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Nua vai para a fonte

Texto: GONÇALO COTA

Gisela João, pelo palco do Coliseu de Lisboa, vai formosa e mais segura do que nunca: a miúda que veio de lá longe para cantar fado com propriedades muito particulares mostra-nos a versatilidade lírica e rítmica de “Nua”, o seu mais recente álbum, editado no final do ano passado.

A mão que acena um adeus expressivo enquanto os panos ainda não estão levantados é a mesma que encheu o Coliseu do Porto uma semana antes e que se prepara para cantar os treze temas do seu novo álbum em Lisboa. Estes não são os concertos de apresentação do disco, realizados na discoteca Lux pouco tempo depois do lançamento, mas antes uma forma de fazer jus às possibilidades visuais da voz de Gisela João.

Os adereços no palco fazem lembrar um qualquer dia de chuva intensa, que contrastam com o letreiro primaveril no topo do palco, no qual rosas de todas as cores desenham o seu nome. E é ao som de uma cantiga bucólica da Beira-Baixa e de interlúdios em tom de texto diarístico, que remetem essencialmente para a pluralidade semântica da nudez – a nudez como libertação, a nudez como constrangimento -, que sobe ao palco com a vivacidade e naturalidade que nos brinda este inicio de noite.

Da sua voz emerge também a espectralidade de registos que tem o Cancioneiro: num tom mais alegre trouxe-nos reinterpretações de Vo Dar de Beber à Dor ou de O Senhor Extraterrestre, composto por Carlos Paião. A letra escrita pela amiga Capicua, Noite de São João, transporta-nos rapidamente para o calor das ruas do Porto e para o som dos martelinhos.

Labirinto e Não Foi Nada, poema de David Mourão-Ferreira (e que conta no seu vídeo com a participação de Deborah Krystall, importante figura da noite queer portuguesa) ou Fado Para Esta Noite demonstram a facilidade com que intercala temas de solidão e saudade, áureos. Não foram esquecidos Ary dos Santos ou Alfredo Marceneiro, mas as verdadeiras curiosidades são O Mundo é um Moinho e As Rosas Não Falam, ambas do compositor brasileiro Cartola, bem como La Llorona – que ficou célebre na voz de Chavela Vargas – por serem uma clara mensagem de que o fado não são apenas cantigas que se fazem nas vielas de Lisboa, mas se podem estender e confluir com a visões artísticas de além-mar.

As comparações com Amália, contudo, são mais que absurdas: a incomensurabilidade da experiência, da época, da vivência não permite que Gisela João seja “a nova Amália”. E ainda bem. A inteligência do repertório, o contraste entre complexidade e profundidade da sua voz e a quase inocência com que olha para as penas a caírem no palco, no final dos dois encores ou a entrega e avidez com que canta fazem de Gisela João das mais importantes artistas no panorama artístico português.

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