos dos Depeche Mode, retomando contudo um paisagismo tenso e negro que recupera as paisagens mais desencantadas de um Black Celebration, embora sob novos desafios sonoros (servindo aqui a bela produção de James Ford um bálsamo capaz de fazer esquecer a ausência de Alan Wilder). Cabe contudo ao vocalista, em Cover Me, numa parceria com Peter Gordeno e Christian Eigner (os músicos que os acompanham em palco), aquela que é não só a melhor composição do álbum como uma das que mais bem define a alma primordial da identidade da banda que este disco tão bem recupera.

Em balanço, Spirit não só é musicalmente mais entusiasmante do que os dois melhores álbuns que o grupo criou depois de reduzido, pela segunda vez, a uma formação de três elementos – Ultra (1997) e Playing the Angel (2005) – como no âmago das palavras e dos temas que leva às suas canções recupera um viço crítico que habitava esse tríptico que antecedeu o aprumo formal da etapa mais eloquente que chegaria depois, ao som dos clássicos Music for the Masses (1987) e Violator (1989). Há muito que um disco dos Depeche Mode não era tão saudavelmente capaz de ser uma peça incómoda e interventiva…

“Spirit”, dos Depeche Mode, está disponível em LP, CD e nas diversas plataformas digitais, numa edição da Mute Records, distribuída pela Sony Music. ★★★★

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: