Últimas notícias

Quando um disco não estraga a alegria do reencontro

Texto: NUNO GALOPIM

Ao encararmos a chegada de um primeiro álbum dos The Jesus & Mary Chain após 19 anos de silêncio discográfico é bom ter em conta que, no departamento das revoluções, a banda já tinha assinado a sua (e que marcante foi!) em meados dos anos 80… Boas canções já seriam por isso boa notícia.

Isto das reuniões tem tanto de encantador como de assustador… E se houve momentos em que os reencontros resultaram em concertos nos quais as melhoradas qualidades que o tempo entretanto dera aos músicos como instrumentistas (e aí podemos dar como exemplo a soberba digressão de reencontro dos Velvet Underground nos noventas) já a coisa acabou muitas vezes por, mesmo encantando no palco, entre memórias, derrapar depois quando chegou a vontade de fazer nova música (e o medíocre álbum de inéditos que os Bauhaus resolveram editar após umas quantas ressurreições não podia ser melhor exemplo do pior que pode acontecer). Mas houve exceções. E quando os My Bloody Valentine nos deram a escutar em 2013 um novo álbum após longo silêncio surgiu uma das poucas exceções a ter em conta na hora de dar o benefício da dúvida a essas vontades de regressar não apenas ao palco, mas também ao estúdio… E por isso foi com expectativa que encarei este regresso aos discos dos The Jesus and Mary Chain. Afinal, são bandas contemporâneas e com um historial marcante na aventura de explorar as entranhas da eletricidade em busca de novas sensações e melodias. Valendo aqui lembrar que, mesmo assim, coube aos The Jesus & Mary Chain a criação de uma obra maior e emblemática como o foi o álbum Psychocandy (1985) e que, no sucessor Darklands (1987) voltaram a abrir portas a caminhos pelos quais avançariam muitas das canções e discos com berço indie dos anos seguintes…

Reunidos em 2007, os The Jesus & Mary Chain começaram por voltar aos palcos ao som de velhas canções, aproveitando o impacte da memória recente de Lost In Translation ao chamar Scarlett Johansson ao palco de Coachella quando ali lembravam Just Like Honey, que se escutava na banda sonora do filme. Nos dez anos que se seguiram pisaram palcos, ao mesmo tempo que Jim Reid ia gravando ora a solo ora com o projeto Freeheat. William, por seu lado, caminhara pelos seus dedos, apresentando-se como Lazycame… Mas depois de um programa de reedições da obra dos Jesus & Mary Chain em 2013 e de uma nova digressão centrada nas memórias de Psychocandy em 2015 (assinalando os 30 anos do álbum), confirmaram finalmente a ideia – já antes levantada – de que um novo álbum vinha caminho. E na passada sexta-feira, de facto, chegaram as canções de Damage and Joy

Vale a pena entender que, dadas as caraterísticas do que é a criação no quadro de uma banda pop/rock, raramente acontece a um conjunto de músicos que outrora assinaram visões de maior ousadia voltarem a estar na vanguarda de acontecimentos uns valentes anos depois. O que aconteceu com os U2 na etapa de reinvenção nos noventas, sobretudo ao som de um Achtung Baby (1991) ou Zooropa (1993) é rara exceção. E, convenhamos, foram até mais ousados e vanguardistas aí do que em qualquer dos seus discos anteriores… Por isso não há como nos darmos por felizes por termos nos Jesus & Mary Chain uma banda que mereceu já o seu lugar na história por discos criados há 30 anos (sim, trinta) e, agora, se os vemos pela frente novamente, e com novas canções, a última coisa que lhes devemos exigir é que voltem a fazer a revolução… Já tiveram a sua. E, ao contrário do agente 007, que vive duas vezes, nisto das revoluções musicais, uma banda só faz realmente uma. E atenção que disse banda, não artistas a solo, onde os patamares de desafio e liberdade são, necessariamente, maiores, já que não exigem a diplomacia do entendimento com os parceiros de trabalho…

Entrei assim no universo de Damage and Joy sem esperar um golpe de rins como aquele que, em meados dos oitentas, me sacudiu ao som de Psychocandy. Nem mesmo esperando a surpresa na transformação que chegou quando o saboroso April Skies abria caminho para outros sabores em 1987… Ou até uma revelação como, em 1992, o delicioso Almost Gold (do álbum Honey’s Dead) mostrava como podiam ser mais sedutores do que muitos dos seus discípulos shoegazer quando chegou a vontade de dançar…

Agradável, e sem grandes surpresas, assim se fez o primeiro encontro com as canções de Damage and Joy, cabendo aos sucessivos regressos ao disco o reforçar de uma sensação de familiaridade com que as canções de facto de apresentam, definindo o conjunto um herdeiro natural daquilo que eram caminhos esboçados nos noventas, entre os álbuns Stoned & Dethroned (1994) e Munki (1998), cabendo talvez ao efeito da saudade (e a uma antiga admiração) a impressão de que este, mesmo longe de visionário, seja talvez melhor coleção de canções do que as apresentadas nesses dois álbuns que antecederam a pausa de 1998… Talvez seja cedo para essas conclusões, que surgem mais num plano emocional do que meramente racional (e ainda bem que a coisa assim é, senão usávamos um algoritmo e para cada novo disco saía um número e já está).

Há aqui canções que têm já anos de vida. Algumas foram surgindo em discos dos projetos de Jim Reid. Outras são mesmo novas. E algumas chamam vozes convidadas como Sky Ferreira ou Isobel Campbell. O jogo de vozes, guitarras e melodia é de assinatura evidente, embora a produção mais polida e um domínio maior dos instrumentos (coisas que o tempo ensina, pois é) deixem claro que este é um disco que não poderia ter acontecido mais cedo na vida dos manos Reid.

Amputation abre o alinhamento com elementos nada estranhos ao universo da banda tanto pela sonoridade da canção como pelo facto de ter sido o single de apresentação deste novo lote de gravações, que seguem depois num mesmo tom, sob variações que não procuram nunca contrariar os caminhos de um livro de estilo já conhecido. Agradável e capaz de satisfazer velhos admiradores, Damage and Joy não faz estragos à memória e garante novas alegrias a quem desejava um reencontro que em nada danificasse velhas memórias. Tal como o fizeram os House of Love quando, em 2005 regressaram com Days Run Away, os The Jesus & Mary Chain têm em Damage and Joy um álbum que, sem acrescentar episódios realmente marcantes à sua discografia, garante ao menos uma mão cheia de novas canções para que os seus concertos não vivam só do passado. Mesmo que nenhuma destas pareça querer estar em sintonia com as demandas do presente. E há mal nisso?

“Damage and Joy”, dos The Jesus & Mary Chain, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais em edição da Artificial Plastic Records, sob distribuição da Warner. ★★★

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: