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A lixeira do esquecimento

Texto: NUNO CARVALHO

“Los Olvidados” é um retrato cru e cruel da delinquência juvenil nos bairros pobres dos arrabaldes da Cidade do México que consolidou Luis Buñuel como um cineasta de classe mundial.

Los Olvidados (1950) representou para Luis Buñuel, para além de um primeiro projeto pessoal na sua filmografia mexicana (depois de uma infrutífera passagem por Hollywood), uma reaparição e “ressurreição” internacional após um longo período de silêncio. No entanto, o filme, um retrato cru e cruel da miséria juvenil nos bairros pobres dos arrabaldes da Cidade do México, foi muito mal recebido pelo público e pela crítica (o que não é raro acontecer com obras que não fazem quaisquer concessões ao gosto popular e não contemporizam com modas que, quais “eucaliptos” totalitários e hegemónicos, secam tudo à sua volta), tendo mesmo sido retirado de cartaz e proibido. Porém, seria recuperado no ano seguinte, depois da consagração no Festival de Cannes (cuja inclusão na competição se deveu à intervenção de Octavio Paz), onde ganhou o prémio de melhor realização, sendo então revalorizado e reposto nas salas.

Aliando um registo quase documental a uma matriz ficcional, Los Olvidados, estando muito longe do didatismo sociológico, é todavia um filme com uma evidente intenção de denúncia social, e que faz apelo às forças políticas “progressistas”. Através do retrato de um grupo de delinquentes juvenis dos bairros de lata dos arredores da Cidade do México, Buñuel trata temas que reconhecemos como a sua imagem de marca, tais como a injustiça social, a solidão e falta de amor que empurram para atos violentos a que o Estado responde de uma forma repressiva e pouco instrutiva ou a presença do onírico como descarga de pulsões inibidas ou (re)velação de realidades de uma vida quotidiana cinzenta, dura e marcada por fatalidades desesperadas.

Como observa Mark Polizzotti no livro da série Film Classics do BFI que dedicou à obra-prima do génio aragonês, “através da noção de fome como princípio estruturante, [Buñuel] explora os temas da traição, do desejo e da morte”. E a verdade é que, apesar de distante do existencialismo escandinavo e da “fome espiritual” de um Knut Hamsun, Los Olvidados é, ainda assim, no seu “realismo brutal”, uma obra cujo abalo emocional e moral que provoca no espectador tem justamente como epicentro uma noção de “fome” – fome, em primeiro lugar, num sentido literal, porque a pobreza grassa e os bens alimentares escasseiam, mas também numa aceção metafórica, seja como fome de amor, de justiça, de pontos de fuga de um clima mental e social insuportável ou de uma redenção que, afinal, no seu extremo pessimismo antropológico, Los Olvidados nega a todas as personagens, mesmo a Pedro (Alfonso Mejía), o protagonista que inicialmente não sobressai mas que tem bom coração e se revela corajoso ao denunciar finalmente o crime de Jaibo (Roberto Cobo) que foi coagido a manter em segredo.

“Los Olvidados”, com Alfonso Mejía, Roberto Cobo, Estela Inda e Miguel Inclán, passa hoje, às 15.30, na Cinemateca Portuguesa, integrado no ciclo Carta-Branca a Paula Rego

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