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A vontade de não desistir em seguir por bons caminhos

Texto: NUNO GALOPIM

Os passos ensaiados em três EP que o grupo lançou entre 2016 e 2017 dão agora voz, num álbum, a uma nova formação dos Fujiya & Miyagi, que mantém em tudo viva a sua vontade em explorar as heranças do ‘krautrock’ e de um modo muito próprio de usar mais a fala do que o canto.

Uma das mais interessantes discografias pop do século XXI tem vindo a ser assinada, a um ritmo tranquilo, por uma banda que, apesar do nome, nem é um duo nem japonesa. São na verdade de Brighton (Reino Unido) e, desde 2015, são novamente quatro (depois de breve etapa reduzidos a três elementos), sendo este novo álbum, ao qual chamam simplesmente Fujiya & Miyagi, o primeiro criado por esta nova formação (na verdade não sendo mais que a reunião de material de três EP lançados entre 2016 e este ano). Observado agora como um corpo comum, o conjunto aqui reunido em nada parece querer afastar-se das dinâmicas habituais de exploração de heranças do krautrock em composições nas quais a voz fala mais do que canta. Não há cata-ventos à procura do sopro indie do momento por aqui…

Mesmo conduzido sob uma lógica de evidente continuidade face ao percurso anterior da banda, as canções do novo disco refletem uma opção por alguma contenção instrumental face ao tom mais intenso (e que piscava mais o olho à new wave) do anterior Artificial Sweetners (de 2014). Há aqui uma mais evidente vontade em não adornar as estruturas das programações com tantos elementos, despindo as ideias a um minimalismo que sustenta as ideias num plano de cenografias mais discretas, representando temas como Outripping (The Speed Of Light) – muito talhado à memória de Low, de Bowie – uma das raras ocasiões em que um corpo mais intenso de acontecimentos adorna a composição. Já o igualmente delicioso Swoon, que evoca memórias cold wave, retoma a dieta aqui tomada como plano de trabalho, mostrando afinal possibilidades diferentes dentro de um mesmo quadro de timbres e de cores. E o instrumental Synthetic Symphonies é coisa de puro deleite para quem gosta destes sabores contemporâneos mas de travo vintage.

Liricamente em sintonia com caminhos anteriores, Fujiya & Miyagi parece ser possível expressão de uma demanda sobre como manter um caminho firme mesmo sob poupança de recursos. Ou de como por vezes a procura das possibilidades da música feita ao vivo acabam depois a alimentar a escrita de uma banda. O álbum pede tempo. E certamente acabará por deixar compensado o admirador que aqui procura bons motivos para saborear um reencontro com uma banda claramente mais interessante que muitas das outras de que mais de tem falado no pós-2000. E que se está literalmente “nas tintas” para os jogos da fama e dos hypes.

“Fujiya & Miyagi”, dos Fujiya & Miyagi é uma edição em LP e CD, também disponível, nas plataformas digitais, em lançamento pela Impossible Objects of Desire. ★★★★

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