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Os três melhores discos do primeiro trimestre de 2017

Texto: NUNO GALOPIM

E agora que entramos no segundo trimestre do ano fazemos as contas ao que de melhor se escutou no primeiro entre os muitos discos que foram surgindo.

Com três meses de discos, aqui fica uma primeira seleção de títulos fundamentais a reter entre a história do que de melhor ouvi este ano. Escrevi sobre todos eles por aqui pelo que, na hora de destacar estes três títulos, aqui recordo o que contei.

“O∆”, de London O’Connor
(True Panther) (*)

As facilidades de produção que as tecnologias colocaram ao serviço dos músicos e as hipóteses de comunicação e distribuição que a internet igualmente trouxe alargaram em muito as possibilidades de muitos outsiders em criar os seus discos (ou como lhes quiserem agora chamar) e de os fazer chegar as seus públicos. A ideia do outsider foi-se assim diluindo, o que não impede que, mesmo assim, e de vez em quando, entre em cena alguém decididamente não alinhado (em modas, em vagas, em circuitos, em hypes) e nos lembre como, por vezes, é das ideias e vivências mais aparentemente alienígenas que surgem algumas pistas com sabor a algo verdadeiramente novo… E por isso mesmo vale a pena assinalar a estreia em disco de London O’Connor como uma peça maior entre a vasta oferta de novidade que, a cada dia, junta torrentes de bytes ao corpo digital global pelo qual chegam os sons que vamos escutando.

Com 26 anos London O’Connor não é propriamente um iniciado. Até porque o seu álbum de estreia O∆ (lê-se circle-triangule) conta já dois anos de vida, tendo surgido em 2015 por auto-edição via SoundCloud. A sua edição, agora, também em suportes físicos, materializa e dá agora uma visibilidade maior a um artista e a um quadro de ideias com todos os ingredientes certos para conhecer merecido destaque em 2017.

Quem é London O’Connor? É um ser errante, que (como pelo menos contam as mais recentes peças jornalísticas) anda de casa de amigo em casa de amigo, dormindo em sofás, transportando pouco mais do que o seu skateboard e uma mochila e, nos últimos tempos, tem usado a mesma roupa amarela… Nascido e criado na Califórnia, hoje com vida em Nova Iorque, apresentou nestas suas canções uma carta de apresentação que traduz, com um sentido de tocante verdade a expressão de vivências suburbanas. O facto de um dia ter revelado online o seu número de telemóvel, preferindo o contacto pessoal às trocas de mensagens em redes sociais, diz muito da busca por uma expressão o mais fiel possível de identidade. E essas marcas estão depois expostas quer nas palavras das suas canções – onde domina o canto mas está também presente um registo mais falado e próximo dos modelos da cultura hip hop – quer em entrevistas onde explica porque gosta de usar sempre a mesma roupa (porque, como ele mesmo diz, não perde tempo assim a pensar no que não é fulcral) ou reflete sobre questões identitárias (e é bem interessante quando nos explica porque não se identifica com a ideia de que ser homem significa embarcar numa busca por posse e poder).

E depois há a música… Sim, e O∆ traduz afinal a mesma carga de busca de verdade e de afirmação de identidade que habita as palavras que canta e as frases com que vai dando respostas nas entrevistas. Eletrónicas (aparentemente lo-fi num primeiro confronto, mas na verdade alvo de um cuidado e atento labor de detalhada produção), batidas e voz unem-se em canções que cativam desde logo pelo sentido único e raro que respiram. Lembram o sentido de urgência e sedutora fragilidade de algumas das primeiras canções de Beck no modo como expressam identidade e abrem frestas diferentes embora partilhando referências, sons e expressões que são comuns a outras frentes de criação em vivências urbanas e consumos de cultura pop do nosso tempo (Star Trek é uma delas, como se escuta no interlúdio que antecipa Love Song).

Elementos R&B, pop eletrónica, hip hop cruzam-se entre as referências que London O’Connor assimila para depois transformar em peças nascidas na solidão de um quarto, capazes por isso de captar as mais íntimas confissões. Ao mesmo tempo, ao escutar um tema como Guts ecoam aqui também todo um conjunto de heranças primordiais da cultura indie (antes da formatação que nos últimos anos reduziu muito desse universo a aborrecidos denominadores comuns). Os 28 minutos de duração do álbum (e que bom é ter obras curtas, mas boas) não escondem depois o trabalho atento de moldagem das ideias sonoras em jogo. E vale a pena revelar aqui que London O’Connor se mudou para Nova Iorque para estudar no Clive Davis Institute e que chamou à mesa de mistura deste álbum o talento veterano de Rob Powers, que trabalhou ao lado de nomes como os dos The Roots ou Erykah Badou. Entremos assim no universo de London O’Connor… Que começamos a descobrir, assim, na sua… fase amarela.

