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Dalida: muitas lágrimas e poucos discos

Texto: NUNO GALOPIM

O ‘biopic’ sobre Dalida que chega esta semana às salas de cinema portuguesas não só trata a sua obra artística pela rama como parece mais interessado em mostrar a sucessão de dramas amorosos do que em explorar o percurso artístico e o seu significado.

Há uma série de males que costumam atacar frequentemente os biopics sobre músicos e fazer de muitos deles valentes odes ao aborrecimento. Um deles é a forma como por vezes os filmes quase esquecem o trabalho artístico que colocou ali aquele que está em foco e o apresenta apenas como um “famoso” que passou por uma vida cheia de problemas, com uns discos e uns concertos lá pelo meio. Um outro é aquele desejo de polir arestas e apresentar percursos de puxar ora a lágrima ora o entusiasmo, tudo isto com tempero de best of, num bolo que dá ares de ser completo mas é coisa de gritante superficialidade. E depois há aqueles que tentam ser tão detalhados como as entradas de uma Wikipedia, tentando falar disto e daquilo e de mais aquilo ainda, passando por inúmeras situações, acabando por deixar todas elas tratadas apenas pela rama… E não é que em Dalida, de Liza Azuelos, estão lá todos esses ingredientes? Pois é, e acabamos com um filme que sugere que teve uma vida difícil, terrível mesmo, que sozinha deve ter carpido mais lágrimas que muitos bairros em conjunto e… pelo meio foi fazendo uns discos e até mudado de estilo… porque sim. As relações da sua música com o seu tempo, a sua transformação num ícone (e o sentido da pertença que daí nasceu) ficam… pela rama.

Está lá o bê-á-bá do era uma vez da sua vida, desde a infância no Cairo ao suicídio com aquela nota na qual dizia apenas que tudo se tornara insuportável e que pedia perdão, passando pelo meio por vários episódios (contudo mais do foro cor-de-rosa do que musical). Mas logo aí, na vontade em explorar as histórias, as coisas ficam sempre meio no ar… Como tantos italianos residentes no Cairo por alturas da II Guerra Mundial o pai de Dalida foi detido (e no filme vemos esse momento, que sugere um fim trágico) mas na verdade regressou a casa, sofrendo de progressivas depressões e dores de cabeça e morreu, em 1945, de um acidente cerebral. É apenas um exemplo… Há mais… Mas este é um filme que parece sobretudo interessado em explorar pouco mais do que os dramas familiares e amorosos da vida de Dalida, introduzindo aqui e ali uns episódios com música. Quem não estiver interessado em fazer muitas perguntas talvez embarque aqui como no tremendamente entediante La Vie en Rose (sobre Piaf) e acabe até a cantarolar umas canções. Mas não deverá querer saber muito mais sobre Dalida, porque parece que viu as suas obras completas numa mão-cheia de minutos.

Convenhamos que há mais interesse em alguns episódios musicais pontuais e nos significados em volta do impacte de Dalida do que em grande parte dos seus discos. E o filme até olhou de relance sobre alguns deles, mas não se contentou em aprofundar as coisas e optou antes fazer um plano geral que, afinal, só vinca a impressão de uma vida de desgostos. Que tal ter antes focado atenções na forma como o casamento com Lucien Morisse (profissional da rádio) trabalhou, pelo esforço conjunto do casal, a edificação de um estatuto de estrelato. Ou, e esse daria um filme ainda mais intenso, a história de Ciao Amore, Ciao, a (bela) canção que Dalida levou a San Remo em 1967 e que teve um desfecho de sucesso nos discos mas de tragédia na sua vida pessoal?

Há rigor nas recriações visuais. E isso é de apontar, quer nos espaços do Olympia e do que seriam os escritórios da editora onde começou a carreira, ao palco de San Remo em 1967 ou de outros momentos ao vivo que protagonizou mais adiante…

É possível fazer bem melhor quando um músico e a sua obra são objeto para pensar um filme. Veja-se como Anton Corbijn tratou a figura (e o espaço urbano e humano envolvente) de Ian Curtis em Control. Como Sam Taylor Wood resolveu olhar para Lennon em Nowhere Boy reparando nos seus dias de maior juventude, educado pela tia e vivendo afastado da mãe. Como Bill Pohlad escutou Brian Wilson em Love and Mercy, num olhar em paralelo cruzando épocas mas sem se dispersar demasiado, escolhendo bem os episódios e comportamentos a explorar. Ou como Todd Haynes decompôs em I’m Not There a figura de Bob Dylan em várias personagens (e intérpretes) para entender as suas diversas faces… Não se compara aqui a importância musicológica da obra de Dalida com a de qualquer destes outros músicos. Mas entre a vida e os discos da cantora havia matéria prima para fazer bem melhor. E nem pedia aqui que se contasse que, em 1956, a estreia em disco de Dalida se fez num EP que tinha como canção principal Madona, uma versão em francês do Barco Nrego entretanto já celebrizado em França por Amália Rodrigues.

“Dalida”, de Lisa Azuelos, com Sveva Alviti, Riccardo Scamarcio, Jean-Paul Rouve, chega amanhã às salas de cinema portuguesas.

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