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Novas crónicas marcianas

Texto: NUNO GALOPIM

Duas novas histórias em banda desenhada levam-nos até Marte. “Mars Horizon” mais livre no traço e realista nas verdades científicas que justificam a trama. “Olympus Mons” em registo mais cinematográfico, num primeiro volume que lança uma história que cruza vários tempos e lugares.

Marte está, pelos vistos, na ordem do dia… Na verdade é de todos os planetas do sistema solar aquele que mais vezes inspirou histórias de ficção científica sendo porém a sua presença mais frequente em contos e romances do que propriamente no cinema e na banda desenhada… Isto apesar de haver uma curta-metragem de 1910 com Marte e um marciano em cena e de, entre a história das narrativas aos quadradinhos, haver tanto a presença de um super-herói como o Martian Manhunter ou uma mais recente adaptação das aventuras de John Carter ao universo dos comics… Apesar das várias vezes que o cinema contou histórias marcianas, nunca o sucesso de bilheteira tinha conhecido o planeta vermelho por cenário como quando Ridley Scott adaptou ao grande ecrã O Marciano, de Andy Weir (ultrapassando mesmo o impacte popular de Desafio Total de Paul Verhoeven). O impacte de O Marciano, juntamente com algumas notícias de achados científicos recentes e os projetos em curso com vista à concretização (ainda sem data) de uma primeira missão tripulada, talvez expliquem a presença mais frequente que Marte tem tido nos nossos ecrãs (neste momento está em cartaz Vida Inteligente, que conta a história de uma ameaça com origem marciana) e, pelos vistos, também na BD. E de França acabam de chegar duas novas propostas. Uma com travo de aventuras. Outra mais próxima de um realismo cientificamente mais verosímil.

Com o título Mars Horzion, a autora de divulgação científica Florence Porcel e o ilustrador Erwan Surcof apresentam uma história que, em 120 páginas, nos coloca perante os primeiros dias de uma primeira missão tripulada a Marte. Na verdade a ambição científica não se esgota ali, propondo a história uma outra aventura em simultâneo em Europa, uma das luas de Júpiter na qual se calcula haver condições para a existência de possíveis formas de vida.



Mars Horizon é um livro que vive mais de um condensado de informação do que de um frissom de ação (se bem que, a dada altura, não faltam ingredientes de drama para entusiasmar a pulsação da narrativa). Mas o foco aqui não é de todo o de nos colocar perante uma história cravejada de acontecimentos, já que aventura em si é mesmo a da chegada da tripulação, os desafios técnicos e humanos que enfrenta, a necessidade para instalar uma base e as condições necessárias para garantir a sua sobrevivência dos quatro que a habitam. Há no texto e nos desenhos uma vontade em explicar algumas das características técnicas e desafios científicos em jogo, não como o fez Robert Zubrin em First Landing (porque era um livro no qual ele mesmo usava a ficção para justificar a sua visão de um modelo para concretizar o sonho de missões tripuladas a Marte), mas como o mostrou Kim Stanley Robinson na sua mítica trilogia marciana (publicada nos anos 90 e que há muito que aguarda uma justificada edição por estes lados). Há em Mars Horzizon uma vontade em sustentar a história com verosimilhança justificada pela ciência e tecnologia, sem esquecer o plano sociológico e psicológico que caracteriza qualquer missão que envolva… pessoas. Mas, pelo menos no que este volume conta, não se ousa aqui imaginar a terraformação do planeta, como nos contam esses três volumes que se contam entre o melhor da literatura de ficção científica “marciana”.

Não falta depois o bom humor e as piscadelas de olho à atualidade (como de resto sucede em vários outros exemplos da história da literatura de ficção científica com Marte por cenário). Com cronologia apontada ao ano 2080, Mars Horizion coloca os quatro primeiros seres humanos em Marte a habitar a base Elon-Musk. O seu veículo de superfície chama-se Dolorean (lembram-se do carro de Regresso ao Futuro?) e os seus robots de serviço têm por nome O.Biwan e O.Rigami… C’est pas mal…


Se não é claro que Mars Horizon possa ou não ter continuação (mas seria possível, já que o fim da narrativa deixa possibilidades em aberto para passos seguintes), mais evidente é o facto de Olympus Mons ser de facto uma série. De resto o volume 1, que tem por título Anomalie Um mais não faz do que o colocar no tabuleiro das peças de um jogo narrativo maior que só mais adiante poderá ser desenvolvido.

Marte e o Monte Olimpo (o maior vulcão conhecido) são parte de uma série de cenários que recebem uma história que cruza vários tempos e lugares. Com texto de Christophe Bec e desenhos de Stefano Raffaele, Olympus Mons coloca-nos perante um achado que nos dá conta de que não estamos sós. As provas, encontradas em Marte, têm eco em situações que, nestas primeiras 56 pranchas nos fazem caminhar também entre os mares do Atlântico e a chegada de navegadores à América em 1492 e uma série de acontecimentos no Mar de Barents em 2026, passando pelo Iowa e estações polares norueguesas. Observações de estranhos acontecimentos e a constatação da existência de uma anomalia abrem pistas a um quadro complexo de possibilidades que o achado em Marte permite equacionar de uma forma tão apaixonante como assustadora.

Com um ritmo narrativo cinematográfico, apostando numa montagem em paralelo dos acontecimentos e com um registo visual que junta a noção de prancha mais habitual na BD franco-belga a modelos de traço e cor com afinidade pelo universo dos comics, Olympus Mons lança uma história que, para já, dá vontade de continuar a acompanhar.

“Mars Horizon”, de Florence Porcel e Erwan Surcouf é uma novela gráfica de 120 páginas a cores editada pela Delcourt.

“Olympus Mons – 1. Anomalie Um”, de Christophe Bec e Stefano Raffaele é um álbum cartonado de 56 páginas editado pelas Éditions Soleil.

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