“Memories Are Now”, de Jesca Hoop
(Sub Pop)

Há nas histórias pessoais de cada artista um ou outro episódio que acaba, um dia, a fazer parte daquelas referências maiores e imediatas com as quais se conta, numa ou duas frases o seu quem é e de onde veio… E com a californiana Jesca Hoop, hoje com 41 anos e, até aqui uma discografia já considerável mas ainda relativamente desconhecida, essa história passará certamente pelo facto de, em tempos, ter trabalhado como ama dos filhos de Tom Waits e que tanto ele como a sua mulher, Kathleen Brennan, terão sido dos primeiros a reparar no seu talento e a ajudá-la em passos que lhe permitiram definir os primeiros trilhos de uma carreira. Os contactos abriram portas às canções, surgindo um primeiro álbum em 2007. Seguiram-se outros, um deles em regime de duetos com Sam Beam (também conhecido como Iron & Wine), cabendo a esse disco o início de um relacionamento com a Sub Pop que agora edita Memories Are Now, o álbum que está a conquistar atenções e a fazer de Jesca Hoop, mesmo já com uma obra editada, uma das grandes surpresas de 2017.

Num cativante contraste com o som mais cheio de discos seus como Kismet (2007), Hunting My Dreams (2009) ou The House That Jack Built (2012), mas não reduzindo as canções ao ascetismo de Undress (2014) ou da abordagem acústica na qual reinventou os temas do disco de estreia, o novo álbum apresenta um corpo fortíssimo de canções de poupada artilharia nos arranjos e pelas quais tanto passam ecos depurados de referências indie rock  e folk. Os que se deixaram encantar (como eu) pelo álbum Burn Your Fire for No Witness de Angel Olsen, têm aqui mais uma proposta talhada ao seu gosto.

Histórias vivenciais, algumas com tramas que falam de dor e perda, não são coisa rara. Jesca Hoop consegue não só definir uma cativante abordagem poética às palavras como, depois, as molda musicalmente em peças que tanto servem a placidez do dedilhar das cordas de uma guitarra acústica como surgem em paisagens mais angulosas, embora nunca abrasivas, feitas com o som da guitarra e o eco que fica depois, mais os silêncios que fazem sentir o espaço entre as notas tocadas e cantadas.

Há um sentido de verdade primordial entre estas canções, o que evoca talvez outro dos passados profissionais quando, na juventude, Jesca Hoop ensinava métodos de sobrevivência em terreno selvagem. E entre jogos de palavras que ativam memórias bem humoradas (como quando ouvimos dizer “computer says no” em Animal Kingdom Chaotic) e o fulgor que habita temas como Cut Connection, Unsaid ou o tema-título não faltam aqui portas de entrada num disco que instala, merecidamente, o nome de Jesca Hoop entre as grandes cantautoras da sua geração.

“Elegy”, de Theo Bleckman
(ECM Records)

Com uma já vasta obra em disco que recua ao início dos anos 90 Theo Bleckmann conquistou atenções maiores (chamando novos públicos para além dos mais atentos seguidores do jazz) através de uma série de edições que lançou através da Winter & Winter entre 2006 e 2012. Durante essa meia dúzia de anos tanto visitou o repertório de musicais como mergulhou entre as canções de Charles Ives ou fez de Hello Earth! – The Music of Kate Bush (2012) uma espantosa viagem através de canções de Kate Bush.

O caráter raro do timbre e das capacidades de desenho melódico do seu canto chamaram atenções, sobretudo junto de quem procura qualidades diferentes e desafiantes na voz. Meredith Monk chamou-o a dois discos seus: Mercy (2002) e Impermanence (2007). E mais recentemente a pianista Julia Hülsmann partilhou consigo o álbum A Clear Midnight (Kurt Weill And America) (2015). Destas três colaborações com o catálogo da ECM nasceu uma nova etapa de trabalho da qual este seu disco é um primeiro exemplo, representando assim este novo Elegy a estreia, em nome próprio, do cantor na etiqueta alemã.

Theo Bleckmann não está só em Elegy. Conta aqui com a colaboração de Shai Maestro (piano), Ben Monder (velho colaborador seu, na guitarra), Chris Tordini (contrabaixo) e John Hollenbeck (bateria), a “ambient band” como o cantor lhe chama. O álbum inclui sobretudo composições suas, mas junta uma espantosa abordagem a Comedy Tonight de Stephen Sondheim que nos recordam da excelência de incursões anteriores por territórios semelhantes.

Elegy, por onde se cruzam canções e peças instrumentais que abordam os espaços da morte e da transcendência, é um disco que parte também para além das fronteiras do jazz, embora não lhe queira fugir. E basta escutar a belíssima canção “ambient” que se apresenta em To Be Shown to Monks at a Certain Temple para reconhecer como confluem aqui experiências, memórias, referências, que depois buscam o seu caminho segundo a liberdade que a voz concede à interpretação e o ensemble depois tão bem sabe seguir. Um contraste semelhante habita no confronto entre as qualidades fúnebres das temáticas e as tonalidades luminosas com que as composições depois tudo transformam. E, sim, a voz de Theo Bleckman é aqui a razão que tudo une e faz corpo coerente.

(*) O álbum teve primeira edição digital em 2015 mas só agora conheceu edição em suportes de LP e CD.

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