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Os The Shins em modo… completamente diferente

Texto: NUNO GALOPIM

Cinco anos depois de um álbum desapontante os The Shins regressam aos discos com a sua experiência de horizontes mais desafiantes. Sob marcas evidentes da escrita e do canto de James Mercer as canções apostam num trabalho cénico que desafia o ouvinte.

Houve um tempo em que na música dos The Shins encontrávamos um sentido de frescura presente, embora cheia de saborosas ressonâncias de memórias, estando essas sensações um pouco para o mapa indie nortie-americano como tinham estado as sugeridas por bandas como os The La’s ou The House of Love para a Inglaterra de finais dos oitentas… O travo era classicista, evidenciando os jogos entre as guitarras e as vozes ecos de grandes escolas, entre as quais os Byrds. Mas ao mesmo tempo havia ali um incrível talento na escrita que, apesar do impacte relativamente discreto de Oh, Inverted World (2001) na sua primeira vida, conheceu numa das canções do alinhamento do álbum – o histórico New Slang – um hino que não só conferiu visibilidade maior ao sucessor Chutes Too Narrow (2003), como depois os catapultou a um patamar de visibilidade na primeira linha dos acontecimentos quando, em 2007, lançam o belíssimo Wincing The Night Away (de 2007, disco que continua a ser o seu melhor). James Mercer que, além do talento na escrita, se afirmara também como uma das vozes mais marcantes em terreno indie nos noughties, encontrou então espaço para novos desafios através do projeto de contornos pop, talhado sob maior presença das eletrónicas, que definiu sob a designação Broken Bells, na companhia de Danger Mouse, estreando-se em disco em 2010, a meio de um longo hiato para os The Shins que regressam em 2012 com Port Of Morrow, um disco menos surpreendente (um pouco como The Suburbs dos Arcade Fire) e gravado por uma banda na qual Mercer era o único que se mantinha das etapas anteriores.

Depois do desmotivante Port of Morrow a criação de um segundo álbum de Broken Bells em 2014 parecia dar a entender que esse seria daí em diante o caminho mais fértil para a música de James Mercer. Mas, repetindo o mesmo inrevalo de cinco anos que separara Wincing The Night Away de Port of Morrow, eis senão quando, ao cabo de cinco anos de silêncio (discograficamente interrompido apenas por um single produzido por Richard Swift), os The Shins apresentam um quinto álbum. Tem por título Heartworms, conta ainda com James Mercer como a sua peça central. Mas é… algo completamente diferente. E ainda bem…

Se o trio inicial de álbuns impusera os The Shins como um caso raro de ascensão até ao sucesso mainstream de uma banda com berço (e identidade) indie, já as experiências posteriores de James Mercer, sobretudo via Broken Bells, mostraram uma vontade em transcender as fronteiras mais focadas exploradas nesses discos, o novo disco alargando agora mais do que nunca horizontes a uma música que tanto parece ainda plena de heranças classicistas (um pouco como o faziam uns Crowded House de inícios dos noventas), porém refletindo um gosto – certamente explorado via Broken Bells – de experimentar novas cores e timbres, traduzindo frequentemente os arranjos um labor rico em acontecimentos que faz com que cada audição acabe sempre a abrir portas a cada uma das canções que vamos reencontrando e assimilando cada vez melhor.

Os mais dados a seguir as carreiras discográficas das bandas como expressão de um cânone que os músicos eventualmente tenham fixado numa etapa marcante da sua obra, sentirão talvez um desconforto num primeiro contacto. O tempo acaba depois por esbater a estranheza da invulgar diversidade de soluções cénicas que as canções traduzem, sendo contudo claramente evidentes as marcas de personalidade quer na escrita, quer na interpretação vocal.

Heartworms é um disco que, mesmo sob ocasionais focos de melancolia, acaba por se render inevitavelmente a uma luminosidade característica que tanto a escrita, a força das melodias e o canto de James Mercer tão bem traduzem. E é entre os mundos de formas e texturas nos quais cada audição nos convida a descobrir que acabamos a encontrar motivos para regressar a estas canções. Estamos definitivamente bem longe das possíveis afinidades que em tempos alguns gostavam de encontrar entre os The Shins e a “família” de bandas da Elephant 6… Mas, no fundo, James Mercer sempre nos disse que esta era uma banda pop. E o novo disco volta a dar-lhe razão.

PS. Sim, a capa podia ser bem melhor…

“Heartworms”, dos The Shins, está disponível em LP, CD e em plataformas digitais, numa edição da Aural Apothecary / Columbia ★★★★

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