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“A Broken Frame”: retratos de uma banda em transformação

Texto: NUNO GALOPIM

Poucas vezes um álbum regista os ecos de uma banda a viver, em tempo real, um processo de transformação interna. Editado em setembro de 1982, o primeiro disco dos Depeche Mode com Martin Gore como timoneiro da escrita retrata esses tempos de dúvida e de procura.

A saída de Vince Clarke, que coincidiu com o momento em que os Depeche Mode conheciam os seus primeiros episódios de sucesso global, assinalou, depois da cisão nos Human League (da qual nasceria uma nova formação e orientação para banda e, entre os dissidentes, o núcleo que fez a génese dos Heaven 17), um novo episódio de crise entre a emergente cena pop feita com eletrónicas. Porém, se os Human League eram ainda um caso de culto entre os mais atentos seguidores dos pioneiros destas novas movimentações quando o caso se fez saber em 1980, já os Depeche Mode eram, mesmo com menos discos editados, um caso de mediatismo maior quando se soube que aquele que era até então o seu principal compositor – e por isso autor dos singles de grande êxito New Life e, mais ainda, Just Can’t Get Enough – partia para outras aventuras por divergências musicais com os companheiros. E logo houve quem, sem surpresa, acompanhasse os futuros imediatos de uns e de outros, a ver quem se saía melhor. E, convenhamos, que nesse primeiro ano pós-cisão, foi Vince Clarke quem mais teve razões para sorrir.

Juntando-se à ainda desconhecida Alison Moyet (que trouxe na bagagem uma paixão pelo rhythm and blues) para formar os Yazoo, Vince Clarke conheceu um calendário editorial não muito diferente do que então era definido pelos Depeche Mode que entregavam então a Martin Gore, que já assinara dois temas no álbum de 1981, a escrita das suas novas canções.

O primeiro embate deu-se ao som de See You, o primeiro single dos Depeche Mode entretanto reduzidos a um trio. Editada em janeiro de 1982 a canção traduzia um sentido de melancolia que não habitara os temas de Speak & Spell, falando de desejo de uma outra forma, todavia mantendo uma certa luminosidade pop e não escapando timbricamente aos tons usados até então pelo grupo. Curiosamente era também feita de melancolia a canção com a qual se estreavam os Yazoo, que com a balada Only You (lançada em março), chegava ao número dois no Reino Unido, quatro postos acima da canção dos Depeche Mode.

O segundo confronto chegou a caminho do verão, com os Depeche Mode a apresentarem em The Meaning Of Love o mais açucarado dos seus singles e, que de certa forma, seria o real ponto final da etapa mais festiva e ingénua da sua discografia, valendo a pena assinalar como, no lado B o instrumental Oberkorn (It’s a Small Town) assinalava um impulso mais experimental que contrastava com a canção que lhes valia então um número 12 no top. Em tons de festa, os Yazoo respondem com Don’t Go, que novamente trepa ao Top 3 e lhes dá novo êxito global.

Coube contudo ao terceiro single, que antecedeu em poucas semanas a edição do álbum A Broken Frame, o princípio da afirmação de outros desejos para a escrita e caminhos futuros de Martin Gore. Responder a Vince Clarke e a um rumo diretamente sugerido pelos ecos de Speak & Spell deixava de ser uma preocupação… Um trilho começava a ser encontrado em mergulhos mais pessoais nas entranhas das suas dúvidas, receios, ideias e também sonhos. Mais frágil, mas ao mesmo tempo mais seguro, Leave in Silence era como o primeiro dia do resto das suas vidas.



Juntando canções criadas nos meses anteriores, A Broken Frame (que no sprint com os Yazoo ficou aquém das vendas do álbum Upstairs at Eric’s) não vincou contudo de forma assim tão evidente os efeitos desta descoberta mais recente de um rumo encontrado. E, por isso, além de incluir (sem surpresa), os dois singles que tinham representado o tatear de terreno por parte de Martin Gore como principal compositor, tem ainda em A Photograph Of You ou no instrumental Nothing To Fear (bem à la Jean Michel Jarre) outros ecos desse passado que, entretanto, deixara de os perseguir.

Não é por acaso que coube a Leave In Silence o desafio de abrir o alinhamento, sublinhando as sugestões de mudança que sugeria, surgindo depois em A Secret Garden e no minimalista Monument o vincar de uma nova demanda em curso que, mais adiante, era sublinhada na assimilação depurada de sugestões de reggae na malha rítmica de Satellite e, mais ainda, em Shouldn’t Have Done That, um mais elaborado e plasticamente desafiante canto de um quotidiano desencantado que servia ali de ponte direta para o que, no ano seguinte, surgiria em Construction Time Again. Esses sinais de um futuro próximo passam também por The Sun & The Rainfall, que explora uma relação com os ritmos, as vozes e os silêncios que marcaria a música dos Depeche Mode nos anos seguintes…

A imagem da capa, que usa uma fotografia de Brian Griffin, é outro dos sinais de mudança, sendo clara a relação que define com a que apresentaria um ano depois Construction Time Again.

O grupo era então, em estúdio, um trio, surgindo o mais jovem recruta Alan Wilder em alguns telediscos, tal como nos palcos, onde era então uma presença habitual. Contudo não participou nas gravações do álbum nem era ainda um elemento da banda. Isso seriam histórias para contar em 1983…

Poucas vezes um álbum regista como este os ecos de uma banda a viver, em tempo real, um processo de transformação interna. Pode não ser o mais equilibrado e o mais coeso dos discos dos Depeche Mode. Mas traduz as verdades do seu tempo. E mostra como, na opção de manterem uma relação com os palcos (por oposição ao regime exclusivo de estúdio em que então viviam os Yazoo), alargaram horizontes através das vivências que as viagens pelo mundo dão a quem as faz. Estavam a crescer. E o disco é desse momento um belo retrato.

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