Últimas notícias

Em piloto automaton…

Texto: NUNO GALOPIM

Depois de ter sido apresentado por um single de desafiante tempero ‘eletro’ e com travo pop no refrão, o álbum que assinala o regresso dos Jamiroquai após um silêncio de sete anos acaba por não trazer a ousadia e frescura que o tema-título parecia prometer.

Revelado em tempos de descoberta de novas qualidades gourmet para a canção e o gosto de dançar em clima acid jazz com o álbum Emergency On Planet Earth, Jay Kay fez dos Jamiroquai (banda que muitas vezes se confunde com ele mesmo) uma das mais importantes forças de revitalização das qualidades hedonistas do disco no panorama da pop dos noventas, valendo-lhe as suas qualidades performativas e um trabalho cuidado no plano visual a conquista de um lugar de peso no panorama mainstream, o que fez de singles como Virtual Insanity, Cosmic Girl ou Deeper Underground clássicos do cancioneiro pop dos noventas, mesmo não mostrando estas canções vontade em juntar mais ingredientes substancialmente diferentes face à ideia inicial.

Depois do mais morninho (e algo inconsequente) Rock Dust Light Star de 2010 seguiu-se um hiato que, sete anos depois, viu o silêncio ser interrompido pelo fulgor eletro de Automaton, um single (um dos melhores de sempre dos Jamiroquai) que transportava a voz sempre festiva de Jay Kay para um terreno de anguloso festim digital e delicioso refrão pop que lhes valeu (sem surpresa) comparações com os Daft Punk. Os dados estavam lançados para o que parecia um regresso em terreno… diferente. E entusiasmante.

Quando Atomaton, o álbum, chegou na passada sexta-feira, o alinhamento confirmou receios o que, entretanto, o segundo single – o mais canónico Cloud 9 – fizera supor… A mudança não era de todo coisa nascida de uma reflexão profunda. Esgotava-se numa canção. Já que, mesmo com pontuais temperos eletro num e outro dos momentos, como se escuta em Superfresh ou Carla, e um saboroso flirt acid jazz (devidamente reinventado) em Vitamin, o álbum acaba por sugerir que houve ou falta de inspiração para mais ou receio de avançar no sentido da ousadia sugerida pelo tema-título.

É um disco competente, conhecedor dos ingredientes do disco sound e do funk e com uma performance vocal de quem sabe muito bem fazer dançar o seu canto por estes lados. Mas, depois de lançada uma lebre tão apetitosa, Automaton (o álbum) mostra que afinal não tem pernas para correr tão bem como o parecia sugerir, voltando a usar modelos (sobretudo na escrita) já antes usados, sem contudo gerar mais momentos capazes de romper o ambiente mais-do-mesmo que se instala. Além disso o estilo despreocupado vincado em temas como Summer Girl ou Nights Out In The Jungle soa, em 2017, a coisa anacrónica que, sob a cultura assombrada de um presente que não vive exatamente o clima de progresso e otimismo dos noventas em que esta música foi banda sonora para episódios de hedonismo, não se digere assim tão bem. Há que saber lidar com a memória. Porque os tempos mudam.

“Automaton”, dos Jamiroquai, está editado em LP e CD e também disponível nas plataformas digitais, num lançamento Virgin / Universal. ★★

Advertisements

1 Comment on Em piloto automaton…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: