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O cancioneiro americano segundo Bob Dylan (parte 3)

Texto: NUNO GALOPIM

Depois de “Shadows and Dust” e de “Fallen Angels” Bob Dylan dá continuidade a um mergulho (cada vez mais profundo e consequente) pelo grande cancioneiro americano, desta vez na forma de “Triplicate”, um álbum que é um verdadeiro três em um.

“As coisas mais importantes podem às vezes levar uma vida para as aprendermos e, muitas vezes, acabam por se revelar por ser as mais simples”. A frase nem é minha. Nem de Bob Dylan. É de Tom Piazza e podemos lê-la no texto que abre o booklet que acompanha os três discos que encontramos em Triplicate, o mais recente disco do músico norte-americano que, este fim de semana, finalmente recebeu (numa cerimónia discreta e privada) o Nobel da Literatura de 2016. Merecido, volto a sublinhar. Não deixa, contudo, de ser curioso que aquele a quem o mais alto prémio literário do mundo foi atribuído, tendo sobretudo em conta o seu labor poético ao serviço da canção, tenha neste seu novo disco uma terceira incursão consecutiva pelas canções dos outros. Mas, e tal como o volta a defender Tom Piazza no booklet do disco, estamos a falar de um artista “famoso por surpreender os seus ouvintes” e este projeto, que defende ser “talvez o mais surpreendente da sua carreira” é um álbum de “imensa confiança e humildade”. E a verdade é que, sem aparato maior, mas firme na força de uma voz autoral (que não só a que canta mas também a que encontra aqui um modo muito pessoal de abordar este cancioneiro), Dylan conquista definitivamente com estas 30 versões um lugar entre os que, ao longo dos anos, chamaram a si reinterpretações de episódios do grande songbook da canção popular norte-americana. E se de um Dylan autor já tínhamos certezas (e o Nobel reconheceu-as), do Dylan intérprete este disco, que devemos juntar aos imediatamente anteriores Shadows and Dust (2015) e Fallen Angels (2016), inscreve-o sem mais margem para dúvidas ao lado de nomes como os de uma Ella Fitzgerald, Billie Holliday ou Frank Sinatra, pelo modo como, nas suas obras, encarnaram visões bem pessoais sobre este corpo de canções que, em grande parte, representa espaços nascidos entre a Tin Pan Alley, os palcos de teatro da Broadway ou até mesmo os programas de rádio e os primeiros discos, num tempo anterior ao momento em que a cultura pop/rock quase afogou as atenções sobre outras frentes da criação popular.

Sinatra volta a ser uma referência maior já que, tal como nesses dois álbuns dos dois últimos anos, a esmagadora maioria das canções aqui interpretadas conheceram versões pela voz da “voz”… Não se trata contudo de um duelo de galos a ver qual canta melhor. Pelo contrário, Dylan busca acima de tudo em Sinatra uma grande referência como fonte de um repertório que nasceu ou para si ou que ele mesmo reinventou e ao qual conferiu depois uma identidade que as suas abordagens fixaram em disco. No caso se Sinatra esse corpo de canções foi moldado num processo que conheceu etapas diferentes, sob parcerias distintas e tanto visando um encontro com a eloquência de grandes orquestras como com o festim mais quente das big bands onde o swing dançava mais alto… Em Dylan, e talvez por estar a nascer num tempo mais curto e através de uma soma consecutiva de discos, estas mesmas canções continuam a brotar com a ajuda de um quinteto que, ocasionalmente o músico reúne em estúdio, procurando soluções de grande simplicidade instrumental, o que não é sinónimo de um piloto-automático já que a subtiliza das abordagens se revela bem atenta às relações que a voz estabelece com as canções e não esquece que há espaços nos quais os próprios instrumentos podem também sublinhar as marcas de identidade do combo que aqui tem trabalhado em conjunto.

Naturalmente mais extenso do que os dois álbuns anteriores, o alinhamento de Triplicate na verdade corresponde à ideia de três discos reunidos sob uma capa comum e não ao tom habitual num triplo álbum que se escuta de fio a pavio. Cada disco (deste conjunto) tem dez canções, reunidas segundo um critério que as junta pelo mood que os temas ou os modos de as abordar define. Entramos neste corpo ao som do fim de tarde e início de serão de ‘Til The Sun Comes Down (onde há um belíssimo September of My Years que permite um claro contraste com a leitura mais imponente de Sinatra). Depois entramos no fulgor da noite animada e intensa com Devils Dolls. E fechamos o percurso em Comin’ Home Late.

Como que contando a crónica de um serão mais definido pelos ambientes do que pelas histórias, personagens ou memórias que as canções possam sugerir, este disco tanto recupera standards que conhecemos em diversas vozes (como Stormy Weather, As Time Goes By ou These Foolish Things) como alarga o espectro a canções que habitam alguns dos alinhamentos menos célebres (mas não menos estimulantes) da discografia de Sinatra.

Dylan pode ter levado uma vida para aqui chegar. E o entusiasmo que brota deste terceiro álbum (ainda por cima triplo) sublinha essa vontade em trabalhar este corpo de canções. Não deixa de ser curioso termos aquele que foi um dos autores que mais motivaram gerações de músicos a cantar as suas próprias canções e não a viver da escrita dos outros a entender como a assinatura de um autor também se expressa no modo como se aborda a interpretação. Estamos sempre a aprender. E Dylan, pelos vistos, também.

“Triplicate”, de Bob Dylan, está editado em formatos de 3LP e 3CD e está também diosponível nas plataformas digitais num lançamento da Columbia / Sony Music. ★★★★

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