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Postais da Rússia

Texto: JOÃO FERNANDES

Em “O Czar do Amor e do Tecno” Anthony Marra cria uma narrativa panorâmica em movimento acelerado, sobrevoando a nação russa e em direcção ao espaço inter-estelar.

A acção começa no auge das purgas estalinistas. Um pintor tornado censor de fotografias visita a família do irmão, que foi vítima das purgas, para prevenir que aconteça o mesmo ao seu sobrinho e à mãe dele. É neste pequeno prólogo que surge a primeira rima do livro, a fotografia de uma bailarina principal caída em desgraça, que o pintor/censor terá de alterar para apagar a prova de que ela alguma vez existiu, como aconteceu a muitas outras pessoas indesejadas pelo regime. Também aparece a segunda rima, também pela mão do pintor, que em todas as obras de pintura que é obrigado a alterar, introduz o rosto do irmão desaparecido.

Depois do prólogo, Marra arranca com a narrativa a um ritmo formidável. Percorre décadas em poucas páginas, contando o que aconteceu à bailarina do primeiro capítulo depois de ter sido enviada para a cidade longínqua de Kirovsk, nas proximidades do círculo polar árctico. Conta-nos também que teve uma filha, e uma neta, Galina, que irá ser uma personagem principal no resto do livro. Ao mesmo tempo relata o que aconteceu na Rússia pós-soviética, e não se consegue ler as frases rápidas sem sentir um mínimo de compaixão pelo povo russo, que perdeu na transição para o mercado livre e na ascensão da oligarquia muito do que lhes era querido.

Em grande parte, trata-se de um livro sobre as dolorosas separações que acontecem na vida das pessoas, e a grande escala, na das nações. O tempo não volta para trás, mas Anthony Marra mostra que é possível, mesmo depois de grandes cataclismos, seguir os fios perdidos da história, garantindo uma notável continuidade narrativa, através de ligações improváveis e objectos testamentários: uma fotografia de uma bailarina, uma pintura de uma paisagem chechena, uma cassete de música. Todos estes objectos estão interligados nesta história, e os fios narrativos são tecidos numa tapeçaria ilustrativa da alma e do coração emocional russo no final do século XX, não esquecendo as grandes mágoas, as feridas recém-cicatrizadas ou ainda por sarar, a queda do regime soviético, a tomada de poder da oligarquia corrupta, violenta e ganaciosa , o conflito na Chechénia.

Podemos confiar que a caracterização da rússia pós-soviética é feita de modo rigoroso e verosímil, pois Anthony Marra, apesar de ser norte-americano, viveu e estudou em S.Petersburgo durante o período em que a história d’O Czar do Amor e do Tecno se passa. Os sentimentos que o livro possa suscitar no leitor não são injustificados, nem o resultado de uma narração artificialmente melodramática. O desespero e a tristeza são genuínos, bem como a vontade irresistível de imaginar que é possível escapar através do amor que nos liga a todos, mesmo depois da morte, mesmo separados por distâncias astronómicas.

A memória é a prova indelével da existência, a história avança aos arremessos e a Terra continua a rodar no seu eixo, e mesmo assim a relação que nos une não desaparece.

“O Czar do Amor e do Tecno”, de Anthony Maara (384 pp.) está publicado entre nós pela Teorema

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